Uma visão detalhada sobre a bebida dos xamãs / por Adam J. Walker
 
A Bebida dos Xamans

O texto a seguir é uma pesquisa que eu escrevi sobre vários dos aspectos da Ayahuasca. Este trabalho foi feito visando aqueles que são novos para o assunto ou estão interessados em saber mais, porém não têm o tempo necessário para ler um livro inteiro.

Ayahuasca: Xamanismo da Selva e o Cipó dos Mortos

Don Agustin Rivas Vasquez, em "Amazon Magic" (Magia da Amazônia), diz, "Ayahuasca é o cipó da morte, a planta através da qual nós podemos experimentar a morte ou em alguns casos um desaparecimento físico, mas retornado. Uma transmutação pode acontecer, por meio da qual o nosso corpo e alma podem viajar pelo espaço e curar alguém… Durante quatro ou cinco horas o xamã trabalha com as pessoas, curando-as através da sua dança, música, mariris, icaros e sopros de tabaco. Na existência de pessoas doentes, o xamã as vezes precisa sugar e extrair a enfermidade".

Esta pesquisa examinará a tradição da cerimônia da Ayahuasca da maneira que é praticada pelos xamãs Quichua, indios sul-americanos, conhecidos como ayahuasqueros. Estes xamãs são ao mesmo tempo os médicos e líderes espirituais dos índios nativos americanos da floresta tropical de Montane, que engloba partes do Peru, Colombia e Brasil. Nós iremos explorar vários dos mistérios do ritual da Ayahuasca e concluiremos que quaisquer que sejam os motivos, o uso cerimonial da Ayahuasca, como um tratamento médico, é bem sucedido e efetivo.

A Bebida do Xamã

Ralph Metzner, Ph.D., editor e co-autor do livro "Ayahuasca: Hallucinogens, Consciousness, and the Spirit of Nature" (Ayahuasca: Alucinógenos, Consciência, e o Espírito de Natureza), diz, " A Ayahuasca é amplamente reconhecida por antropólogos como provavelmente o mais poderoso e o mais difundido alucinógeno xamânico". Ayahuasca é uma palavra de origem Quechwa, que traduzida significa "corda de morte" ou "cipó de almas" (Metzner). Embora Ayahuasca seja o nome do cipó, é também utilizada para descrever a poção terminada composta por mais de um tipo de planta. A poção pode também ser chamada de Iagé. Gerardo Reichel-Dolmatoff, antropólogo e pesquisador veterano de culturas latino-americanas, diz em sua pesquisa "The Cultural Context of an Aboriginal Hallucinogen: Banisteriopsis caapi" (O Contexto Cultural de um Alucinógeno Aborígine: Banisteriopsis caapi) que "O propósito de tomar o Iagé é o de retornar ao útero, para o fons et origo [fonte e origem] de todas as coisas, onde o indivíduo "vê" as divindades tribais, a criação do universo e da humanidade, o primeiro casal, a criação dos animais e o estabelecimento da ordem social". Pode também permitir que o espírito deixe o seu corpo e ganhe uma perspectiva elevada sobre a causa das enfermidades (Reichel-Dolmatoff). Esta exploração interna, assim como a caminhada através do psicocosmo, feitos possíveis através de narcóticos poderosos, é guiada pelo xamã, que é o supervisor e professor. Na introdução de seu diário, intitulado "The Beta-Carboline Hallucinogens of South America" (Os Alucinógenos de Beta-Carboline da América do Sul), Richard Evans Schultz diz que "O xamanismo deste vale pode bem representar o mais altamente evoluído conhecimento sobre narcóticos na Terra." 

