A Força Chama
Cipriano Carlos do Nascimento narra em entrevista
a jornada para chegar à missão de Irineu Serra.
 

 

Cipriano: Eu nasci no dia 12 de outubro de 1935, em Belém do Pará, na cidade por nome Primavera, ficando há 50 horas – lá se diz 50 léguas, né? Aqui se diz 50 horas, distante da capital, eu nasci lá.
Guido Carioca: E o nome dos seus pais, como é que era?
Cipriano: O nome do meu pai era Raimundo Carlos do Nascimento, e a minha mãe Anastácia Maria do Nascimento.
Guido Carioca: Na época que o senhor nasceu lá, o seu pai vivia de que, era colono?
Cipriano: O meu pai ele era barbeiro, trabalhava, né?
Guido Carioca: Ele morava na cidade ou no seringal?
Cipriano: Ele morava mesmo dentro da cidade.
Guido Carioca: Aí o senhor viveu em Belém até com quantos anos?
Cipriano: Daí, dessa cidade que eu nasci, de nome Primavera, com a idade de 12 anos, eu saí acompanhado de um pessoal pra outra cidade, né?
Guido Carioca: De nome?
Cipriano: Bragança. Eu fui morar com esse pessoal nas colônias de Bragança, que era outra cidade. Aí eu morei, tive lá a base de uns, eu sai com 12 anos, pra lá com 19 anos eu me casei, justamente com essa mulher que ainda hoje estou com ela.
Guido Carioca: Um casamento eterno, né?
Cipriano: Pois é... Aí, tivemos por lá, passamos esse tempo todinho sempre lutando, com dificuldade, a gente sem nunca pensar, a gente nem pensava ao menos em Acre.
Guido Carioca: Se existia terra pra cá.
Cipriano: E nem se existia essa Doutrina, o que é que existia pra cá, né? Por sinal, a gente nem ouvia nem falar em Acre. Até que um dia chegou Raimundo Gomes, que hoje é falecido, né? Que é conhecido aqui, foi até presidente, chegou lá, ele saiu daqui pra ir a Belém, e de lá ele destinou-se a procurar os parentes. Soube que tinha muitos parentes pra lá onde nós tava, e foi pra lá. Até que ele, se indicando com o pessoal, conseguiu achar a gente. Quer dizer, os outros. Eu ainda não era parente, era porque era casado com a prima dele, né? Mais tinha os outros parentes – tia, que era irmã do pai dele, e mais outros e outros. Então ele chegou lá, com um mês, eu nem sei que tempo foi que ele passou lá, aí fez uma proposta pra gente – se a gente queria vir para o Acre. Ele até falou que aqui era muito bom, que dava pra gente viver bem, que era um lugar calmo.
Guido Carioca: Nessa época ele já conhecia o Mestre Irineu?
Cipriano: Já, conhecia, ele já tomava Daime.
Guido Carioca: Falou também do trabalho lá?
Cipriano: Não, ele não falava. Às vezes ele falava que existia uma Doutrina pra cá diferente. Mas ele nunca pode explicar, porque sempre tudo foi difícil pra gente explicar para as pessoas que não conhecem, né?
Guido Carioca: Exato!
Cipriano: Mas ele sempre, aqui e acolá, ele cantava um hino que justamente é o "Sol, Lua, Estrela". Às vezes saia assim, ficava cantando lá, e a gente ouvindo. E a gente não sabia o que era o resultado, se tinha algum resultado, que mais que mesmo assim, sem a gente saber o que era, deixava a gente emocionado... Meu Deus do céu! O que será isso que esse homem canta?
Guido Carioca: Tão bonito?
Cipriano: Uma música tão bonita, uma palavra tão bonita, as palavras, tudo, como se diz, pertencem a Deus, que negócio é esse? Aí, quando a gente não sabe, também a gente não ia – "Ei, o que é isso que o senhor tá cantando, como é?" Até que, por causa de ele cantar, sempre cantar, a gente quando veio de lá, já sabia esse hino. Não sabia o resultado como era que ia ser. Bom, até que a gente se ajeitou pra vir com ele pra cá, para o Acre. Nós viemos, batemos por aí, até que chegamos. A minha família, justamente com ele, vieram na frente. Eu fiquei lá, porque nós chegamos ao centro da capital e o dinheiro acabou, ficou mais difícil, não é? Eu voltei pra vir depois. Eles vieram e chegaram aqui em 1960. Aí eu voltei pra Belém, lá para o lugar que eu tava, em Bragança, e eu pensando, como era que eu – "Meu Deus do céu, como eu vou chegar ao Acre? Como é que eu vou atrás da minha família, sem recurso, sem nada?" Mas naquele tempo a gente não sabia, mas hoje a gente já sabe que aqui existe uma facilidade pra quem quer seguir. As pessoas podem estar onde tiver, mas, se tem que ser daqui, existe uma facilidade pra elas chegarem até aqui.
