Entrevista com Dona Percília Matos da Silva
Presumivelmente na primeira metade da década de 90

 

 

Percília Matos da SilvaJairo Carioca: Qual é o seu nome completo?
Dona Percília: Percília Matos da Silva.
Jairo Carioca: A senhora nasceu aonde?
Dona Percília: Eu nasci mesmo aqui, em Rio Branco.
Jairo Carioca: O nome dos seus pais?
Dona Percília: Meu pai, Antonio Ribeiro de Matos, e a minha mãe, Firmina Maria de Matos.
Jairo Carioca: Eram acreanos?
Dona Percília: Meu pai, cearense, e ela, amazonense.
Jairo Carioca: A senhora sabe a historia de como eles se conheceram?
Dona Percília: Não sei bem contar. Essa história eu não sei bem contar, não sabe? Isso aí foi dos meus antepassados, por isso eu não sei contar.
Jairo Carioca: Mas eles se casaram aqui, em Rio Branco?
Dona Percília: Foi aqui, em Rio Branco.
Jairo Carioca: A senhora nasceu em que data?
Dona Percília: Em 1926, no dia 8 de julho.
Jairo Carioca: A senhora foi criada aonde? Em que local?
Dona Percília: Primeiro, nós éramos daqui, da Floresta, lá mesmo aonde eu nasci. Foi aqui, na Floresta do Calafate.
Jairo Carioca: Na entrada do Calafate.
Dona Percília: Sim. Na entrada do Calafate tem uma baixa assim, quando sobe naquele alto ali, ali era a casa de palha, era a casa de papai. Foi lá onde eu nasci. Hoje até digo que lá é a minha terra (sorri).
Jairo Carioca: Como que era lá nessa época, ele tinha uma colônia?
Dona Percília: Era uma colônia, tinha um cafezal muito bonito que ele mesmo plantou, canavial. Encostadinho à propriedade do papai tinha outros vizinhos que era o finado Vicente, finada Jovita. Vocês não conheceram esse povo, não. Era mesmo que sermos irmãos, a gente foi criado tudo junto. A família dele com a nossa era mesmo ser irmão.
Jairo Carioca: Ele morou lá ate que ano?
Dona Percília: Papai morou lá ate que vê... 34. Eu acho que foi em 36, por aí assim que ele vendeu; incluído com outro compadre dele que morava aqui em cima, lá num lugar que se chamava Dois de Pau... Dois de Pau... Tem os Dois de Pau e tem outro nomezinho aí.
Jairo Carioca: Ele vendeu e foi pra onde?
Dona Percília: Foi pra lá, encostado a esse compadre, na beira do rio. Lá só deu dor de cabeça. Vendeu a propriedade dele por mixaria, foi para lá, arrumou lá um pedacinho de chão, não tinha nada. Pra começar, a casa só tinha armação. Quando a chuva se preparava por lá, já estava chovendo dentro de casa.
Jairo Carioca: Quantos anos a senhora tinha nessa época?
Dona Percília: Nessa época eu tinha de seis a sete anos. Lá, no ano que nós chegamos, com muito sacrifício, papai brocou um roçado sozinho, só o povo dele. Os meninos tudo era neném, mamãe não podia ajudar. Brocou esse roçado, e a meninada adoeceu tudo, tudo. Inclusive eu quase morri. Morreu um pequeno, tinha... Morreu lá.
Jairo Carioca: Qual o nome dele?
Dona Percília: José.
Jairo Carioca: Quantos irmãos a senhora tinha?
Dona Percília: Ele tinha de seis a sete anos.
Jairo Carioca: E irmãos, a senhora tinha quantos?
Dona Percília: Era eu, o Cesário, o João, esse que morreu e a Bibi, essa que morreu aqui. Aí nós viemos. Não achou quem quisesse comprar a propriedade, que não valia de nada mesmo, e eu disse: "Eu não fico aqui." Aí ele começou a se sentir já chumbado. Também era malaria. Aí, a minha vó, mãe da mamãe, disse: "Vai tudo lá pra casa, aqui cabe todo mundo." Inclusive, era junto com um homem que se chamava Joaquim Piauí. Sim, o chamavam de Joaquim Piauí. Eu não sabia o nome dele. Ele tinha uma colônia, mas vivia pra lá, abandonada. Depois começou fazer uma casa assoalhada, toda de palha, não tinha nem nada, só era assoalhada. Aí o papai pegando febre malária. Aí disseram para ele que comesse manga verde até vomitar. Meu Deus do Céu, as coisas naquele tempo eram tudo diferente. Assim ele fez. Comeu manga verde até não caber mais. Aí ficou pra fora, mas deixa que o fígado... Ficou sofrendo do fígado... A febre acalmou com os outros remédios. Aí o Joaquim Piauí foi e disse assim: “Eu te cedo aquela colônia e você vai trabalhar lá ate você arranjar uma propriedade para você." Ele, muito animado, foi pra lá.
