O Mestre
Trecho do texto da Revista Comunidades Tradicionais da Ayahuasca [1]
sobre "O Cidadão Irineu Serra", por Antônio Alves
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Mestre Irineu e a irmandade

Mestre Irineu, ao centro, reunido com a irmandade no Alto Santo, presumivelmente nos anos 50, após ter se casado com dona Peregrina, na foto à sua direita, e antes da sua viagem ao Maranhão, em 1957. [foto disponibilizada pelo blog do CELIVRE]


Tudo o que a comunidade realizou e conseguiu ao longo de sua história tem uma fonte de inspiração. É um cidadão brasileiro - agora também reconhecido como cidadão acreano - chamado Raimundo Irineu Serra. O comportamento dele, sua maneira de viver, de agir, de relacionar-se com o governo e com a sociedade em geral, de organizar a sua comunidade e, principalmente, em sua Doutrina religiosa é que estão assentados todos os valores que formaram essa cidadania à maneira do Alto Santo.

A história do Mestre Irineu é razoavelmente conhecida. Ele nasceu no Maranhão, no final do século 19 e veio para o Acre quando já se encerrava o primeiro ciclo da borracha, em 1912. Trabalhou como seringueiro na região de Xapuri e Brasiléia e foi nessas matas perto da fronteira com o Peru que ele conheceu a ayahuasca, através dos irmãos Antonio e André Costa. Participou do CRF, Circulo de Regeneração e Fé, a entidade que congregava os irmãos Costa e outros huasqueiros próximos à vila Brasília, hoje Brasiléia. Nessa época ele obteve uma iluminação espiritual com a Rainha da Floresta, que é Nossa Senhora da Conceição: uma doutrina religiosa que ele aprenderia, desenvolveria e ensinaria ao longo de muitos anos. Em seguida ele veio para Rio Branco, participou de uma comissão que demarcou os limites e divisas do território, trabalhou em vários lugares, cidades e vilas do vale do Purus e Acre. Sentou praça na polícia militar no início dos anos 20. Foi aí que ele conheceu Fontenele de Castro, que mais tarde viria a ser uma grande autoridade do Estado, e também vários outros personagens importantes da história e da política do Acre.

Na polícia, ele aprendeu a estrutura, a linguagem e a hierarquia militar, que seriam importantes na formação de seu centro religioso e de sua comunidade. Em 1930, deixou o quartel e se estabeleceu como agricultor nos arredores da pequena cidade de Rio Branco, na região onde mais tarde se formariam os bairros da Vila Ivonete, Conquista, Manoel Julião. Nessa época, já começava a ser chamado de Mestre e tornar-se conhecido como curador. Os discípulos começam a se reunir em torno dele e a comunidade foi ficando numerosa. Ele organiza, então, seu centro religioso: fardas, hinos, rituais, calendário de festas e atividades, uma estrutura cada vez mais detalhada.

Em 1945, Mestre Irineu transferiu sua moradia para a outra margem do igarapé São Francisco, numa colocação conhecida como Espalhado. Mas ele ocupa a parte mais alta e lhe dá no nome de Alto da Santa Cruz, que o povo abreviou para Alto Santo. Aí a comunidade permanece até hoje.

A doutrina de Irineu Serra é expressa em hinos, então as pessoas aprendem a cantar e algumas a tocar instrumentos, especialmente o violão. Precisaram construir uma sede, com bancos, mesas e cadeiras, então tinham que trabalhar como carpinteiros, pedreiros, artesãos. Viviam na floresta e tinham que tratar a saúde com ervas e plantas medicinais. Pra fazer o Daime, tinham que conhecer os ciclos da natureza, saber distinguir o cipó e a folha, os períodos de crescimento e floração das árvores, um complexo conhecimento da floresta e da biodiversidade. Quando quiseram alfabetizar as crianças, o Mestre fundou a escola Cruzeiro, e os que eram alfabetizados foram os primeiros professores.

Ou seja, o que se forma em torno do Mestre não é apenas uma comunidade de sobrevivência e nem somente uma comunidade religiosa, é um centro produtor de cultura, de formação de saberes. O conjunto de saberes que vão se articulando em torno da pessoa e da vida do Mestre, desenvolvidos por ele e pelas pessoas que participam da comunidade, é que fornece a base de um modelo de cidadania. O cidadão Irineu é um cidadão exemplar, porque ele serve de exemplo para outras pessoas também tornarem-se cidadãs. Seu comportamento, expressão prática de sua Doutrina, orienta as pessoas para que não sejam ociosas, respeitem as leis, tenham bons hábitos e costumes moralmente aceitáveis, ou seja, não sejam nocivas à sociedade, mas, ao contrário, sejam formadoras de uma sociedade saudável, com valores de honestidade, trabalho, solidariedade e justiça.

A esse ideário acrescente-se um detalhe importante, derivado da experiência religiosa e com implicações em todo o sistema de vida: o respeito pela floresta e todos os seres que nela habitam. Dito dessa forma, parece uma proposição geral e abstrata. Mas imaginem os detalhes, as centenas de situações do dia-a-dia. Um dos antigos no Alto Santo me contou de uma ocasião em que sentiu, durante um hinário, uma forte dor na perna. No dia seguinte, foi conversar com o Mestre, que lhe deu o seguinte ensinamento: às vezes - disse ele - o homem está trabalhando no roçado e faz uma pausa para almoçar. Quando chega em casa, guarda o terçado fincando-o no galho de uma árvore, por exemplo, um cajueiro, e o retira depois do almoço para voltar ao roçado. Ele não repara que ofendeu, sem qualquer necessidade, um ser vivo. A árvore sente dor quando é cortada. À noite, aquele homem sente uma dor na perna, ou no braço, e não sabe por quê. Quem vive neste mundo tem o direito de cortar árvores pra botar um roçado e sustentar sua família. Mas tem que pedir licença, tem que saber usar de acordo com a necessidade, não deve desperdiçar nem ter intenção de destruir.

Foram mais de 40 anos vivendo em comunidade, ensinando e aprendendo, moldando os valores e o comportamento de várias gerações. Em redor do Mestre e sua Doutrina, formou-se um povo com identidade forte e autoestima elevada, depositário de um conjunto de conhecimentos e habilidades essenciais para uma vida digna - bem superior à mera sobrevivência na pobreza. E, principalmente, um povo portador de uma ética essencialmente cristã: rigorosa e justa e, ao mesmo tempo, generosa e solidária.

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[1] Revista Comunidades Tradicionais da Ayahuasca.
[2] Antônio Alves
é jornalista residente no Estado do Acre e frequenta o CICLU-Alto Santo, sede da doutrina, onde ele faz parte do conselho da Área de Proteção Ambiental Irineu Serra.