Carlos Marques, Forrest Gump brasileiro
e "apóstolo predestinado do Santo Daime"
Por Juarez Duarte Bomfim [1]
 

 

Jornal Grande Bahia | Fonte: Juarez Duarte Bomfim, publicado em 26/01/2013

Carlos Marques, Forrest Gump brasileiro O jornalista Carlos Marques acaba de lançar o seu livro de memórias, autobiográfico, com o título "Lá sou amigo do rei". A surpreendente e aventureira vida do autor nos traz saborosas histórias, contadas em estilo leve, que prende o leitor e torna impossível parar de lê-lo.

Forrest Gump brasileiro, Carlos Marques é aquele tipo de cara que estava no lugar certo na hora certa, e isso o faz protagonista e testemunha ocular de muitos dos principais eventos políticos, sociais e culturais do Brasil e do mundo, e o leva a colecionar amizades com muitas das principais personalidades do século XX.

Também podemos considerar que, às vezes, ele esteve no lugar errado na hora errada, ao ser preso e duramente torturado pela Ditadura Militar brasileira, por mais de uma vez, o que o impele a deixar o país como clandestino em um navio cargueiro para a França, sua segunda pátria. Preso e duramente espancado na Argentina também, após convivência com os próceres da Casa Rosada e, paralelamente, com os guerrilheiros urbanos montañeros.

O release do livro o apresenta como "um repórter aventureiro, que enfrentou a ditadura militar, foi torturado no Brasil e na Argentina, clandestino em Paris, amigo de celebridades como Salvador Dalí, Jean Genet, Pelé, Khrisnamurti e João Paulo II, cineasta, músico, especialista em discos voadores, apóstolo predestinado do Santo Daime, embaixador da UNESCO por acidente, e voltou ao país como partiu: quase anônimo e sem um tostão".

É hilariante a narrativa do imbróglio que o autor se envolveu com o escritor e dramaturgo francês Jean Genet na sua residência carioca, quando a festejada celebridade, canonizado por Sartre como "São Genet" — que no passado foi ladrão, prostituto e condenado — é quase expulso de sua casa por insistente assédio homossexual.

Para nossa diversão conta Marques: "eu estava expulsando da minha casa um dos maiores escritores do mundo, sobre quem Jean-Paul Sartre, a inteligência suprema do século XX, havia escrito um livro de mais de 500 páginas!"

Outro causo: Marques priva da amizade do Papa João Paulo II ao passar uma semana com Sua Santidade em Castel Gandolfo, a residência papal de verão. Como prova incontestável desta história, o livro traz em anexo uma foto dos dois, o Santo Padre atento àquele pernambucano falante e sorridente, como quem está ouvindo uma piada de papagaio — ou de padre.

Escreve Muniz Sodré no Prefácio: … "a sua foto ao lado de João Paulo II, que me parecia estar à beira do riso. Papa não ri, a menos que compungido pelo relato de um pícaro", isto é, pessoa picaresca, cômica, burlesca.

Estas celebridades são apenas algumas das quais ele conheceu e protagonizou situações. Aparecem outras, muitas outras na sua narrativa: o general Castelo Branco, o economista Celso Furtado, o poeta Ascenso Ferreira, a feminista Rose Marie Muraro, Caetano, Gil, Gal…"

São tantas e extraordinárias histórias envolvendo pessoas públicas proeminentes, que é impossível não haver certa incredulidade de quem lê. Ao que Carlos Marques responde: "aos que perguntarem se é verdade tudo o que contei, darei a resposta de Marco Polo, quando questionado se todas as coisas extraordinárias e maravilhosas escritas no seu livro "As viagens de Marco Polo" ocorreram mesmo: 'eu não contei nem a metade de tudo o que vi'".

O que me atraiu a conhecer a história de vida deste jornalista foi justamente a condição que lhe é dada de "apóstolo predestinado do Santo Daime" na capa do livro. Elegante frase que resume um brilhante discurso de Toinho Alves (orador oficial) na noite de 30 de abril de 2008, sede do Alto Santo (Rio Branco-Acre), onde se realizou o evento oficial no qual foi solicitado ao ministro Gilberto Gil, da Cultura, que o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) instaurasse o processo de reconhecimento do uso da ayahuasca em rituais religiosos como patrimônio imaterial da cultura brasileira.