Daniel Pinchbeck diz, em seu artigo "The Vine of Souls" (O Cipó de Almas), que os xamãs "Incas usavam Ayahuasca, mas acredita-se que o conhecimento da droga os antecede por milhares de anos". Terence McKenna fez o trabalho de uma vida estudando o uso de drogas psicoativas. Ele viajou exaustivamente para estudar com os xamãs. Em seu livro "Food Of The Gods: The Search For The Original Tree of Knowledge" (Comida Dos Deuses: Procura Pela Árvore Original do Conhecimento), ele diz que "xamanismo tem sempre, em suas expressões mais autênticas, ensinado que o caminho exige aliados. Estes aliados são as plantas alucinógenas e as misteriosas entidades ensinadoras, luminosas e transcendentais, que residem na dimensão adjacente, de extasiante beleza, e reconhecendo que nós as estivemos negando ao ponto de agora ser quase muito tarde"

Composição Química

O cipó da Ayahuasca, conhecido como Banisteriopsis caapi, contém alcalóides do tipo harmala. Destes, os principais componentes psicoativos da Ayahuasca são a harmina e a tetrahidroarmina (Metzner). Estes alcalóides inibem temporariamente a ação da enzima MAO no sistema nervoso central e, assim, aumentam simultaneamente os níveis de serotonina através do bloqueio da função cerebral chamada reuptake [termo técnico referido à reciclagem natural da serotonina produzida pelo organismo. Inibidores deste mesmo processo fazem com que o organismo produza quantidades de serotonina mairoes do que necessário] (Metzner). Os alcalóides do tipo harmala não são psicodélicos na sua natureza mas agem como um catalisador (Metzner). A planta chamada Chilipanga, conhecida como Psychotria viridis, é o segundo ingrediente principal do Iagé. As folhas contêm dimetiltriptamina, também conhecido como DMT (Metzner). "O DMT, profundamente relacionado à rotonina, é o alucinógeno central do xamanismo amazônico e o mais poderoso de todos os alucinógenos nos seres humanos" (McKenna). O DMT não é oralmente ativo, mas pode ser metabolizado pelo estômago depois da inibição das enzimas MAO. O Iagé leva cerca de 20 minutos para fazer efeito e a intoxicação geralmente dura cerca de noventa minutos (Metzner).

Daniel Pinchbeck diz que "sem o cipó da Ayahuasca, o integral potencial da Chilipanga poderia não ter sido descoberto. É interessante notar que a vinha sagrada que os ayahuasqueros veneram não é realmente o componente mais forte do Iagé. O DMT está naturalmente presente no corpo e é ativado quando uma pessoa morre. Em resumo, beber Ayahuasca afeta a glândula pineal do mesmo modo que esta é afetada pela morte por causas naturais. Por isso ela é chamada de "o cipó dos mortos".

Crenças Espirituais

A história da descoberta da Ayahuasca é vinculada ao conto mitológico nativo sobre sua sua origem. O povo Tucano [Povo indígena da região das bacias dos rios Uaupés - afluente do alto Rio Negro - e Pirá-paraná - afluente do rio Apapóris - que deságua no Japurá na altura da fronteira Brasil-Colômbia] acreditam que os primeiros seres humanos desceram do céu em uma canoa, feita de uma serpente viva. Quando eles chegaram ao solo, o sol lhes prometeu uma bebida mágica como presente. Esta bebida daria a eles os poderes dos céus, e que poderia ser usada para curar pessoas. Os homens tentaram fazer a bebida sozinhos mas não conseguiram. Então a primeira mulher entrou na floresta para dar a luz. Quando ela voltou, tinha uma criança [nos braços] que reluzia uma luz dourada. Este menino era o presente do sol e era o cipó. Cada um dos homens cortaram um pedaço vivo do cipó, que forneceu as primeiras regras de como viver e falar (Reichel-Dolmatoff).

Terrence McKenna especula que substâncias químicas, tais como aquelas presentes na Ayahuasca, podem ter fornecido a fagulha para o desenvolvimento inicial do idioma e da consciência humana. Os indios nativos americanos vão mais além ao acreditarem que toda coisa viva na selva, animal ou vegetal, tem um espírito. O espírito guardião e mestre da selva é Chullachaqui (Vasquez e Bear). Yacarunas são um tipo especial de espírito que vive debaixo dos rios, onde a tecnologia elétrica moderna não os aborrece. Os espíritos são chamados nas cerimônias de Ayahuasca, assegurando a cura, no momento em que as canções mágicas – os icaros – são tocadas (Vasquez e Bear).

