O Trabalho de Concentração
O primeiro trabalho realizado na doutrina de Raimundo Irineu Serra
 

 

Em seis de maio de 1930, começava a jornada que Irineu Serra percorreria na fundação da sua doutrina, quando essa data marca o primeiro trabalho oficial do Santo Daime, o de concentração, realizado em sua casa e contando com três pessoas: o Mestre, seu José das Neves - este sendo considerado o primeiro discípulo - e outro seguidor que nos é desconhecido. E tudo indica a pessoa de Germano Guilherme, que já tomava ayahuasca com o Mestre desde 1928.

Esse ritual deu-se em um sábado, dia que permaneceu sendo como o das concentrações, ao passo que nas quartas feiras eram realizadas as sessões de cura, de ritual semelhante, mas visando o reestabelecimento físico e espiritual dos necessitados. E foi só na década de 60, no ano de 1963, no período em que o Mestre se associa ao Círculo Esotérico da Comunhão do Pensamento que as sessões de Concentração passaram a ser realizadas nos dias 15 e 30 de cada mês, sendo que esse calendário permanece até hoje.

Segundo Jairo da Silva Carioca,

, relatou o Sr. José das Neves.

Outro aspecto muito importante no trabalho de Irineu Serra foram as rezas, presentes no encerramento de cada trabalho e muitas vezes no início, como é o caso do terço rezado nos trabalhos de hinário. Nesses casos, também costumam serem rezadas as nove preces [1] seguidas de uma Salve Rainha.

Segundo dona Percília:

Em se tratando das concentrações, não há depoimentos que afirmem a reza antes da serventia de Daime. E isso será exemplificado mais à frente no depoimento de Daniel Serra, quando ele testemunha pela primeira vez um trabalho de concentração. Nesse caso, os participantes encaminham-se para tomar Daime sem abertura formal da sessão, e isso ainda acontece hoje na sede original da doutrina e que é comandada pela dona Peregrina Gomes Serra, viúva do Mestre. Entretanto, alguns centros usam por escolha própria as tradicionais nove preces e uma Salve Rainha para iniciarem os trabalhos.

É importante também notar que nem esses centros nem o Mestre nunca usaram "dizeres de abertura" para os trabalhos. Mas em todos os centros os trabalhos sempre foram fechados, e ainda o são, na sequencia tradicional das nove preces, uma Salve Rainha, os dizeres de encerramento e o Sinal da Cruz.

Quanto ao ritual em si, a concentração é um trabalho bastante simples, mas de grande importância dentro do contexto espiritual e permanecendo ainda hoje como a base da doutrina do Santo Daime. É nesse serviço que entramos em contato com o nosso interior e podemos trabalhar a fim de alcançarmos uma ascensão espiritual, dentro do merecimento de cada um, e, como dizem os mais antigos, é na concentração que recebemos as lições, tal qual como em uma escola, e é nos trabalhos festivos, de hinário, que colocamos em pratica o que aprendemos na sala de aula.

Ainda sobre o ritual, é importante lembrar que “o Mestre Irineu nunca (...) autorizava ídolos, símbolos, retratos ou objetos na mesa ou no salão de serviço. O cruzeiro, a vela acesa (sempre sobre a mesa!) e o rosário bastam, se Deus está no coração e a vontade é firme (...) no mais, algumas flores, já que beleza é bom!” [Luiz Carlos Teixeira de Freitas].

Em entrevista com seu Daniel Serra, Luiz Carlos Teixeira de Freitas colhe mais detalhes sobre o que era uma concentração feita pelo Mestre Irineu, isso por volta de 1957, já em sua residência no Alto Santo, hoje o Memorial Irineu Serra. É bom lembrar que nessa época ainda não existiam os Hinos Novos e nem a farda azul, esta apenas introduzida na doutrina em 1972 e isso de acordo com as instruções deixadas pelo Mestre antes de fazer a passagem. As pessoas compareciam à sessão vestidas “à paisana”, e o trabalho consistia apenas do período de concentração.

Conta Daniel Arcelino Serra, que nem sabia de daime e, dias depois de chegar a Rio Branco, recém-chegado do Maranhão, viu muita gente entrando em casa:

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Salão da Doutrina

Mestre Irineu com o casal Júlio e Lourdes Carioca posicionados ao seu lado (participantes da primeira banda de música do Centro do Mestre Irineu). Foto do livro "Contos da Lua Branca", de Florestan Neto.