Discursou Toinho Alves:

— O Mestre Irineu, sabedor do passado, presente e futuro do jornalista Carlos Marques, excepcionalmente presenteou o jornalista com uma garrafa de Daime para que este a fizesse chegar às mãos do cantor Gilberto Gil, que a tomasse e conhecesse, para que, passados quase 40 anos, viesse ao Alto Santo na condição de ministro de Estado interceder por tornar a ayahuasca patrimônio imaterial da cultura brasileira (palavras minhas, registro de memória).

Gilberto Gil tomou Daime feito pelo próprio Mestre Raimundo Irineu Serra? Como se deu isso? O amigo José Murilo, assessor do ministro Gilberto Gil e filiado à igreja daimista Céu do Planalto (Brasília-DF), não entendia quando, em conversa com o artista, o dublê de cantor e ministro de Estado jactava-se de ter bebido Daime dado pelo próprio Mestre Irineu. Talvez considerasse isso uma licença poética do autor da significativa canção "Metáfora"…

O senhor Raimundo Irineu Serra, fundador da Doutrina do Daime, é uma figura mitológica para os seus discípulos e devotos. Tanto para os antigos, que conviveram com ele, como para as gerações mais novas, não mais concentrados no Estado do Acre e sim espalhados por todo o Brasil e o mundo.

Sua biografia, seus causos, o belíssimo hinário onde expõe a sua Doutrina cantada, a introdução do uso coletivo e urbano da bebida ayahuasca, por ele, faz desse hierofante brasileiro um mito, uma lenda, digno de veneração por seus seguidores.

A pista para o entendimento do episódio do Daime bebido pelo então ministro, estava em ir juntando as poucas informações da imprensa acreana sobre a visita de Carlos Marques ao Acre em 2006, depoimentos orais e — fundamental para complementar a história — a leitura do livro de Caetano Veloso, Verdade Tropical.

Fui colando os pedacinhos e elaborei o meu artigo mais conhecido, "O Daime, Caetano e Gil". Eis que agora podemos ler a versão da história pela pena do próprio Carlos Marques — o Forrest Gump nacional.
Interessante é que nas páginas 67 a 77, o autor muda o estilo picaresco do livro, deixa de lado qualquer comentário cômico ou maledicente e nos brinda com um testemunho jornalístico de quem esteve frente a frente com o Rei Juramidã — nome sagrado do Mestre Irineu — e que sabe contar uma boa história.

Para minha honra, a estrutura da narrativa é a mesma que uso no meu já citado artigo; por duas vezes ele se refere ao "jornalista" Juarez Duarte Bomfim, e transcreve mais de duas páginas do meu trabalho.

A história: o jornalista Carlos Marques estava com 20 anos de idade quando a direção da revista Manchete decidiu destacá-lo, na companhia de um fotógrafo, para uma reportagem sobre a distante Rio Branco, capital do Acre, no ano de 1969.

Entre os vários entrevistados, Marques conversou com o bispo italiano Giocondo Maria Grotti, que dois anos depois (1971) morreria durante acidente aéreo no município de Sena Madureira.

Ao ser perguntado sobre os problemas que enfrentava na região, o bispo reclamou da Doutrina do Santo Daime, fundada pelo negro maranhense Raimundo Irineu Serra.

Marques decidiu conhecer o Mestre Irineu Serra, que trabalhava no roçado de sua propriedade quando o jornalista foi visitá-lo.

Escreve Carlos Marques:

"Transpondo o portão, vi um casebre, em frente ao qual me aguardava um belo crioulo, imensamente alto e musculoso."

— Mestre Raimundo Irineu? — perguntei, incerto. Mal podia crer que fosse ele, pois segundo a escassa informação que eu pudera reunir a respeito do bruxo, ele era um lavrador, filho de escravos, nascido em 1892. Ou seja, deveria estar então com 77 anos. Acontece que o homenzarrão diante de mim não aparentava mais de 50!

"Sem responder, ele me convidou a me sentar à varanda e, ao invés de dizer quem era, falou quem eu era, e em que dia nasci, e o que eu fazia. Sabia que eu fora preso, torturado e que tinha uma cicatriz na coxa direita, suvenir da hospitalidade militar. Disse várias outras coisas que só eu poderia saber. Perguntei como ele sabia tudo isso, e a resposta foi enigmática:"

— Você foi enviado a nós.