Guido Carioca: A força chama, né?
Cipriano: A força chama. Bom, eu tive por lá, chegou um rapaz de Porto Velho, primo da minha esposa, aí viu eu conversando com ele e disse: "Não, rapaz, se tu quiser ir mais eu, tu vai comigo para Porto Velho. De Porto Velho pro Acre é a coisa mais fácil que tem de ir." Justamente nesse tempo era, ele dizia assim, ser fácil porque ficava mais perto. Nem estrada num tinha, tinha que ser de avião – "Então, tá bom!" Eu sei que eu acompanhei ele até Porto Velho, passei oito meses em Porto Velho, entre Porto Velho e Guajará-Mirim, andando por lá, trabalhando, mas que o serviço na diária nunca ninguém arranja nada, né, nunca ninguém tem nada, só tem o nome, de trabalhar pra fulano, e trabalhou pra ele mesmo, e ele ficou sem nada. Bom, eu sempre fui uma pessoa que em todo canto que eu chego, aonde eu chegava, e hoje em dia aonde eu chego, sempre eu gostei de fazer amizade com as pessoas. Aquelas que queriam, né?
Guido Carioca: Exato!
Cipriano: Bom, lá eu trabalhando com o rapaz, e contando depois a história pra ele, ele dizia: "Não, esse negócio de festa, essas coisas assim, então vamos pra uma festa em tal parte, isso e aquilo outro."– "Não, rapaz, eu não vou pra festa, não!"– "Rapaz, por quê? Um rapaz solteiro não gosta de festa?" Eu dizia que não. Aí eu fui e contei a história pra ele, a minha situação, como era que tava: "Não, eu não posso, você tá pensando que eu sou solteiro? Muita gente, mas eu, não, eu sou casado, tenho a minha responsabilidade." Eu contei a história toda para ele. Aí ele pensou: "Tá bom." Aí ele foi e perguntou pra mim: "Mas tu tem um destino mesmo de ir para o Acre, atrás da tua família?" – "Tenho. Não é tanto conhecer para lá. Como é a minha família, eu prometi para o pessoal que eu ia, e eu vou, eu tenho que ir." Aí ele disse: "Então eu vou ver se eu arranjo uma passagem pra ti ir de avião, tu quer?" – "Quero." Eu sei que ele saiu, e com três dias ele chegou e disse: "Rapaz, vamos embora para Guajará, porque aí você vai vendo que as coisas facilitam." Para a gente vir pra cá, e eu fui para Guajará. "Vamos, porque eu ajeitei a passagem. O avião chega às duas horas da tarde e imediatamente ele sai e vai pro Acre." Eu disse: "Vamos." Ele chegou numa moto e disse: "Pula aqui na garupa". Aí nós fomos para lá. Aí nós chegamos lá no ponto, e ele disse: "Fica aí." Ele entrou lá e conversou com o cabo, sargento, não sei quem era; gente de lá do exército que trabalhava lá –"Tu fica aqui esperando a chamada." Aí eu fiquei lá esperando. Aí começaram a chamar, até que chegou a minha vez, aí eu respirei – parece que agora eu vou ao Acre...
Guido Carioca: De avião da FAB, né?
Cipriano: É, da FAB, até que chegou a hora de irmos embora – vamos, entramos no avião. Até Porto Velho. Quando chegou a Porto Velho, desceu todo mundo. Eu não saí, que eu não tinha mesmo pra onde sair, não tinha dinheiro que desse pra sair pra canto nenhum, fiquei por ali. Até que eles vieram de lá – "Bom, quem vai pro Acre, tá na hora." Vamos embora! Aí, só tinha eu. Só apareceu eu de passageiro pra vir por Acre. Os outros ficaram tudo lá, em Porto Velho, só eu dentro do avião. Aqui e acolá, saia um tripulante daqueles: "E aí, como que é que tá aí?" – "Tá bom!" De vez em quando: "Como é que tá?" – "Tá bom!" Até que nós chegamos. Cheguei já à noite, e procurei o pessoal daqui da família, que já tinha mais ou menos um roteiro do pessoal daqui, da família dos Gomes, né? Procurei lá pela cidade, mas ninguém soube dizer. Até que eu peguei o carro e vim para essa estrada, Alberto Torres, justamente era onde eu sabia. Tinha um rumo que morava um deles, era o Guilherme Gomes.
Guido Carioca: Guilherme Gomes?!
Cipriano: É!
Guido Carioca: Era tudo seringal nessa época?
Cipriano: Era. Aí, eu falei com o motorista, e ele disse: "Tá, eu sei onde é a estrada da Alberto Torres." – "Então tu vai me deixar lá." – "Tá bom." Aí, para acabar de completar, eu ia sem rumo, e ele ia sem rumo... Ele ia na estrada, não é? Ele sabia que a estrada era aquela.
