Homenagem a Raimundo Gomes da Silva
Por Antônio Alves[1]

 

 

Me despeço meus irmãos, porque agora vou seguir, vou partir, vou destinado para o Rio de Jordão

Cumpro neste momento um amoroso dever, embora tão doloroso, de comunicar à humanidade o falecimento de Raimundo Gomes da Silva. Tenho diante de mim uma janela aberta por onde vejo as flores em que os arroxins sorviam seu néctar enquanto executavam seu bailado. É noite, as plantas tristes, sem visitantes, preciso pedir ao Mestre, nesta hora noturna, que reúna em mim toda a memória deste homem simples e bom para que eu possa explicar ao mundo o que o mundo perdeu. O que o mundo tem perdido em todos esses séculos em que se esqueceu de observar o vôo dos pássaros e os passos dos homens simples e bons.

Por um desses acertos do destino, aos quais costuma-se chamar de acaso ou coincidência, Raimundo Gomes da Silva nasceu no dia 24 de junho, dia de São João Batista, no ano de 1916. Foi em Belém. Seu pai, Antônio Gomes da Silva, decidiu rumar para o Acre, onde lhe tinham dito que encontraria um tesouro. O navio que trouxe aquela ou aquelas numerosas famílias chegou em 1918 ao seu destino. Destino... Quatro anos antes havia chegado ao Acre outro navio trazendo outro imigrante. Um jovem negro maranhense, muito alto e forte, também chamado Raimundo. Raimundo Irineu Serra.

Os anos passaram. O garoto de dois anos cresceu e completou 21, maioridade num mundo de seringueiros, castanheiros, agricultores, patrões, mercadorias e mistérios. Deu-se então o encontro, há muito tempo acertado. É Raimundo Gomes quem lembra.

Eu estava no mercado, pesando um saco de arroz que deu 92 quilos. Aí, fiquei olhando prum lado e pro outro pra ver se aparecia alguém que me ajudasse a botar aquele peso nas costas. Entonce entrou um soldado, um pretão muito alto, forte, todo fardado. Aí eu pensei: esse aí é que vai me ajudar. Chamei ele, pedi pra levantar o peso, pra botar nas minhas costas, e ele prontamente atendeu. Ainda disse assim: "Menino, tome cuidado, esse peso é muito pra você." E eu falei: "Pode deixar, é pertinho, dá pra levar." E saí.

Memória, me diga, como é possível reviver um momento? Como trazer de novo à presença e à permanência um encontro vivido no tempo se o mundo é todo ausentar-se em mudança contínua? O mundo é outro, e lembrar essas coisas de um Acre antigo é estar num tempo de homens diferentes dos de hoje, homens que valiam pela sua palavra e seu trabalho e que tinham um grande sentido de honra. Não essa honra fanfarrona e forasteira dos embusteiros da história oficial. Mas daquela íntima, em que um homem sabe no fundo de si mesmo que é honesto, é digno. Um tempo em que apertar a mão de alguém era um contrato, um compromisso, uma promessa, mais que um simples cumprimento.

O velho Antônio Gomes finalmente descobrira o tesouro. Ficara sabendo que Raimundo, chamado Irineu, era um Mestre Ensinador de uma Doutrina espiritual que se reunia com seus discípulos para estudarem divinos mistérios. Eles cultivavam uma bebida chamada uasca, feita com um cipó e uma folha da mata, que era capaz de mostrar coisas que os olhos da carne não conseguem ver. O Mestre tinha batizado de Santo Daime, porque pediam assim, "Dai-me", e recebiam hinos que falavam da felicidade do reino de Deus. Raimundo Gomes acompanhou o pai e os irmãos e entrou no trabalho do Mestre como quem entra no mar para uma longa viajem, guiado pelas estrelas.

Falar desse mar para a humanidade, como? Há milênios, os homens simples e bons, que conhecem a rota das estrelas, vem dizendo e mostrando e são perseguidos e ridicularizados. Como dizer que existem mistérios no ciclo da Lua para quem só vê a transparência do dinheiro e da comida, pela qual nem agradecem à terra por lhes ter dado? Como dizer que há outra vida para uma humanidade que não acredita nem mesmo nesta e teima em destruí-la? "Perguntei a todo mundo por onde vai o caminho e ninguém me respondeu, vou viajando sozinho" disse o Mestre. Raimundo Gomes segui-o. Por meio século trabalhou e agora recebe os frutos de seu trabalho.