Os icaros serão adicionalmente descritos nas seções seguintes.

A cerimônia

A cerimônia começa com a colheita e a preparação das plantas a serem utilizadas. O xamã fala com as plantas de maneira reverente e canta icaros com contrição (Vasquez e Bear). As folhas da Chilipanga e o cipó da Ayahuasca esmagado são fervidos juntos para fazer um chá espesso, enquanto o xamã projeta a sua respiração na infusão e canta mais icaros (Vasquez e Bear). Os xamãs freqüentemente possuem shacapas (instrumento musical feito de folhas secas), maracas (cabaças usadas como chocalhos), arcos (instrumento de corda em forma de arco), cachimbos, tabaco e perfumes para serem usados na cerimônia (Vasquez e Bear).

De acordo com Metzner, em condiçoes normais, o xamã pode prescindir de várias sessões de Ayahuasca a fim de diagnosticar o problema através da percepção dos campos de energia. Quando o problema é entendido, existem três tipos principais de cerimônias de cura da Ayahuasca. No primeiro tipo, o xamã entra no corpo do paciente para remover um tumor ou toxina implantada por feitiçaria ou outro xamã. O segundo, é a procura e recuperação de um fragmento perdido da psique ou da alma do paciente. O terceiro, reservado para enfermidades sérias, constitui na destruição e desmembramento do corpo do paciente, seguido da reconstituição e substituição por um corpo mais forte, mais saudável.

Icaros

Icaros são canções mágicas que chamam os espíritos de plantas e animais (Vasquez e Bear).

"A efetividade, sofisticação e dedicação de um ayahuasquero é predicada em quantas canções mágicas ele ou ela eficazmente memorizaram. Nas sessões de cura, ambos, o paciente e curandeiro, ingerem Ayahuasca, e o cantar das canções mágicas é uma experiência compartilhada, sendo amplamente visual" (McKenna).

De acordo com Metzner a intoxicação leva o xamã e o paciente em uma jornada mental/espiritual, que é conduzida em luz baixa para precipitar poderosas alucinações. As suaves, acalmantes batidas de tambor e o canto de um icaro estabelecem o ritmo para o ritual, controlando e mantendo o paciente tranqüilo. Icaros são essenciais para o processo curativo. Após ter memorizado um número suficiente de icaros, um xamã não terá mais a necessidade de ingerir Ayahuasca em suas cerimônias.

Alucinações

Etmólogo botânico de Harvard, Wade Davis, em seu livro, "Science, Adventure and Hallucinogenics in the Amazon Basin" (Um Rio: Ciência, Aventura e Alucinógenos na Bacia Amazônica), descreveu o início de uma viagem de Ayahuasca como a experiência de ser "disparado do cano de uma arma, raiado com pinturas Barrocas e aterrizar em um mar de eletricidade". A razão dos xamãs considerarem a intoxicação indispensável para a cura é porque ela permite que eles se encontrem com "plantas professoras" (Metzner). Estes seres alucinatórios são os seres mitológicos da selva que vêm para ensinar segredos de cura e outros conhecimentos especiais. "As entidades da triptamina oferecem o presente de um novo idioma; elas cantam em vozes peroladas que chovem como pétalas coloridas, fluindo pelo ar, como metal quente para se tornarem brinquedos e similares presentes, como os deuses dariam as suas crianças" (McKenna). As alucinações são preenchidas com complexidade e atordoante beleza, melhor capturadas aqui pelas palavras de Terrance McKenna: "Sob a influência do DMT o mundo se torna um labirinto árabe, um palácio, uma mais que possível jóia marciana, vasto e com motivos que inundam a mente momentâneamente suspensa em um complexo e indescritível assombro. A cor e a sensação de uma realidade/segredo-desbloqueada penetra a experiência. Existe uma sensação de outros tempos e da infância do próprio indivíduo e de admiração, admiração e mais admiração" . McKenna acredita que a Ayahuasca é uma passagem para uma dimensão próxima, cheia de importantes percepções. Verdade ou não, Mckenna diz que "A profundidade deste estado e o seu potencial para um resultado positivo, no processo de reorganizar a personalidade, devia ter, há muito tempo, feito das substâncias psicodélicas uma ferramenta indispensável para a psicoterapia".

