Leoncio Garcia, xamã ayahuasquero Shipibo,
é entrevistado em agosto de 2005 no Mishana Private Retreat Center, floresta tropical da Amazônia, com Peter Cloudsley – por *Howard G Charing.
 

 
Texto enviado originalmente em Inglês por Eduardo Bayer - Tradução: Rodrigo Borges Conti Tavares
 
 

Leoncio GarciaOs Shipibo são um dos maiores grupos étnicos na Amazônia peruana, e cada um destes grupos possui seus próprios idiomas, tradições e cultura. Os Shipibo, que atualmente são em número de mais ou menos 20,000, estão estendidos em comunidades pela região dos rios Pucallpa e Ucayali. Eles são altamente considerados na Amazônia como sendo mestres da Ayahuasca, e muitos aspirantes a xamãs e Ayahuasqueros da região estudam com os Shipibo para aprender seu idioma, cantos e o conhecimento das plantas medicinais. Neste artigo nós entrevistamos o maestro Shipibo Leoncio Garcia, um homem no meio dos seus 70 anos mas com a aparência de ser vinte anos mais jovem, novamente um atestado da qualidade rejuvenecedora da Ayahuasca e das plantas medicinais da floresta tropical da Amazônia.

Leoncio Garcia

“Eu não me tornei um xamã até ter 50 anos; eu tenho agora 74. Eu estive sempre tão ocupado trabalhando na chácara, ou cortando madeira, que isso só aconteceu quando eu comecei a ter um pouco mais de idade. Até então eu só tinha tomado a Ayahuasca por todas as razões habituais de saúde, mas era somente isso. Foi depois de me decidir a fazer a dieta que eu bebi a Ayahuasca seriamente, mas eu não vi nada e não pensei que aprenderia qualquer coisa, apesar de continuar a beber todas as noites sem dormir. Com apenas um dia para completar três meses de dieta eu tive uma visão tremenda e eu comecei a cantar, continuando por toda a noite até o amanhecer. Eu vi debaixo da Terra, debaixo dágua e nos ceús; tudo. Provavelmente eu estava aprendendo dos espíritos, durante a dieta, mas eu não compreendi. Foi depois disso que eu pude ver qual era o problema com as pessoas. Eu jejuei primeiro com pinon colorado [um tipo de pinha / pinhão comestível] e tabaco, e então experimentei todas as outras plantas.

Isso foi em San Francisco, em uma comunidade Shipibo em Yarinacocha, Pucullpa, onde eu nasci. Depois disso eu fui para Huancayo, por seis meses, para tentar minha medicina. Após eu fui para Ayacucho e então um senhor me levou para Lima para curar sua esposa. Depois de dois meses eu fui levado para Trujillo e então Arequipa, Cusco, Juliaca, Puno. Tudo se desenrolou a contento e uma vez eu trabalhei com uma doutora que não era muito bem sucedida, e logo haviam pessoas formando fila do lado de fora do seu consultório. Eventualmente eu vim para Iquitos, em 2000, sem ter a oportunidade de retornar a minha família desde então; eu só mandava dinheiro para eles. Quando eu vou ao redor das pessoas, soprando fumaça de tabaco, é para dar a eles arcanas; os proteger de forma que quando coisas acontecerem ao redor, não os machuquem os os faça doentes”

Leoncio nos conta um mito (preventivo) Shipibo?

“Existiu uma vez um homem sábio que se chamava Oni, que sabia para que cada planta curativa podia ser usada. Ele sabia todos os seus nomes e um dia ele viu um cipó e o reconheceu como sendo a Ayahuasca, e ele aprendeu a misturá-lo com a Chacruna. Uma noite ele experimentou a babida, aprendendo tantas coisas com ela que ele continuou bebendo, e por continuar neste processo por tanto tempo e com tanta frequência ele parou de comer e beber, apenas cantando dia e noite. Mas ele tinha dois filhos, e eles disseram: ‘venha tomar o café papai’, mas ele continuou a tomar Ayahuasca, e quando eles tentaram levantá-lo ele estava preso ao chão e não podia ser movido. Então eles o deixaram cantando para todas as plantas, dia e noite, notando que a Ayahuasca estava crescendo dos seus dedos. Naquele momento os filhos voltaram para suas chácaras, retornando um mês depois para ver seu pai. Os veios da Ayahuasca haviam se enrolado por todo o seu corpo, e ainda assim continuou a cantar, dia após dia, e a floresta continuou a crescer ao seu redor. Depois de mais alguns meses ele tinha se fundido com a floresta propriamente dita, e por isso ela é chamada de Ayahuasca, a corda dos mortos, e presente em Oni, o indio Shipibo”.

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*Howard G. Charing é um sucedido líder internacional de workshop xamânico. Ele trabalhou alguns dos mais respeitados e extraordinários xamãs e curandeiros nos Andes, na floresta tropical da Amazônia e nas Filipinas. Ele é o autor do bestseller Plant Spirit Shamanism (Destiny Books USA). Seu website: Ayahuasca Retreats with Eagle's Wing

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