Trabalho de Cura da Doutrina do Santo Daime
Junto com o trabalho de Concentração, é um dos primeiros rituais implantados na formação doutrinária de Irineu Serra.

Às quartas feiras, o grupo se reunia com o objetivo de cura, sempre que algum irmão necessitava de uma assistência espiritual para a cura de enfermidades ou doenças. Todos reunidos, em trabalho de concentração de uma hora e meia, buscavam na luz do Daime a cura para o necessitado. [Jairo da Silva Carioca]

 

 

Pelo Daime conter a faculdade curadora, fato este inerente a essa bebida secular, narrado em incontáveis hinos e, talvez, melhor representado no hinário de Irineu Serra, que narra: “Eu tomo esta bebida que tem poder inacreditável.” As sessões de cura, ou trabalhos de cura, sempre tiveram espaço de destaque na doutrina.

Pesquisando os vários textos disponíveis, e depoimentos de seguidores, pude construir uma imagem relativamente fiel desta característica ímpar, e que está presente no Daime, a cura, e que aqui é descrita em um resumo do ritual.

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O trabalho de cura surgiu em 1931, eram concentrações, às quartas-feiras. O Mestre trabalhava em benefício daquela pessoa, ou daquelas pessoas necessitadas, presente ou ausente, todo mundo concentrado. Naquela época, tinha os chamados de cura. Então, ele, silenciosamente, fazia aqueles chamados. Então, ali mesmo, dentro da concentração, ele recebia como podia ser a cura daquela pessoa.

Os trabalhos de cura são sempre nas quartas-feiras, a não ser caso de urgência, e é só concentração, não se cantam hinos. No trabalho tem que ter três, cinco, sete, ou nove pessoas. De acordo com o nosso ritual, a cadeira da cabeceira da mesa fica vazia; dentro da concentração, chame o Mestre para aquele lugar. Nós não podemos se exaltar em canto nenhum, porque somos espiritualistas, eu não sou mais do que ninguém, o próprio Mestre não dizia: Eu sou o curador. Chegava gente se queixando, ele falava: “Bem, eu vou ver o que posso fazer por você, vou consultar a minha mãe - a Rainha, se ela consentir, você poderá ficar melhor, receber sua saúde.”

Dentro desse trabalho só não se cura é sentença, porque a sentença já vem de Deus. Têm doenças, tipos de sofrimento, que não tem cura, a pessoa tem de passar. Mas fora disso, tudo tem cura, dentro da obediência que todos devemos ter a Deus, nosso criador. Agora, a maior perda dentro desse trabalho é a pessoa se exaltar.


Depoimento de Percília Matos da Silva

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Segundo Silmara Camargo, em conversas com dona Percília, nosso Mestre dizia que para se realizar um trabalho de cura primeiramente tem que ter um doente, e este manifestar o desejo de realizarem um trabalho de cura para ele. Ele também dizia que o trabalho de cura é somente o de concentração, onde o pessoal da equipe de cura fica concentrado em torno de uma hora e meia em prol do doente, pedindo e rogando a Deus que, se for do merecimento dele, Deus lhe dê a cura.

Ainda que os trabalhos fossem somente o de concentração, e, nas palavras de dona Percília, “concentração cerrada!” [Isabela Oliveira], também era aberta a possibilidade de se cantar um hinário ao término do serviço como complemento. Nesses casos, é dito que o Mestre gostava de cantar, quando ele cantava, o hinário “O Amor Divino”, do Sr. Antonio Gomes da Silva.

Nessas sessões, muitas vezes o Mestre recebia instruções sobre como tratar a doença, fazendo o trabalho e tomando Daime para ir buscar a “receita”. Como uma de suas passagens explica, em conversa com a Rainha da Floresta, a ela é pedido que se colocassem no chá todos os poderes curativos do mundo, e assim é o Daime hoje. Segundo a própria dona Percília, quando adoecida de malária, nem sempre o remédio era caseiro, e, no caso dela, a instrução recebida pelo Mestre foi a de usar um remédio “de farmácia” [Isabela Oliveira]. Portanto, é importante lembrar que o intuito era o de tomar Daime para receber a cura, mas que ela também vinha de várias maneiras, de maneira extraordinária ou não.