Navegou muito e aprendeu muito. Formou seu próprio hinário, passava adiante os ensinos que recebia. Tornou-se curador. Muitos chegaram em sua casa à beira da morte e saíram refeitos, conhecia as plantas e as rezas, conhecia a palavra certa e a orientação segura, conhecia o caminho da harmonia. Substituía o Mestre quando este se ausentava. Dirigia os trabalhos, atendia a todos, tomava conta e dava conta.

Seu Ramalho tem 132 flores, hinos de profunda sabedoria e tocante poesia em linguagem simples e clara. Linguagem precisa de quem sabia para que servem as palavras. Era calado. Falava só quando perguntado, dentro do assunto, sem exagerar. Profeta maior não conheci. Mas não fazia pose. Há por aí alguns que tentam parecer, e adotam gestos, impostação de voz, estranheza nas roupas e no aspecto físico. Pensam que mudando a aparência conseguem atingir a essência. Raimundo Gomes era simples. O que era – e é – não apenas evitava alardear, até escondia. Dizia que a humildade é quem dava tudo a um homem e que "nós devemos ser só o que nós somos". Simples, claro, direto: um mundo que perdeu seu senso de medida não atende um homem assim.

O BRAÇO FORTE

Quem fazia os batismos? Raimundo Gomes. Introduzia cada um e todos no caminho que escolhera, que achava justo e verdadeiro. E só podia ser ele. Criança mais que qualquer criança, era comum vê-lo afastado da roda onde os homens politicavam conversando com um garoto de 5 anos sentado na ponta de um banco. Carinho de pai com os pequenos que lhe subiam pelos braços, lhe tiravam o chapéu e com ele aprendiam que a vida é boa. "O meu viver é um viver tranqüilo", cantava, enquanto trabalhava duro no roçado, na seringa, no comércio, na criação de animais.

Fazia-se em trezentos pedaços para dar conta de tudo. "Eu tenho sempre um braço forte a meu lado, é uma força superior e aí nela eu estou firmado", cantava mais vez porque sabia quem era, o lugar que ocupava, a missão que tinha que cumprir. E não sabia o que era o medo.

Sabedoria? Não bastassem seus hinos de profundidade inalcançáveis para os mortais comuns, trazia o saber na sua própria vida e em tudo que fazia. E não sabia nem escrever. Nem mesmo assinava o próprio nome. Um dia, cantávamos um de seus hinos e cantávamos errado. Colocávamos um "e" no lugar onde cabia uma vírgula. Ele interrompeu e explicou como era, demonstrando uma agudeza gramatical que ia muito além da frase, atingia o próprio sentido da construção e da articulação das palavras. Para os analfabetos como ele, ministrava conhecimentos sutis e profundos, e, para os de mente universitária, explicava o ABC. Quem poderia, neste momento de ilusão, dar valor a um homem pobre, analfabeto, desconhecido? Ah, meu velho Raimundo, não sei se posso concordar contigo e com teu otimismo em achar que esse mundo pode melhorar. Os homens estão tão distraídos para o que realmente importa.

Um dia me contou um sonho. Tinha visto um campo destruído com muita mortandade. Tinha encontrado com o Mestre e esse lhe dito que haveria uma mudança em redor do Brasil, mas que ele tivesse fé em Deus que conseguiria atravessar com toda a sua família. Me lembro muito bem. Era naquela época de Tancredo Neves, Colégio Eleitoral, havia boatos de golpe militar e outras coisas mais perigosas. Fiquei de olho na televisão, esperando uma "mudança". Daí uns dias subiu uma frente de vento frio vindo do Sul. Matou seis mil cabeças de gado de choque térmico no Mato Grosso, pois em poucas horas a temperatura caíra de 34 para 4 graus. Muita gente adoeceu, inclusive na família de Raimundo Gomes. E eu fiquei sabendo então que estava olhando o mundo de maneira superficial e vazio. Os impérios, as leis, os regimes, tudo se ergue e depois desaparece.
Mas o mundo real de terra, água, ar, fogo e espírito, é para o qual o homens simples e bons olham, pois esse mundo é permanente. O eterno é que importa, a saúde e o bem-estar é o que importa, a vida é que importa. Não os impérios de terra, que a humanidade constrói e destrói como castelos de areia.