É interessante notar que essa foto é, presumivelmente, de uma sessão de concentração ou de um trabalho hoje realizado com farda azul, como o dia de Finados, já que a irmandade não veste farda oficial branca, mas estão vestidos "à paisana", a exemplo do próprio Mestre Irineu. Nesse caso, tudo indica que a foto foi tirada na 1ª sede oficial dos trabalhos, construída em fins de 1960, poucos anos antes da passagem de Irineu Serra.

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Realizado desde o início na residência do Mestre e contando com um grupo fiel de seguidores, a sessão de Concentração permaneceu praticamente inalterada até o fim dos anos 60, quando, em 1968, pela primeira vez um hino passa a ser cantado regularmente nas sessões de concentração. Este hino foi o de número 117 de Irineu Serra – Dou Viva a Deus nas Alturas -, dando início ao recebimento de uma série que posteriormente seria chamada de Hinos Novos, que são os últimos hinos do fundador da doutrina do Santo Daime e cantados até hoje em todo o encerramento das sessões de concentração. Outra mudança no ritual, e que perdura até hoje, é a leitura do Decreto de Serviço, que foi redigido pelo Mestre e escrito pela dona Percília Matos, em 1970, sendo este considerado o único documento pessoal deixado em vida por Irineu Serra.

Ainda sobre os Hinos Novos, em correspondência com Paulo Moreira, pesquisador da doutrina, ele relata um fato do qual eu já tinha ouvido, mas que por ele foi detalhado: de que os Hinos Novos eram cantados com as mulheres em pé, sendo que uma delas puxando os hinos e os homens sentados. Estes só se levantavam, e aqui existe uma polêmica, no hino “Eu pedi” ou no hino “Cheguei Nesta Casa”. Segundo ele, o Mestre queria que dez mulheres de boa voz ficassem destacadas em pé, mas, como todas quiseram desempenhar essa função, a norma aplicou-se a todo o batalhão feminino. Entretanto, hoje em dia os hinos novos são cantados em pé por todos.

Sobre os primeiros hinos a serem cantados na concentração, Luiz Carlos Teixeira de Freitas colheu depoimento de Daniel Arcelino Serra.

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Ritualística do trabalho de concentração

O Daime é servido sem prévia execução de preces e todos se acomodam em suas fileiras por ordem de tamanho. Crianças e jovens* sentam-se nos setores em frente às cabeceiras da mesa (rapazes à frente do comandante, e moças atrás), e os adultos nas laterais (homens à esquerda do comandante, e mulheres à direita). Sobre a disposição masculina no salão, Luzmarina Prado nos lembra de um hino do João Pereira, que fala: "O Mestre manda que eu forme, na esquerda do General". E o mesmo se aplica às mulheres, à direita.

*É interessante notar que muitos centros hoje adotam a disposição casados e solteiros, o que não acontecia na época do Mestre e ainda assim não acontece em vários dos centros que seguem os trabalhos originais. A falecida dona Percília Matos, na época Gerente Geral dos Trabalhos, dizia que o Mestre dividia o salão entre jovens e adultos porque "no tempo do Mestre, era para arrumar o salão, não sabe? Homens e rapazes, assim como mulheres e moças, têm mentalidade diferente, não é?", comenta dona Percília Matos da Silva. [4]

O Comando da sessão constitui a mesa, sempre com um número ímpar de participantes, e então se lê o Decreto de Serviço. Nos centros do Alto Santo criou-se a tradição de deixar uma cadeira vaga para o Mestre após sua passagem, na cabeceira e a direita do dirigente de serviço. Assim, geralmente temos sete cadeiras, sendo que seis ocupadas: duas em cada lateral e duas à cabeceira, sendo que uma vaga à direita do comandante. Todavia, segundo depoimento colhido por Luiz Carlos Teixeira de Freitas, João Nunes conta,

"Há quem narre ter arguido o Mestre:

Após a leitura do Decreto de Serviço é dada a ordem de concentração para todos, com duração de do mínimo uma hora e até duas horas de concentração, a critério do comandante, em silêncio. Decorrido esse tempo, lê-se novamente o Decreto de Serviço.