Guido Carioca: Sabia o local, né?
Cipriano: Ele sabia que eu queria ir para lá, e eu ia sem rumo, porque eu não sabia onde morava...
Guido Carioca: O local certo, onde era para parar, né?
Cipriano: O local onde ele morava, eu não sabia de nada, mas, pra facilitar, como eu disse, sempre a coisa se facilita, tinha uma ponte bem pertinho da casa dele, do Guilherme.
Guido Carioca: Do Guilherme, né?
Cipriano: Para chegar, atravessava um igarapezinho. Tinha uma ponte, e, assim que atravessava a ponte, com um pedacinho tava a casa dele. Aí, por sinal, em cima da ponte tinha um bicho, e aí ele passou o carro por cima. "O que é isso?" Não sei! Vamos ver o que é, vamos verificar, já era de noite, era uma mucura [gambá]. Rapaz! Pessoal da cidade não é? É uma mucura, ficamos naquela teima – "Rapaz, isso não é mucura." – "É mucura." Bom, quando nós tava naquela teima, vem passando um senhor: "Meu senhor, o senhor mora por aqui por perto?" – "Moro aqui na frente, aí atrás." – "Por acaso o senhor sabe me dizer, o senhor conhece um senhor por nome de Guilherme? Eu não disse nem o sobrenome. Aí ele disse: "Ah! O seu Guilherme mora bem aí. Essa casa aí é dele." Apontou lá para a casa.
Guido Carioca: Dava pra ver a casa?
Cipriano: Dava pra ver a casa.
Guido Carioca: Ia passar direto?
Cipriano: Muito bem – "Sim, senhor, muito obrigado!" O rapaz deu a volta lá, eu vou ficar é aqui. Cheguei lá e falei, saiu a mulher, a esposa do finado Guilherme.
Guido Carioca: Como era o nome dela na época, da esposa dele?
Cipriano: É essa mesma.
Guido Carioca: Ah, Dona Maria.
Cipriano: Aí, fui e falei: "Cadê o seu Guilherme?" – "Não está, ele tá pra rua. O senhor queria falar com ele?" – "Quero sim, senhora." – "Então o senhor sobe aí um pouco. Ele trabalha lá na rua, mas tá na hora de ele chegar, ele tá chegando, o senhor senta aí que eu estou ocupada aqui na cozinha, daqui a pouco eu saio." – "Sim, senhora". Fiquei esperando lá. Com um pouco de tempo ele chegou, aí, de lá eu disse logo quem eu era, não é? Tá bom. Aí, pronto, ficou tudo bom. No outro dia ele me enviou pra cá. Ele já estava encarregado de a hora quando eu chegasse lá...
Guido Carioca: Enviar pra cá.
Cipriano: Ele enviar para o compadre Leôncio. Aí, lá, o outro pessoal morava aqui no seringal, na Chapada, né? Já estava pra lá. Aí nós viemos no compadre Leôncio de manhazinha bem cedinho. Eu falei e disse logo para ele quem eu era e pronto, não faltou mais nada.
Guido Carioca: Ficou na família logo.
Cipriano: É, na família. "Compadre, tu ainda quer ir hoje?" – "Quero. Se for possível, eu quero ir" – "Tá bom, então a gente vai se ajeitar por aqui, tomar café". Vamos embora, chegou a hora de a gente ir, vamos embora. Aí, ele vai e diz assim: "Compadre, nós temos que ir lá no Padrinho Irineu. A gente aqui tem dessas coisas assim, tem que participar a ele. Tem que se apresentar, e tu que chegou, que não tava esperando também, tem que ir lá." Tá bom, não sabia quem era Mestre Irineu, tá bom, já que ele falou que tinha que ir lá se apresentar, eu já fiquei pensando: "Esse Mestre Irineu é uma grande autoridade aqui, eles tem uma consideração, porque uma coisa assim, antes de fazer, tem que participar a ele que vai fazer, que eu já cheguei, né?" Vou no destino aonde estão os outros. Então eu pensei – "É uma grande autoridade, onde todos tem muito consideração e respeito." Tá bom, e viemos. O Mestre estava até amolando dois terçados, que ele só trabalhava com dois terçados, né? Amolava um e botava na bainha, e o outro ele levava na mão pra trabalhar com ele. Quando aquele não cortava mais, tirava o da bainha e ia trabalhar com aquele. Pois é, quando nós chegamos, o compadre Leôncio me apresentou, depois tomamos um café, aí o compadre Leôncio: "Padrinho, a gente já vai" – "Tá bom, vão com Deus." Com aquele jeito dele, né? Aí, pronto, tive por lá um dia.

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Entrevista com Cipriano Carlos do Nascimento em setembro de 1993. Departamento de Patrimônio Histórico do Estado do Acre / Fundação Elias Mansour.