Jairo Carioca: Onde era essa colônia?
Dona Percília: Era aqui no rumo de Nova Esperança, seringal.
Jairo Carioca: A senhora já tinha quantos anos?
Dona Percília: Nessa época eu tinha oito anos. Aí o papai trabalhando e tal... Até que se ofereceu aquela colônia que nós viemos para cá, que se chama Alberto Torres. Aí ele comprou.
Jairo Carioca: Quando a senhora veio pro Alberto Torres, tinha quantos anos?
Dona Percília: Nessa época eu já tinha de oito pra nove.
Jairo Carioca: Foi logo, logo?
Dona Percília: Foi logo, logo. Assim que nós chegamos aí foi que nós começamos a tomar Daime. Foi no mesmo ano que nós viemos, em 34. Em 34, quando nós viemos pro Alberto Torres.
Jairo Carioca: O mestre Irineu já trabalhava?
Dona Percília: Já trabalhava, sim. Foi no tempo da invasão das terras do finado Barros, um grande seringalista. O povo invadiu as terras dele, que ele não dava as terras pra ninguém. Tanta terra. O povo invadiu, e, nessa invasão, o Mestre Irineu entrou também. Ele tinha dado baixa na polícia há pouco tempo. Aí o povo o convidou e cada um ficou com um pedacinho de terra para trabalhar. Eu sei que, quando nós chegamos aí, fazia pouco tempo também que ele tinha chegado. Aí papai tirou um terreno e nós viemos para cá. Deixamos lá, que o terreno não era nosso, era do Joaquim. Foi quando um vizinho em poucos dias o chamou pra ir, pra ver a sessão, pedir proteção, e precisava ver para conhecer. Aí papai resolveu ir. No primeiro dia que ele foi, no outro dia ele chegou muito contente, dizendo que agora sim, ele tinha encontrado uma coisa que tinha tocado na alma dele e ele sabia que era verdade. Dali por diante ele ia continuar. Contou a miração que ele teve, ele viu a família dele lá no Ceará. Disse que viu tanta coisa que tinha passado na vida dele, e ele viu, e daqui por diante eu não vou mais abandonar. E eu com a tal de malária, ainda que eu tinha trazido de lá. Mas não me deixava. Todo mundo ficou bom, e eu fiquei.
Jairo Carioca: A senhora ainda estava doente?
Dona Percília: Eu passei, acredita que eu passei muito tempo, passei foi anos e anos pra me recuperar dessa malária. E se passavam dois ou três dias sem ter febre, todo mundo se admirando. Quando eu pensava que não, eu arriava de novo com enxaqueca, tudo quanto foi coisa ruim. Eu só era doente. Aí o papai disse: "Mestre, eu tenho essa menina que só vive doente assim." O senhor me dá um pouco de remédio pra eu levar pra ela ou eu trago ela pra cá." Nesse tempo, era bem pouquinha gente que acompanhava ele, era uma meia dúzia de pessoas.
Jairo Carioca: A senhora lembra quem era?
Dona Percília: Lembro. Aí ele foi e deu um pouquinho no vidro para o papai levar. Papai chegou lá e não explicou nada para mamãe. Mamãe não sabia. Eu, muito menos. Aí um dia ele pegou o remédio e disse que era para mamãe me dar um pouquinho. Mas bem pouquinho, não sabe? E era em jejum, sem tomar nada, quem estivesse fraca de febre. Ele mandou me dar e saiu e foi pra roça. De fato, ela não me deu muito, não. Ela me deu num copo que o mais que dava era uma colher. Não era mais que isso, não. Então eu tomei assim como quem toma outro remédio qualquer. Me deitei pra dormir, quando eu me deitei naquela sonolência, quando eu me espantei... O fluído foi chegando e eu me espantei. Pra mim, o mundo tava todo diferente. Aí eu disse: "Oh! Minha Nossa Senhora, o que é isso?" Chamei: "Mãe, mãe." Aí mamãe veio: "O que é, menina?" Eu disse: "Chegue, mãe, chegue, eu vou morre agora." Aí mamãe disse: "Que coisa é essa, que conversa é essa, menina?" "Eu acho que é agora que eu vou morrer. Chegue aqui já, já." E fiquei naquela agonia; vou morrer. Aí mamãe ficou com medo também. Mandou depressa chamar o papai. O roçado era pertinho assim. Meu irmão foi chamar ele, aí ele lá se vem. Chegou, foi olhando pra mim, já foi achando graça. "...Deixa de ser mole, menina, você ta com moleza, que história de morrer é essa? Você não vai morrer, não, você vai ficar boa." E me pegou. No que ele me pegou, mandou mamãe pegar no braço e no outro pra dar uns  passos comigo. E eu, prontamente, em vez de andar, suspendi as pernas... Me dá vontade de rir dessa arrumação, desse dia, não sabe? Eu era criança, ninguém tinha me explicado, eu não sabia de nada. Aí ele me suspendeu pelo braço, me jogou pra cima e falou forte comigo. Aí eu me espantei e voltei ao meu normal, não sabe? Mas eu fiquei com medo de voltar pra cama.