Testemunhos de Cura

A medicina ocidental se interessou pouco pela possibilidade do uso do DMT como tratamento psiquiátrico, mas existem vários casos de cura documentados. Montero, um xamã Quichua, no artigo "Shaman Teaches Love of Nature" (Xamã Ensina o Amor da Natureza), diz que os "médicos precisam entender que a medicina por si só não cura. As pessoas se curam tendo fé nos espíritos e no poder curativo das plantas". Javier Arevalo, no artigo "Love, Magic and the Vine of the Soul" (Amor, Magia e a Vinha da Alma), nos diz, "eu tive um paciente portador do vírus HIV que tinha estado no hospital por uma quinzena. Naquela noite nós bebemos (ayahuasca) e eu vi em minha visão que a AIDS era como o diabo o destruindo e que ele estava ficando pior. Ele aderiu à dieta (da Ayahuasca) por dois meses, tomando também ervas amargas que curam ferimentos internos. Depois de três vezes (três sessões de Ayahuasca) estava melhor e, quando testado quanto a AIDS, o teste se provou negativo". Don Agustin Rivas Vasquez diz em outro depoimento que o nível de hemoglobina de um paciente portador do vírus HIV se elevou dramaticamente depois de apenas uma cerimônia de Ayahuasca. Outro homem sofreu de tremores e falta de coordenação motora durante toda sua vida. Durante uma cerimônia percebeu que os tremores eram originários de um evento acontecido na primeira infância. Depois de mais alguns tratamentos passou a controlar novamente o movimento do seu corpo. (Vasquez e Bear).

Um efeito colateral comum ao se beber Iagé é a diarréia. Este fato tem se provado um modo efetivo de matar parasitas intestinais da selva. Em algumas partes da selva [amazônica], a Ayahuasca é conhecida como "La purga", a purga (Pinchbeck).

Conclusão

Nós examinamos a Ayahuasca ao nível neuro-químico e também exploramos as muitas facetas e mistérios das cerimônias do ayahuasquero. Os índios Quichua não fazem uma distinção clara entre a cura do físico, do psicológico ou do espiritual (Metzner), mas os resultados são evidentes. A Ayahuasca, poção milenar da selva, afeta a mente e o corpo de várias e profundas maneiras, tornando-se nas mãos do xamã um curativo eficiente.

Bibliografia

1) Revalo, Javier and Peter Cloudsley and Howard Charing. "Love Magic and the Vine of the Soul" Sacred Hoop, Apr. 2002: 39+.
2) Davis, Wade. One River: Science, Adventure and Hallucinogenics in the Amazon Basin. New York: Touchstone, 1998.
3) McKenna, Terence. Food of the Gods: the Search for the Original Tree of Knowledge. New York: Bantam, 1992.
4) Metzner, Ralph, ed. Ayahuasca – Hallucinogens, Consciousness, and the Spirit of Nature. New York: Thundermouth, 1999.
5) Montero and Bill Broadway, "Shaman Teaches Love of Nature" Washington Post 11 Sept. 1999: B9.
6) Pinchbeck, Daniel. "The Vine of Souls." The Village Voice 43.2 (1998): 47-49.
7) Reichel-Dolmatoff, Gerardo. "The cultural context of an aboriginal hallucinogen: Banisteriopsis Caapi." Flesh of the Gods – The Ritual Use of Hallucinogens Ed. Peter Furst. Prospect Heights, IL: Waveland, 1990. 84-113.
8) Schultz, Richard Evans. "The Beta-Carboline Hallucinogens of South America" Journal of Psychoactive Drugs 14. 3 (1982): 205-220.
9) Vasquez, Don Agustin Rivas. Amazon Magic: The Life Story of Ayahuasquero and Shaman Don Agustin Rivas Vasquez. Trans. Jaya Bear. Taos, NM: Colibri, 2000.

Tradução - Rodrigo Conti Tavares.

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