Valcírio, Filho do Mestre
Artigo do periódico O Rio Branco, de 1992, sobre o falecido Valcírio Genésio da Silva

 

 

Valcírio SerraPERIÓDICO O RIO BRANCO
Ano XXIII, terça-feira, 15 de Dezembro de 1992 – Nº 4.236 / Rio Branco, Acre

Valcírio Genésio da Silva, 75 anos, é o único filho legítimo de Raimundo Irineu Serra vivo. Sua irmã, Valcirene, também filha do casamento do Mestre com Dona Emília Rosa de Amorim (falecida em 1946), só viveu por um ano e oito meses. Atualmente, seu Valcírio mora no Distrito Industrial, em um pedaço de terra que seu pai lhe deu depois que se reencontraram em 15 de agosto de 1970.

Ele conta que seus pais se separaram em Brasiléia, quando ele ainda tinha três anos. Logo depois, mudaram-se, ele e sua mãe, para a Bolívia. As lembranças que guarda do pai, antes da separação, são poucas. Sabe apenas que na época Irineu já conhecia o Santo Daime, através dos irmãos André e Antônio Costa, que era seu padrinho de batismo.

Até reencontrar o pai, as únicas lembranças que tinha do Santo Daime eram um barracão alto, que existia em Brasiléia, onde Irineu e os irmãos Costa faziam seus trabalhos. Ele lembra que, devido a perseguição das autoridades, o centro foi fechado por volta de 1921. Lá, segundo Valcírio, foi também o lugar onde foi batizado e provou do Santo Daime pela primeira vez.

Durante muitos anos, depois de voltar da Bolívia e fixar residência em Brasiléia, a idéia de rever o pai acompanhou seu Valcírio. Mas como as dificuldades eram muitas, o tempo foi passando. Ele casou, teve 10 filhos, ficou viúvo e continuou trabalhando em Brasiléia, sempre na esperança de um dia ter oportunidade de reencontrá-lo. Até que em 1970 uma de suas filhas veio fazer um curso em Rio Branco. E através de uma freqüentadora do Centro de Iluminação Cristã Alto Santo, Dona Percília, que sabia que o Mestre tinha um filho chamado Valcírio morando em Brasiléia, o reencontro aconteceu.

Seu Valcírio lembra que quando sua filha contou que seu pai estava morando em Rio Branco e era o chefe de um centro de Daime, ficou muito ansioso para encontrá-lo. E em 15 de agosto de 1970, às duas horas da tarde, finalmente chegou na casa de seu pai. O Mestre estava dormindo.

Como ainda era muito pequeno quando se separou, recorda que ver aquele homem alto e sorrindo foi uma grata surpresa. "Eu sabia que ele era negro e muito alto. Mas o homem que eu via sorrindo e com um rosto que inspirava bondade, já não fazia mais parte de minhas lembranças", revela o filho emocionado.

"Aí eu disse que era seu filho, Valcírio. Ele me olhou de cima para baixo, sorriu mais uma vez, e disse: - É verdade, demorou mais chegou. Depois, nossa conversa foi muito boa. Ele queria saber o que eu estive fazendo todo o tempo em que não vimos, e eu queria saber o motivo de sua separação com minha mãe. Ele me explicou que minha mãe tinha um filho que já era rapaz, e os dois não se davam muito bem", conta.

Na ocasião, o Mestre lhe convidou para ficar um tempo em sua casa até que ele fosse morar num pedaço de terra que ele iria lhe dar. Seu Valcírio voltou à Brasiléia, trouxe consigo três filhos que ainda moravam com ele e foi para junto do Mestre. Relembra que foi uma experiência muito boa, pois conheceu um pouco mais da personalidade de seu pai.

"Ele era muito bom, pensava com o coração e com rapidez destrinchava qualquer assunto. Tratava a todos com respeito, chamava até as crianças por senhor e senhora. Sua casa vivia cheia de gente que queria lhe ver, receber sua benção, uma ajuda ou uma prece. Um dia teve um trabalho de Daime e ele perguntou a todos, no final, quem o tinha visto no Astral. Eu não disse, mas o tinha visto morto, com o rosto brilhando e algodão no nariz. Não acreditei que ele iria morrer. Depois que já tinha mudado para as terras dele, aconteceu seu falecimento. Quando o vi morto, foi como se já tivesse visto aquela cena", lembra.

Atualmente, seu Valcírio é casado com Dona Cecília Gomes, filha do falecido Antônio Gomes, um dos companheiros do Mestre Irineu. Dona Cecília é mãe de Paulo Serra, que foi criado pelo Mestre desde a infância. Sua semelhança com o Mestre não está somente na fisionomia: seu Valcírio, com toda sua simplicidade, demonstra grande sabedoria nas palavras ditas em voz baixa e com calma.

Sem crédito.

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