Jairo Carioca: Com medo de voltar tudo de novo.
Dona Percília: Arrumou a cama, a rede assim e me deitei. Agora, eu não mirei muito porque tive medo. Eu não me aguentava de jeito nenhum. Eu vi os pintos que passavam pra mim, e as canelas eram deste tamanho. As folhas, pra mim, as folhas estavam se conversando, mas com as outras. "Mas que negócio é esse?" Eu ficava meio encabulada, não sabe?
Jairo Carioca: A senhora tinha oito anos mais ou menos?
Dona Percília: Sim. Até quando passaram as febres, as coisas que eu estava sentido. Quando deu no próximo sábado da outra semana, papai estava marcado para ir de novo pra lá, não sabe? "Papai, eu quero ir com o senhor." Ele disse: "Eu não levo, não. Pra você dar o espetáculo que você deu aqui? Deus me livre! Eu não levo, não." Aí eu fiquei tão triste, não disse mais nada. Menina não tem alternativa mesmo, né? Ele disse: "Mestre, a minha menina quer vir para o trabalho. Eu não trouxe ela porque ela fez um espadafalho lá em casa outro dia que eu fiquei... Foi uma luta para acalmar. Pra trazer ela aqui, vai atrapalhar todo mundo." Ele disse: "Não, traga ela, traga ela pra cá." Pois tá. Lá vem ele, resolveu me levar. Eu fiquei foi contente. Mas desde a hora que ele disse que ia me levar, eu já ia dizendo: "Ai, meu Deus, tomara que eu não faça como naquele dia!"
Jairo Carioca: O seu pai, desde que tomou pela primeira vez, ficou direto?
Dona Percília: Ficou direto. Eu prestava atenção em todo mundo, como era que tava. Fechava os olhos um pouquinho, quando eu lembrava... "Tomara que não faça aquilo de novo." Até que terminou, era uma sessão de concentração. Nesse tempo, ainda não tinha hinário, ainda não, ele tinha apenas "Lua Branca". Era o hino que ele tinha, Lua Branca.
Jairo Carioca: Ele já trouxe esse hino...
Dona Percília: Lá do Peru. Aí, quando terminou, ele foi e disse assim... "Zé Ribeiro, cadê a moça que você disse que fazia zuada? Que atrapalhava todo mundo?" Ele foi e disse: "Tá aqui e tal." Foi me pegando e me levou. "É essa? Essa daí é huasquera eternamente." Aí, pronto, com essa ele me benzeu, não é mesmo?
Jairo Carioca: É mesmo.
Dona Percília: Aí, pronto, não deixei de ir com o papai, tanto que eu tomei Daime primeiro do que a mamãe. Ainda passou uma porção de tempo. Logo ela tinha filho pequeno, tinha aquele negócio de não querer levar.
Jairo Carioca: Era longe de onde a senhora morava pra cá?
Dona Percília: Vocês não sabem aonde é, não? Eu agora não sei nem dizer, mas lá, antigamente, era chamado de Vila Ivonete, né? A Vila Ivonete passava por lá.
Jairo Carioca: Andava muito?
Dona Percília: A nossa colônia era mesmo direto naquela que vem do Alberto Torres... Ficava perto, não era longe, não.
Jairo Carioca: E as pessoas que trabalhavam com ele nessa época?
Dona Percília: Nessa época era José das Neves, Germano Guilherme, João Pereira, Antônio Ribeiro, que chegou por último, esse João Paulino que frequentou pouco tempo e aí debandou, não sabe? Depois desse...
Jairo Carioca: Maria Damião já tava?
Dona Percília: Depois chegou Maria Damião. Antes da Maria Damião, chegou o Pedro Marques, que era cunhado dela. O Pedro Marques já acompanhava o Mestre antes de chegar o Damião Marques, que era irmão dele. Veio do seringal e se encostou por lá, depois começou a frequentar também, não sabe? Aí, tinha outro senhor. O nome dele era José Antônio. Chamavam ele Zé Capanga. Eles o conheciam como Zé capanga. Eram as pessoas que acompanhava ele. Depois, saiu "Tuperci" e "Ripi" (ela fala dos hinos). Depois que nós chegamos. "Tuperci" e "Ripi", esses dois hinos.