Desde o início dos serviços de cura, o Mestre os realizava nas quartas feiras, a não ser nos casos de urgência. Nota-se que, quando pedido um trabalho de cura, ele tem que ser realizado por, no mínimo, três vezes e no máximo doze (3, 6, 9, 12). Um por semana, e a equipe de cura tem que permanecer em dieta enquanto os Trabalhos estiverem sendo realizados. No tempo do Mestre, como era feito apenas em caso de necessidade e com uma “banca de cura” [1] confiável, rogava-se todo o tempo, não havendo “abertura” ou “encerramento” formal, apesar de hoje em dia dirigentes tais como Daniel Serra, sobrinho do Mestre, marcam o encerramento de modo formal (com as devidas preces de encerramento). Um fato interessante é que o doente não necessariamente precisava estar presente [Luiz Carlos Teixeira de Freitas]. Por outro lado, vários relatos afirmam que, desde o princípio, estes trabalhos eram concluídos ao rezarem-se as Nove Preces [2] e uma Salve Rainha [Sandra Lucia Goulart].

[1] - No tempo do Mestre Irineu, nove pessoas integrantes do Estado Maior formavam essa comissão:

1 - Madrinha Peregrina
2 - Percília Matos
3 - Lourdes Carioca
4 - Zulmira Gomes
5 - Maria Gomes
6 - José das Neves
7 - Francisco Martins
8 - Francisco Grangeiro
9 - Júlio Chaves Carioca

[2] Este aspecto das chamadas “Nove Preces” é um dos mais saborosos no conjunto de ensinos finos que Mestre Irineu vivia oferecendo. Quando ele se referia às “Nove Preces”, estava se referindo ao “Pai Nosso”; à “Ave-Maria” e à “Santa Maria”, orados três vezes juntos. e o que isso quer dizer? A prece que conhecemos como “ave-maria” tem uma nítida divisão de origem de conteúdo: ao passo que a primeira parte (“Ave Maria, cheia de graça, bendita sois Vós entre as mulheres, bendito é o fruto do Vosso ventre”) se baseia integralmente no texto bíblico, quando o anjo saúda Maria e anuncia o Redentor, a segunda parte (“Santa Maria, mãe de Deus, rogai por nós pecadores, agora e na hora de nossa morte, amém”) é o resultado de elocuções que a igreja católica apôs no decorrer de um milênio. “Jesus” foi posto ao meio das duas partes por volta de 1300 D.C. Daí que Mestre Irineu lidava com a “Ave-Maria” como se fossem duas orações: a primeira reproduz a saudação do anjo a Maria, a segunda eleva nossos rogos a Ela. Portanto, Um Pai-Nosso, uma Ave-Maria e uma Santa Maria compunham três preces, vezes três, e temos as “nove preces” (Luiz Carlos Teixeira de Freitas).

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Ainda citando os trabalhos de cura deixados pelo Mestre Irineu, é suposto que nos anos 1960, período em que o Mestre se associa ao Círculo Esotérico da Comunhão do Pensamento, surge o chamado Trabalho de Cruzes, ou Trabalho de Abertura de Mesa. Em especial esse trabalho era de curta duração, no intuito de prover o desenlace entre espíritos obsessores e o doente – em favor de pessoas que se encontram obsedadas, em estado de grave perturbação psicológica ou espiritual [Isabela Oliveira]. Em muitos casos, ele assumia o caráter de exorcismo. Importante notar que, nesse trabalho, nem sempre o Daime era servido, ou então em pequenas doses, dando-se ênfase às preces proferidas, a concentração e a própria ritualística. Hoje esse trabalho quase não é mais realizado e pouco se comenta dele.

Segundo dona Percília Matos: “O trabalho de cruzes é para quando a pessoa está perturbada, a gente vê que não é ela, é um outro que chegou ali e está perturbando. Então se faz o trabalho com no mínimo três pessoas, incluindo o doente, começando sempre na quarta-feira. É necessário três trabalhos, continua na quinta e na sexta; se o caso for muito pesado, nove. Ou às seis da manhã, ou às seis da tarde, pois o sol é o nosso guia.”

De acordo com Guido Carioca: “O Trabalho de Cruzes no tempo do Mestre, pelos meus conhecimentos, era o trabalho denominado de Abrir Mesa,quando Dona Percília Matos era a pessoa responsável em fazer esse trabalho. Hoje a pessoa responsável é minha mãe, Dona Lourdes, orientada pela própria dona Percília Matos. Hoje, pouco se usa esse trabalho no Alto Santo.”.

Segundo dona Lourdes Carioca, que se juntou à doutrina em 1959 e durante anos foi a responsável pela organização desses trabalhos:

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A mesa de trabalhos do Mestre