"Atordoado, entrei com ele no casebre, em cujo interior chamou-me a atenção uma parede toda recoberta pelos cipós e folhas com que era produzida a ayahuasca, decocção que remonta aos incas. Mestre Irineu, como ele preferia ser chamado, mostrou-nos os aposentos em que ficaríamos, o fotografo e eu, recomendando que descansássemos, pois à noite estávamos convidados a participar de uma cerimônia.

"Era muito semelhante às cerimônias do candomblé, com hinos e danças ao som de maracás, bongôs e atabaques. Não vi índios lá, só pequenos lavradores e gente humilde. O ponto alto da cerimônia, como a comunhão na missa, é a ingestão da ayahuasca, ou auasca, o tal chá que, segundo dom Giocondo (bispo de Rio Branco à época), enlouquece as pessoas e as transforma em homicidas. Eu disse isso ao mestre Irineu quando ele me entregou o chá. Ele riu, exibindo a poderosa dentição branquíssima, dizendo:"

— O bispo não sabe de nada. Isso leva a Deus.

"Bebi, o gosto era amargo, mas rapidamente se transformava em algo delicioso na boca. A primeira coisa que me acometeu foi uma percepção aguçada, dos detalhes das minhas mãos, do que acontecia ao meu redor; minha visão tornou-se delirante, mas a sensação, no geral, era boa, muito boa. Senti certa levitação, certo desprendimento de mim mesmo, como se saísse do meu próprio corpo. Não vi anjos hindus, como Caetano (Veloso), mas fui tomado de uma sensação de paz e plenitude que durou quase a noite inteira".

"… Passei três dias lá, e ao me despedir, recebi de mestre Irineu um garrafão de cinco litros de auasca, para que eu partilhasse com pessoas em busca de iluminação. Eu sabia que nunca mais o veria, e que nunca mais voltaria ao Acre, mas ele fez um prognóstico final, que achei muito improvável:"

— Você voltará.

"Quando cheguei ao Rio {…} entreguei a garrafa e o seu conteúdo ao meu amigo tropicalista Gilberto Gil, descrevendo-a como uma beberagem indígena sagrada que produzia visões deslumbrantes e estados de alma elevadíssimos."

Naquele mesmo dia Gilberto Gil tomou uma dose da bebida, e logo após foi para o Aeroporto Santos Dumont, no Rio de Janeiro, pegar a ponte aérea para São Paulo.

Já no saguão do Aeroporto de Congonhas, São Paulo, onde ocorria a inauguração de uma exposição militar, da FAB – Força Aérea Brasileira – o efeito do Daime começou a se manifestar, e Gil "captara conteúdos indescritíveis na presença dos militares".

Era época de Ditadura Militar e a classe artística e intelectual brasileira estava sendo duramente perseguida, e os próprios artistas baianos Gil e Caetano seriam logo após presos e "convidados" a se retirarem do Brasil.

Sob o efeito do Daime, Gilberto Gil sentiu glauberianamente "como se tivesse entendido o sentido último do momento de nosso sentido como povo, sob a opressão autoritária"… e mesmo sob o medo que então os militares provocavam… sentia que podia "amar, acima do temor e de suas convicções ou inclinações políticas, o mundo em suas manifestações todas, inclusive os militares opressores".

A mensagem crística chegava assim ao coração do artista, apesar de todas as perseguições e temores: "Amai a vossos inimigos". Era o Daime operando…

Depois dessa experiência solitária no voo Rio-São Paulo, Gilberto Gil reúne um grupo de amigos no apartamento do compositor Caetano Veloso e propõe que todos fizessem uma "viagem" em conjunto. Seguindo a recomendação do Carlos Marques, Gil serve a cada um dos presentes pouco mais de meio copo.

Conta Caetano: "a beberagem espessa e amarelada tinha gosto de vômito, mas não me causou náuseas". A partir daí, a verve inspirada do poeta baiano transmite um interessantíssimo depoimento das visões e percepções do que via e sentia, da vida que percebia nos objetos inanimados, "a história de cada pedaço de matéria" de um prosaico carpete de náilon do seu apartamento, por exemplo…

Ao som do rock progressivo do Pink Floyd, no limite exíguo do vigésimo andar de um edifício paulistano, dá-se o experimento:

"Sandra (mulher de Gil) entrava e saia do quarto do som com os olhos duros e o rosto sério. Ela estava assustada. Eu a achava parecida com um índio. Gil estava com lágrimas nos olhos e falava alguma coisa sobre morrer, ter morrido, não sei. Dedé (mulher de Caetano) circulava pela sala dizendo que se via a si mesma em outro lugar. Eu fiquei muito feliz de observar que as pessoas eram tão nitidamente elas mesmas… Uns pontos de luz coloridos surgiram no espaço ilimitado da escuridão… Formas circulares eram compostas por lindos pontos luminosos dançantes. Aos poucos eu sabia quem era cada um desses pontos luminosos. E em breve eles de fato se mostravam como seres humanos. Eram muitos, de ambos os sexos, todos estavam nus e tinham aspecto de indianos. Essas pessoas dançavam em círculos de desenhos complicados, mas eu não só podia entender todas as sutilezas dessa complicação como tinha tranquila capacidade de concentração para saber sobre cada uma das pessoas tanto quanto eu sei de mim mesmo ou de meus próximos mais amados".

É dito que da(s) experiência(s) com o Daime, particularmente experiências pico como esta, de Gilberto Gil ("Gil… falava alguma coisa sobre morrer, ter morrido"…) surgiram belíssimas canções do seu cancioneiro, tal como "Se eu quiser falar com Deus".

Se eu quiser falar com Deus
Tenho que ficar a sós
Tenho que apagar a luz
Tenho que calar a voz

Tenho que encontrar a paz
Tenho que folgar os nós
Dos sapatos, da gravata
Dos desejos, dos receios
Tenho que esquecer a data
Tenho que perder a conta
Tenho que ter mãos vazias
Ter a alma e o corpo nus

Se eu quiser falar com Deus
Tenho que aceitar a dor
Tenho que comer o pão
Que o diabo amassou

Tenho que virar um cão
Tenho que lamber o chão
Dos palácios, dos castelos
Suntuosos do meu sonho
Tenho que me ver tristonho
Tenho que me achar medonho
E apesar de um mal tamanho
Alegrar meu coração

Se eu quiser falar com Deus
Tenho que me aventurar
Tenho que subir aos céus
Sem cordas pra segurar

Tenho que dizer adeus
Dar as costas, caminhar
Decidido, pela estrada
Que ao findar vai dar em nada
Nada , nada, nada, nada
Nada, nada, nada, nada
Nada, nada, nada, nada
Do que eu pensava encontrar

Em êxtase, Caetano mirava os seus "anjos indianos" nessa "experiência celestial":

"Eu alternava — com abrir e fechar os olhos — observação do mundo exterior e vivência desse mundo de imagens que se tornava cada vez mais denso… aos poucos eu reconhecia que os seres vistos com os olhos fechados eram indubitavelmente mais reais do que meus amigos presentes no quarto do som ou as paredes desse quarto e os tapetes".

Com a consciência expandida pela miração, Caetano conhece outra concepção de espaço, diferente da corriqueira e "precária convencionalidade"; o "tempo era igualmente criticado por essa instância mais alta em minha consciência lúcida: com benevolência e sem nenhuma angústia, eu sabia que o fato de estar vivendo aquele momento era irrelevante diante da evidência de que eu já tinha — ou teria –— nascido, vivido e morrido — e também jamais existido —, embora a percepção do meu eu naquela situação fosse uma ilusão inevitável".

O artista santamarense continua inspiradamente a narrar a sua experiência — da qual recomendamos a leitura atenta, pois não é possível transcrevê-la toda aqui — e quem discursa é também o antigo estudante de filosofia da Universidade da Bahia: diante da representação da "ideia de Deus" diz não saber se teve "o súbito retraimento de quem aprendeu que a face do Criador não pode ser contemplada".

Surge então a dúvida no coração de quem vivenciava um extraordinário momento extático, e ao ser levado por Dedé para se olhar no espelho do banheiro, ver seu rosto "de sempre" após toda essa experiência… passou então a ter a certeza "de que estava louco". Porém "esse eu que tinha tal certeza era como que indestrutível: esse não fica louco, não dorme, não morre, não se distrai"…

Quão bela experiência... Vemos que foi revelada a Luz do Daime a este sensível poeta e compositor baiano e o merecimento de se ver como espírito, a vislumbrar a sua essência — que é Divina, como a de todos nós.