Jairo Carioca: A senhora tinha oito anos de idade?
Dona Percília: Era de oito pra nove. Já tinha nove. Tinha nove anos. O senhor Germano tinha dois hinos. João Pereira também tinha dois hinos. Depois, o senhor Germano recebeu mais outro e completou três. Aí lá vem "Tarumim", "Papai Paxá" (hinos do Mestre). Tinha cinco. Com três do Seu Germano, fazia oito. Com dois do João Pereira, fazia dez. Aí vem aquele hino da "Refeição", "Papai do Céu do Coração", que não é da linha, é só Diversão. O primeiro hinário que houve foi no dia de São João de 1935. Repare bem, eu tinha nove anos. Eu lembro bem... Foi na casa do Damião Marques, da Maria Damião. Mas nesse tempo não tinha baile, não tinha nada, era só cantado, acompanhamento nem nada.
Jairo Carioca: Os trabalhos eram apenas de concentração?
Dona Percília: Só de concentração. Aí vamos ficar sentados a noite toda. Não era um Festival, não. Só com esse povo que eu já falei, né? Já mencionei essas pessoas. Aí tinha o Zé das Neves, tinha a esposa dele. Papai com a família e tal, aquele povo. O fogueirão ai queimando. A gente cantava três vezes um hino só, repetido, que era pra dar espaço, não é? Cantaram-se os cinco do Cruzeiro, depois os três do Seu Germano, depois os dois do João Pereira. Quando terminou, vamos começar tudo de novo que é para ir a noite toda. Eu sei que, quando deu lá para onze horas, meia-noite, tinha bolo de macaxeira, tinha pamonha, tinha tanta coisa, não sabe? Milho verde assado, tanta coisa. Eu sei que era um festival daqueles. Aí, na hora que a mesa tava completa de tudo quanto era coisa, porque tinha muita fartura, aí vamos cantar (ela canta):

Papai do céu do coração
Que hoje neste dia
Foi quem nos deu o nosso pão
Graças à Mamãe

Aí todo mundo cantou, e vamos saborear tudo quanto é coisa boa, aí deu aquele intervalo e vamos começar tudo de novo, os mesmos hinos. Até quando chegou lá pelas alturas, o papai tinha a voz muito aguda. Ele foi quem foi puxar o hino Papai Paxá. Tirou muito alto que não resistiu mais. Quando tornaram de novo a repetir, ele disse: "Esse foi o que me estragou..." Tudo era graça. Eu sei que foi até de manhã se cantando esse hinário. Cantava o Cruzeiro, depois o seu Germano, depois o João Pereira. Quando terminava, começava tudo de novo até amanhecer o dia. Esse foi o primeiro hinário. Daí foi se cantando, foi saindo outros hinários, não é. E eu da minha convicção eu disse: "Eu quero ver até onde vai parar, eu quero ver qual é o que vai sair, qual é o próximo." Aí eu fui encarrilhando o hinário, assim, por curiosidade. E me chamava atenção. Era criança, mas era criança inteligente.
Jairo Carioca: A senhora já estudava nessa época?
Dona Percília: Já, já estudava.
Jairo Carioca: Qual era a escola?
Dona Percília: Eu estudava aqui na Floresta, na escola Santiago, ali onde hoje... Eu não sei o que é, bem encostado à igreja São Pelegrino. Do lado de cá da igreja. Tinha até uma magueirona, eu acho que já cortaram. Era bem encostado à mangueira.
Jairo Carioca: Era escola do governo?
Dona Percília: Era do governo.
Jairo Carioca: A senhora lembra qual era o governo nessa época?
Dona Percília: Era o Hugo Carneiro.
Jairo Carioca: Aí lá o Mestre Irineu passou muito tempo?
Dona Percília:Passou muito tempo, isso foi em 35. Ele foi lá pro Alto Santo em 45. Em 45, ele foi lá pro Alto Santo.
Jairo Carioca: E a senhora sempre acompanhando?
Dona Percília: Todo tempo. Aí papai morreu em 1937. Em 37, papai morreu, aí nós ficamos debaixo do domínio dele. Na nossa casa, assim, mais ninguém fazia nada sem a autorização dele. Tudo era determinado por ele.
Aí o pessoal entrou, Maria Damião começou a receber hino também. Aí foi que veio e chegou Antônio Gomes. Nessa época, as fileiras das pessoas no hinário, tudo era como diz o hino da Maria Damião, eram todos numerados, por exemplo: se eu cheguei hoje, eu sou a da frente. Você chegou amanhã, você fica ao meu lado. Esse chegou depois, fica ao seu lado... Aí vai... É numerado, não é não? Era tudo classificado: quem chegou primeiro, segundo, terceiro e aí tudo assim.
Jairo Carioca: Nessa época era tipo ordem de comando?