Após a releitura do Decreto são cantados os Hinos Novos, sem instrumentos (à capela). Nesse caso não se canta o "Pisei na Terra Fria" e o hino sem letra, este pela ausência de instrumentos. Os Hinos Novos podem ser cantados em pé ou sentados, mediante decisão do comando. Apesar de não ser frequente a execução sentada, nesse caso o primeiro e último hinos são cantados em pé, segundo a tradição para qualquer hinário.

Havendo a execução de um hinário comemorativo na data de Concentração (de aniversário, por exemplo), o hinário bailado é realizado antes dos Hinos Novos e do encerramento, com instrumentos. Dessa maneira, bailam-se também os Hinos Novos. [Juarez Duarte Bomfim]

Terminado os 12 hinos, são rezadas as Nove Preces, uma Salve Rainha e o Presidente encerra a sessão. (Obs.: Não é só o presidente que pode encerrar o trabalho, ele pode indicar outra pessoa da irmandade para fazer esse serviço).

Segundo Silmara Camargo, comandante feminina do CRF de São Paulo,
, a pedido do próprio Mestre. Os Hinos novos foram recebidos no período de 1968 a 1970. O próprio Mestre deu esse nome ao conjunto de hinos. Segundo Dona Percília, ele dizia: E assim por diante.

Compõe os Hinos Novos

1 - Dou viva a Deus nas alturas
2 - Todos querem ser irmão
3 - Confia
4 - Eu peço
5 - Esta força
6 - Quem procurar esta casa
7 - Eu andei na Casa Santa
8 - Eu tomo esta Bebida
9 - Aqui estou dizendo
10 - Flor das Águas
11 - Hino sem letra
12 - Eu pedi
13 - Eu cheguei nesta Casa
14 - Pisei na terra fria

Dizeres de Encerramento

Em nome de Deus Pai todo Poderoso, da Virgem Soberana Mãe,
do nosso Senhor Jesus Cristo, do Patriarca São José
e de todos os Seres Divinos da Corte Celestial,
com a ordem do nosso Chefe-Império Juramidam,
está encerrado o trabalho da noite de hoje, meus irmãos e minhas irmãs.

Louvado seja Deus nas Alturas
para que sempre seja louvada a nossa Mãe, Maria Santíssima. [2]

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Sinal da Cruz

Pelo sinal da Santa Cruz, livrai-nos Deus, nosso Senhor,
dos nossos inimigos, em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Amém.

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[1] Este aspecto das chamadas “Nove Preces” é um dos mais saborosos no conjunto de ensinos finos que Mestre Irineu vivia oferecendo. Quando ele se referia às “Nove Preces”, estava se referindo ao “Pai Nosso”; à “Ave-Maria” e à “Santa Maria”, orados três vezes juntos. e o que isso quer dizer? A prece que conhecemos como “ave-maria” tem uma nítida divisão de origem de conteúdo: ao passo que a primeira parte (“Ave Maria, cheia de graça, bendita sois Vós entre as mulheres, bendito é o fruto do Vosso ventre”) se baseia integralmente no texto bíblico, quando o anjo saúda Maria e anuncia o Redentor, a segunda parte (“Santa Maria, mãe de Deus, rogai por nós pecadores, agora e na hora de nossa morte, amém”) é o resultado de elocuções que a igreja católica apôs no decorrer de um milênio. “Jesus” foi posto ao meio das duas partes por volta de 1300 D.C. Daí que Mestre Irineu lidava com a “Ave-Maria” como se fossem duas orações: a primeira reproduz a saudação do anjo a Maria, a segunda eleva nossos rogos a Ela. Portanto, Um Pai-Nosso, uma Ave-Maria e uma Santa Maria compunham três preces, vezes três, e temos as “nove preces”. [Luiz Carlos Teixeira de Freitas]

[2] Como nota de curiosidade, as palavras "sobre toda a humanidade", utilizadas hoje em muitas igrejas, foram posteriormente adicionadas pelo Cefluris.

[3] Parte do depoimento de Jairo da Silva Carioca

[4] juramidam.jor.br

 
 
A mesa de trabalhos do Mestre