Inebriado do divino e maravilhoso que é Deus, brincando com as dúvidas filosóficas à la Rogério Duarte, futuro devoto hare krishna: "Eu não creio em Deus, mas eu vi!" ou 'É óbvio que Deus não existe, mas a inexistência de Deus é apenas um dos aspectos de sua existência..." Parodiando Nietzsche, Caetano vai bradar para todo o Brasil: "Deus está solto!" Sob as vaias da apresentação festivalesca do seu "É proibido proibir".

Dessa vivência transcendental, Caetano reflete assim: "… por mais de um mês eu me senti vivendo como que um palmo acima de tudo o que existe. E por mais de um ano certos resquícios específicos se mantiveram. Na verdade, algo de essencial mudou em mim a partir daquela noite".

"Quem é ateu e viu milagres como eu
Sabe que os deuses sem Deus
Não cessam de brotar, nem cansam de esperar
E o coração que é soberano e que é senhor
Não cabe na escravidão, não cabe no seu não
Não cabe em si de tanto sim
É pura dança e sexo e glória, e paira para além da história

Ojuobá ia lá e via
Ojuobahia
Xangô manda chamar Obatalá guia
Mamãe Oxum chora lagrimalegria
Pétalas de Iemanjá Iansã-Oiá ia
Ojuobá ia lá e via
Ojuobahia
Obá

Quem é ateu…"

Voltando ao comecinho da nossa história… pois não é que o jornalista Carlos Marques retornou ao Acre após quase 40 anos? Ao final de uma audiência com o então governador Jorge Viana, este perguntou ao jornalista se ele já conhecia o Acre. Marques contou o que já narramos, e para sua surpresa o governador Jorge Viana mostrou ao jornalista o convite que recebera para participar dos festejos dos 50 anos de casamento do Mestre Raimundo Irineu Serra com a Madrinha Peregrina Gomes Serra, dignatária do Centro de Iluminação Cristã Luz Universal – CICLU Alto Santo, no dia seguinte, 15 de setembro de 2006. E convenceu o jornalista a permanecer mais um dia no Acre.

Marques reencontrou a Madrinha Peregrina Serra, viúva de Irineu Serra, a quem pediu desculpas pelo conteúdo ofensivo que sua reportagem ganhou na edição da revista Manchete, pois esta publicou então várias páginas com a reportagem, onde prevaleceu na edição a versão do bispo de que se tratava de uma seita diabólica. "Foi a primeira entre tantas a desagradar Irineu Serra e seus seguidores".

— Eu não podia revelar que havia encontrado Deus — disse Carlos Marques.

Na noite de 30 de abril de 2008, na sede do CICLU Alto Santo, foi realizado um evento oficial no qual a Fundação Elias Mansour, do Estado do Acre; a Fundação Garibaldi Brasil, do município de Rio Branco; e representantes dos centros que integram os três troncos fundadores das doutrinas ayahuasqueiras (Santo Daime, Barquinha e União do Vegetal), que solicitaram ao ministro Gilberto Gil, da Cultura, que o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) instaure o processo de reconhecimento do uso da ayahuasca em rituais religiosos como patrimônio imaterial da cultura brasileira.

O evento foi prenhe de êxito e um marco histórico do universo ayahuasqueiro brasileiro. No discurso de encerramento desta função religiosa de 30 de abril de 2008, já sem a presença das autoridades constituídas (ministro, governador, secretários de estado e políticos em geral), o orador oficial do CICLU – Alto Santo lembrou da singela história do jornalista Carlos Marques, concluindo que (palavras minhas, registro de memória): o Mestre Irineu, sabedor do passado, presente e futuro do jornalista Carlos Marques, excepcionalmente presenteou o jornalista com uma garrafa de Daime para que este a fizesse chegar as mãos do cantor Gilberto Gil, que a tomasse e conhecesse, para que, passados quase 40 anos, viesse ao Alto Santo na condição de ministro de Estado interceder por tornar a ayahuasca patrimônio imaterial da cultura brasileira.

Fontes: "Lá Sou Amigo do Rei". Carlos Marques, Editora Geração;
"O Daime, Caetano e Gil". Juarez Duarte Bomfim http://www.cultura.gov.br/site/2008/05/27/o-daime-caetano-gil/


[1] Juarez Duarte Bomfim é professor universitário na UEFS-Bahia. Sociólogo e Mestre em Administração pela UFBA. Doutor em Geografia pela Universidad de Salamanca-España.

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