Dona Percília: Eu sei que aí chegou o Antônio Gomes. Ele começou a receber hino também.
Dona Percília: ...Hoje fulano chegou ontem, hoje, não dá mais. Aí veio a escala por altura, não é. Fica mais decente.
Jairo Carioca: E de lá a senhora acompanhou ele pro Alto Santo?
Dona Percília: De lá nós fomos logo para lá. Nós ficamos logo ali, ficamos do lado de cá do igarapé, com o nome Espalhado. Lá no lugar com o nome Espalhado. De lá foi que eu passei pro outro lado, no ano que morreu o velho Antônio Gomes.
Jairo Carioca: Que ano foi?
Dona Percília: Foi...
Jairo Carioca: A senhora tinha quantos anos, a senhora lembra?
Dona Percília: Foi em 47, até no hino dele fala no ano 47. Foi no ano que ele morreu. Morreu em agosto.
Jairo Carioca: Na época em que o Mestre Irineu foi para o Alto Santo, a senhora lembra em que altura estava o hinário dele?
Dona Percília: A altura tava ali... Eram três hinos próximos que tinha. O mais próximo era o "Virgem Mãe Divina". E o próximo, qual era?
Jairo Carioca:"Pedi Força a Meu Pai".
Dona Percília: Eram esses dois. Ele já recebeu lá. Ele ainda morava aqui, mas recebeu lá, nuns dois trabalhos que fizeram lá.
Jairo Carioca: Isso em?
Dona Percília: Em 45, quando ele mudou-se pra lá.
Jairo Carioca: E a senhora acompanhou?
Dona Percília: Acompanhei.
Jairo Carioca: E a senhora, dizem os mais antigos que a senhora era quem escrevia os hinos dele?
Dona Percília: Não, nesse tempo não tinha nada escrito, era tudo memorizado. Não tinha nada escrito nesse tempo. Cada um aprendia e bailava. Por isso ainda hoje eu sou contra a essa história de caderno. Nesse tempo, todo mundo aprendia os hinários direitinho. Tinha o puxante. Quando ele puxava, todo mundo sabia o que vai cantar. Não precisava cantar muitas vezes, a pessoa tá com o caderno na mão e nem olha, presta atenção que é assim. E ele cansou de reclamar e dizer que o maracá é o apoio da gente. É o maracá, né? Para poder marcar o passo. Então, um dia ele me chamou atenção porque eu tava batendo só com uma mão, assim. Terminou o hino, ele disse: "Você tá doente da outra mão?" – "Não senhor." – "Por que você não apoia o maracá na outra mão?" Aí eu fiquei desconfiada... Por isso que não tinha esse negócio de caderno, todo mundo sabia os hinários direitinho, não precisava de caderno. Depois que ele saiu, inventaram um negócio de caderno que se não tiver um caderno na mão não vai, e se o puxante errar, quem tá com o caderno na mão não leva. Leva não. E eu sou contra isso e não concordo, não.
Jairo Carioca: E no tempo que o Mestre Irineu se mudou para o Alto Santo, já tinha farda?
Dona Percília: Já. Mas a farda era diferente. A farda era azul e branca, mas era de outro modelo.
Jairo Carioca: A senhora lembra o modelo?
Dona Percília: O modelo eu lembro. Era... Pelo menos da mulher, era um vestido. Tinha assim, ele tinha uma pala com um palmo assim, pouco mais de um palmo, todo de preguinha daqui para baixo.
Jairo Carioca: Mostrando a cintura.
Dona Percília: O pano era liso. Mas aqui em baixo tinha uma barra de preguinhas, assim bem curtinha, com três divisas assim. O branco tinha divisa azul, azul-marinho, não sabe? Aquele como é que chama... Meu Deus... Um torçal assim. Três assim, pouco mais de um dedo de largura na barra. A manga comprida, na manga tinha três assim.
Jairo Carioca: A mesma divisa?
Dona Percília: Um pouco estreita. A gola era maruja, com a mesma divisa. Agora tinha uma gravata, aquela gravatinha, na ponta da gravata tinha a mesma divisa.
Jairo Carioca: Tipo farda de marinheiro?
Dona Percília: Tipo farda de marinheiro. Agora tinha um torçal. Aquele outro que eu estou falando é outro nome, eu já esqueci. Que eu não estou lembrando. Aí era uma fita, assim, tipo uma fita. Esse era que era um torçal, tipo um cordão bem torcido, assim, verde. Aí, tinha um nó. Esse nó eu nunca aprendi a dar, não tenho vergonha de dizer. Só quem sabia era a Maria Damião, e ela me ensinou não sei quantas vezes, e eu não aprendi. Era um nó. Não sei como, o que eu sei é que no fim ficava uma rosa.
Jairo Carioca: Esse torçal se estendia do ombro para...