MEU MESTRE ME CHAMOU

No final da vida, concentrou tudo que sabia. Dirigindo a Doutrina, deixou tudo preparado para a sua partida, colocou cada qual em seu lugar, renovou laços e compromissos, pois lhe cabia tocar a voz de reunir. Começou a anunciar. Um dia, cantávamos seu hinário na Colônia Santa Luzia, pra lá do Bujari, cumprido uma promessa que ele tinha feito de ir àquele lugar todos os anos. Nessa ocasião, ele disse: "É a última vez que eu vejo esse lugar, no ano que vem eu não estou mais aqui." E começou sua batalha com seu próprio coração. Tinha recebido de Dona Peregrina Gomes Serra, sua sobrinha e esposa do Mestre Irineu, dirigente máxima da Doutrina após a partida do Mestre, a tarefa de presidir o Centro. Queria cumprir sua missão até o fim. No inverno, passando a cada crise que lhe oprimia o peito, atravessava a chuva e a lama para chegar ao local dos trabalhos e dirigir as sessões. Era aconselhado pelos amigos a poupar-se, aguardar o verão quando pudesse andar de carro. Não dizia nada. Apenas cumpria, determinadamente, disciplinadamente, sua missão.

Seus ajudantes, em especial compadre, amigo e secretário Sebastião Jaccoud, se preocupavam. A família se desdobrava. Sua esposa, Dona Osmarina, fazia o que podia para impedi-lo de teimosamente ir trabalhar no roçado. Sobrinhos, afilhados, amigos, todos queriam ajudar. Ele dava a cada um a sua tarefa, mas a obrigação maior, o sacrifício maior guardava para si: curava, rezava e aconselhava. E no íntimo sofria suas dores calado e preparava-se para a partida. Uma semana antes, todos começaram a ter sonhos, mas ninguém queria acreditar. Ele disse à esposa:

Eu estou preparado. Não tenho um pingo de sobrosso. Sei quem eu sou, sei o lugar que preparei e onde vou ficar. A hora que o Mestre quiser, eu vou. Só o que ainda me prende é a saudade dos meus e só o que me entristece é não poder ver crescer as crianças menores.

No dia 27 de julho, nas primeiras luzes de domingo, viajou. Sem reclamar, com a mesma firmeza que demonstrava durante toda a sua vida, levantou-se da cama, sentou-se numa poltrona na sala e pediu que lhe prepara-se um chá. Inclinou a cabeça para um lado e partiu.

Velamos emocionados seu corpo e o enterramos ao pé do Santo Cruzeiro, na entrada do Centro. Guardaremos para sempre a lembrança do seu sorriso, de seu rosto sob o chapéu, de sua palavra, de seu amor. E, enquanto a humanidade distraída corre para um lado e para outro em busca de algo que não sabe o que é, nós sabemos que o tempo já chegou e o mundo vai se embalançar. Ele nos disse, nós ouvimos e vamos lembrar.

A festa de seus 70 anos, no último dia de São João, ficará para sempre em nossa memória. Havia um bolo enorme em forma de livro aberto, com um verso de um de seus hinos escrito: "Confio em mim ser pastor." Viveu 70 anos, um mês e três dias. Foi esse o tempo que o mundo o teve. Agora, Deus o tem.

Homens e mulheres do mundo, ouvi. A sabedoria existe. Ela é trazida do coração do universo para habitar a terra por homens simples e bons como Raimundo Gomes da Silva. Que trazia em si o infinito e que nos deixa essa infinita saudade.

 
[1] Antônio Alves é jornalista residente no Estado do Acre e frequenta o CICLU-Alto Santo, sede da doutrina, onde ele faz parte do conselho da Área de Proteção Ambiental Irineu Serra.

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