Dona Percília: Não. Esse torçal era aqui, na gravata. Ele ficava uma rosa, não sei como ela fazia que ficava uma rosa tão bem feita.
Jairo Carioca: E a farda dos homens?
Dona Percília:A farda dos homens tinha a mesma divisa, só não na manga, não sabe, não tinha gola. Mas eu sei que era uma farda bonita. Agora, quando foi que mudou em 57, 58... Foi em 59, foi que mudou para essa que estamos agora.
Jairo Carioca: Ele recebeu esse fardamento na viagem que fez pro Maranhão?
Dona Percília: Na viagem que fez pro Maranhão.
Jairo Carioca: A senhora se lembra dessa passagem?
Dona Percília: Quando ele viajou pro Maranhão, foi em 57. Em 58, ele tava aqui em 58. Fevereiro de 58.
Jairo Carioca: A senhora tava na chegada dele?
Dona Percília: Assisti.
Jairo Carioca: Foi cantado algum hino na chegada dele?
Dona Percília: No dia que ele chegou, não. No momento, não. Nós fomos receber ele aqui no porto. Até quando nós chegamos, no mercado ele já estava. Nós já não fomos ao porto porque ele já havia chegado. Eu até me espantei porque eu pensei que ele vinha forte, porque ele tava pra lá e não tava trabalhando, não é. Quando eu vi, eu me espantei. Aí olhei pra ele e disse: "O senhor esteve doente?" Ele disse: "Não." Sorriu e disse: "Não, eu não estive doente, não." Depois ele foi contar pra nós, disse que a doença que ele tinha era a saudade do povo dele, que ele deixou aqui, né? Porque lá, ninguém entendia ele. Era família, mais ninguém entendia ele. Aí ele disse que sentia aquele sentimento, sentia aquela falta, aquela ansiedade de chegar. Nada pra ele estava bem. Só veio sentar o pé no chão quando chegou.
Jairo Carioca: Foi nessa viagem que ele recebeu a nova ordem de farda?
Dona Percília: Foi. Agora, ele chegou, no dia que ele chegou teve uma festa na chegada dele. Fizeram uma festa, aquele festival e tal.
Jairo Carioca: Dizem que foram três dias de festa?
Dona Percília: Foi, sim.
Jairo Carioca: E já bailavam?
Dona Percília: Já. O baile começou quando ele estava ali na Vila Ivonete. Quando ele foi pra lá, já tinha baile.
Jairo Carioca: Em 58, quando ele chegou, estava em que altura o hinário dele?
Dona Percília: Eu não tenho lembrança. Não estou lembrada, não.
Jairo Carioca: Mais já estava bem avançado?
Dona Percília: Já.
Jairo Carioca: Agora, como foi que a senhora conheceu o seu Pedro?
Dona Percília: Ah! O Pedro eu conheci aí mesmo, no arraial, num arraial. Foi quando eu morava na casa dele. Foi quando eu passei uns dois anos morando na casa dele. Aí eu não conhecia o Pedro. Eu conhecia o Capiturim, o primeiro dele, não sabe? Conhecia ele, a esposa dele.
Jairo Carioca: A senhora conheceu dona Raimunda?
Dona Percília: Conheci.
Jairo Carioca: Se lembra de alguma passagem com ela, algum momento?
Dona Percília: De passagem, nós trabalhamos muito tempo, eu e ela. Trabalhamos muito tempo. Eu não tenho o que dizer dela. Pra mim, foi uma boa companheira.
Jairo Carioca: Nessa época, dona Percília, já tinha muita gente?
Dona Percília: Já. Nessa época já tinha bastante. Agora, quando nós chegamos, tinha pouquinha.
Jairo Carioca: Muitos hinos?
Dona Percília: Já tinha muitos hinos.
Jairo Carioca: E como era o Mestre Irineu em pessoa, era alegre?
Dona Percília: Era alegre, uma pessoa que sempre desejou o bem de todos. Sempre trabalhou pela paz, pela união. Nessa época, o povo do Irineu era respeitado por todas as autoridades. Tanto que o governador, deputados, diziam que o povo do Mestre Irineu não dava trabalho pra eles, porque tudo aqui era com ele. Ele era delegado, era juiz, ele era promotor, era tudo. Se houvesse alguma desavença entre um irmão, ele mesmo resolvia. Ninguém andava com faladeiro um com o outro. Houve uma época que irmão era irmão mesmo, ninguém andava com conversa de outro, e se houvesse alguma desavença, no dia do trabalho tratava logo de fazer as pazes, me perdoe. Mas o Mestre sabe o que faz. Ele pediu à Rainha pra tirar a disciplina que tinha; que era disciplina mesmo. Ninguém fraquejava não, o povo tinha que respeitar, andar direitinho, tratar uns com os outros com amor. Aquilo, como diz na declaração, “aquilo que eu não quero pra mim, não devo desejar para outro”. Devia permanecer isso. Mas que ele pediu pra suspender porque era disciplina na mesma hora. O povo que não brincasse, não, por qualquer coisinha. Ele pediu que Ela tirasse, porque do jeito que era, todo mundo não se atrevia a seguir nessa linha, porque era pesada. Quando ele pediu a Ela que maneirasse.  Hoje em dia, o povo pinta e borda e tal, sim, que ninguém pense que isso fica esquecido, que não fica. Porque todos nós temos que prestar conta dos nossos trabalhos. Se eu não vir uma disciplina hoje pra dizer que estou apanhando por isso, por aquilo, mas aquilo tá guardado para um dia final, ou, numa certa época, a pessoa tem que prestar conta. Tanto que diz naquele hino da Maria Damião: “Que os nossos trabalhos nós temos que mostrar. Que nós vamos se apresentar e os nossos trabalhos nós temos que mostrar.” Não é?
Jairo Carioca: E o hino "Mensageiro"?
Dona Percília: Tem gente que pensa que esses hinos são uma brincadeira. Cada um quer mostrar. Tem gente que pensa que esse hino é uma brincadeira. Tem hino aí que faz vergonha, Deus me perdoe, faz vergonha até a gente ouvir.
Jairo Carioca: A senhora tem hino?
Dona Percília: Tenho, mas é bem pouquinho.
Jairo Carioca: Quantos hinos a senhora tem? Quinze?
Dona Percília: Quero mais não. Eu pedi para fechar. Não adianta ter tanto hino e não dar conta deles.
Jairo Carioca: Quando foi que a senhora recebeu o seu primeiro hino?
Dona Percília: Meu primeiro hino, quando eu recebi, eu era tão criança que eu não tô lembrada. Acho que tinha meus quinze anos, eu era muito criança ainda.
Jairo Carioca: Naquela época era mais fácil?
Dona Percília: Não era mais fácil, era a mesma coisa.
Jairo Carioca: Dona Percília, nessa época que ele morou no Alto Santo, ele tinha muita plantação?
Dona Percília: Muita plantação. Era a mesma. Ele sempre trabalhou pra ter pra dar. Hoje em dia fala-se num líder comunitário. Todo mundo quer ser presidente de bairro. Ele foi o primeiro líder comunitário. Nessa época ninguém dava valor, ninguém sabia o que era. Mas aquele povo que foi se aglomerando ao lado dele, todo mundo queria morar pertinho dele, ouvir os conselhos dele e seguir com ele. Foi se aglomerando, se aglomerando, quando ele passou-se aqui para o Alto Santo, todo mundo queria morar aqui pertinho dele. Tanto que foi na época do governo do Guiomard dos Santos, né. Guiomard dos Santos cedeu aquela área, aquela terra enorme pra ele morar com o povo dele. E ele, a fim de ver o povo dele todo bem, que todos possuíssem a sua fartura dentro das suas casas, juntava vinte, trinta homens num dia para plantar um roçado. Na época de plantar um roçado, juntava vinte, trinta, quarenta homens num dia e plantava um roçado. No outro dia, vai brocar o outro, no outro dia, outro, até fechar as brocas de roçado. Aí vamos derrubar com machado, nesse tempo não se tinha serra. Então, derriba o roçado de todo mundo. Chega a época de queimar, queima. Quando é pra plantar, começa tal dia, junta a mulherada toda, aí era homem, menino, mulher pra trabalhar, todo mundo aí.
Jairo Carioca: Sempre dava muita gente?
Dona Percília: Era gente... Gente. Começava do primeiro até o último, se era trinta ou quarenta homens. Vamos plantar roçado. Tinha dia que plantava dois roçados, porque era muita gente. E assim por diante. Quando era na colheita do roçado, do mesmo jeito, era uma união, e todo mundo tinha fartura, todo mundo vivia bem. Não tinha esse negócio de fome e de miséria. Eu tinha pavor dessa palavra.
Jairo Carioca: Isso foi logo que ele chegou, já foi implantado?
Dona Percília: Até, isso ele levou até quase os tempos que ele morreu lá, não sabe? Todo mundo tinha o seu roçado, sua casa cheia. Ele queria que todo mundo tanto plantasse como criasse, pra ninguém viver com a panelinha pedindo comida aos outros.
Jairo Carioca: Quando a senhora chegou lá no Alto Santo, já era construído?
Dona Percília: Não, aquela ali já foi ele quem construiu. Ele foi morar ali, numa casinha que tinha naquele caminho que vai para o cemitério. Ali ao lado que era a bateção do Jagube. Ali tinha uma casa que ele foi morar. Era uma casinha... Não era boa a casa, era uma casa de paxiúba. Pisava numa ponta, levantava uma outra. O primeiro hinário que teve, que nós fomos pra lá... Quando ele mudou-se pra lá, já tava perto da festa de São João. Mas tinha um laranjal assim, que o homem que tinha morado lá plantou. Era um laranjal bonito. Ele mandou limpar tudo, ficou que era uma beleza... Ele disse: “E agora como é que vai ser o hinário, que a casa não presta?” Pisava numa ponta, levantada numa outra. “Vai ser aqui, debaixo deste laranjal.” Fizeram umas bancadas lá. Ficou foi bonito. Quando foi lá a véspera de São João, que amanheceu o dia, da véspera do mesmo hinário, era uma friagem que doía da natureza da gente. Dessas friagens de gelo. Ai eu imaginei assim: "Ai meu Deus, como é que nós vamos passar a noite cantando no meio do tempo, cantando ali no laranjal com uma friagem dessa?" Era gelo mesmo. Eu pensei: "Deus me perdoe." Depois eu fui pedir perdão. Mas tudo é teste que a gente passa. Eu pensei isso e fiquei imaginando. E disse: "Meu Deus, eu não aguento." Olha só um milagre. Porque quando deu de meio-dia em diante, suspendeu tudo: o gelo, a chuva, suspendeu tudo. Ficou uma brisa de leve que todo mundo suporta. Só Deus mesmo pra fazer um milagre desse. Aí eu disse: "Meu pai, me perdoe." Essa noite, mas foi um trabalho bonito. Adália nesse tempo, que era pichocotinha assim, tomava Daime. Quando a miração vinha chegando, se agarrava comigo. Era um apego comigo que acho que ela hoje nem se lembra. Só ficava bem se ficasse perto de mim. Eu achava graça. Quando ela via que o tempo se fechava, se agarrava comigo.
Jairo Carioca: E a senhora lembra em que época ele construiu o Alto Santo?
Dona Percília: Não. Ainda se passaram uns dois anos. Ele ainda foi serrar madeira, dois ou três anos, eu não tenho bem lembrança... Por aí assim.
Jairo Carioca: Depois de construir o Alto Santo, passaram a ser lá os trabalhos?
Dona Percília: Foi, era nesse....
Jairo Carioca: E a farda era a mesma?
Dona Percília: Era a mesma. Mais ai, quando foi em 57, 58, quando ele foi lá para o Maranhão, foi de lá que ele veio com essa ideia de nova farda.
Jairo Carioca: Já bailavam.
Dona Percília: Já. Quando ele foi pra lá, tinha o baile.
Jairo Carioca: E a primeira Sede, dona Percília, demorou muito pra ser construída depois do Alto Santo?
Dona Percília: Demorou, sim.
Jairo Carioca: Germano, Maria Damião, tudo acompanhou ele?
Dona Percília: Todo mundo. Isso aí é como diz o outro, era linha de frente.
Jairo Carioca: A senhora foi a primeira comandante. A senhora poderia dizer como foi que a senhora recebeu?
Dona Percília: Sim. Primeiro a dona Raimunda. Era ela.
Jairo Carioca: E dela passou pra senhora? Em que época?
Dona Percília: Foi. Eu não estou bem lembrada.
Jairo Carioca: Nesse tempo, já havia trabalho de concentração?
Dona Percília: De concentração foi o primeiro.
Jairo Carioca: E esse de 15 e de 30?
Dona Percília: Esse de 15 e 30 foi depois que começou o Círculo Esotérico, quando ele deu baixa no Círculo. Aí ficou os 15 e 30.
Jairo Carioca: E já existia a farda azul?
Dona Percília: Já.
Jairo Carioca: Logo de início, ele já comemorava todas essas datas?
Dona Percília: Sempre ele usou. Sempre ele comemorou.
Jairo Carioca: A senhora conviveu com Maria Damião, Germano. Conheceu todos eles de perto?
Dona Percília: Todos eles. Porque quando eles chegaram... Não o seu Germano. O seu Germano quando chegou eu não estava. Quando Maria Damião chegou, eu já estava. Ela já me encontrou (...).
Jairo Carioca: Dona Percília, logo que o Mestre Irineu começou a receber os hinos novos, a senhora lembra em que época foi?
Dona Percília: Não lembro, não.
Jairo Carioca: Logo que ele recebeu o "Terra Fria", ele morreu ou demorou?
Dona Percília: O "Terra Fria" ele recebeu em dezembro de 1970. Quando foi em junho de 71 ele fez a passagem.

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Entrevista com Percília Matos da Silva - sem data, muito provavelmente na primeira metade da década de 1990. Departamento de Patrimônio Histórico do Estado do Acre / Fundação Elias Mansour.