O Feitio e o Daime
Esta seção é dedicada ao processo de se fazer o Daime, chamado de Feitio, junto com vários depoimentos referentes ao sacramento. Desta forma estes ensinos têm sido transmitidos através de gerações de feitores e suas respectivas comunidades. O Feitio é por muitos considerado um rito de passagem, uma profunda graduação onde podemos finalmente ser testemunhas do milagre presente nos vários estágios de sua produção, em seu ambiente natural - a floresta - até se transformar no Daime, que a nós foi apresentado primeiramente por Raimundo Irineu Serra.
 

 

O Feitio e o DaimeEu conheci o Daime pelas mãos do próprio Mestre Irineu. Era ainda na Custódio Freire. Foi lá que eu tomei pela primeira vez o Daime. Só que eu já tomava essa bebida. Só que não era Daime, era cipó. Eu conheci com os caboclos, foi com eles que eu aprendi a fazer. A gente chegava da estrada de seringa e fazia, à noite (...) Era mais de dia de sábado, tocava violão, cantava as chamadas dos "caboclo"..., era bom, era a nossa diversão. Tinha cara que sofria, alarmava, do mesmo jeito que aqui (...) Mas era diferente. Era mais uma brincadeira. O chá era o mesmo, já era coisa séria. Nós é que não via, porque a gente não entendia. Foi o Mestre que mostrou para nós. Foi ele que ensinou para gente, que mostrou a luz da bebida. Lá em Feijó a gente fazia a coisa, mas não tinha uma finalidade (...) Quando eu cheguei na Custódio e vi todo aquele povo bailando, tudo branquinho, naquela beleza, tudo ordenado, fardado... Era um brilho só, uma boniteza! Aí, eu entendi, eu quis ficar. Porque era tudo doutrinado (...) E foi o Mestre que doutrinou para nós, que mostrou o caminho para gente, o caminho verdadeiro mesmo.

Senhor Eduardo ( um dos responsáveis pela organização do feitio do Santo Daime na comunidade Céu do Mapiá) - A História do Encontro do Mestre Irineu com a Ayahuasca: Mitos Fundadores da Religião do Santo Daime - Sandra Lucia Goulart.

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A doutrina do Mestre não tem igual. É uma doutrina verdadeira, a doutrina da Virgem Maria. Foi ela, a Rainha, que deu a doutrina para ele (...) Assim, foi também o nome Daime. Ela disse para ele que o nome da bebida tinha que mudar. Uasca era o nome
que os caboclos davam para o chá. Mas, aquele nome não era o nome certo. O nome verdadeiro era Dai-me, que vem do pedido, de rogar a Deus. Como se fala: "Dai-me Força", "Dai-me Luz".

Dona Cecília (tia materna de Peregrina Gomes, viúva do Mestre, e faz parte do centro dirigido por esta última) - A História do Encontro do Mestre Irineu com a Ayahuasca: Mitos Fundadores da Religião do Santo Daime - Sandra Lucia Goulart.

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Da mesma maneira, o senhor Bernaldo, ao falar a respeito do feitio do Santo Daime, manifesta essa atitude de reatualização e revivência dos acontecimentos ocorridos com Irineu Serra na ocasião de seu encontro com a ayahuasca. Bernaldo, também morador do Céu do Mapiá, natural do Estado do Acre, é outro exseringueiro, estando na doutrina desde 1970.

"O feitio é coisa séria, não é para qualquer um não. Tem que ter firmeza. Firmeza para entrar na mata, para pegar o jagube (...) Depois, tem a raspagem, a bateção, o cozimento. É tudo uma disciplina só. Quando o cara tá ali, batendo o jagube, ele tá se
disciplinando, tirando as suas impurezas, como ele tá fazendo com o jagube. É muita provação! No feitio, no trabalho, a gente tá sendo provado. Até a gente ficar no ponto. No ponto para receber aquela luz, aquela força. Como se diz, para gente se transformar no próprio Daime. No próprio Daime! Como o Mestre se transformou. Mas, antes, tem as provações (...) Que nem o Mestre passou. O Mestre também teve muita
provação. Quando ele fez a dieta e ficou na mata sozinho, ele viu muita coisa. Muita coisa boa, os seres da floresta, os seres divinos, ele conheceu tudo. Mas ele também viu muita coisa ruim. Os perigos da mata eram aquelas visagens todas...tudo querendo provar ele. E ele lá, agüentando firme. Até que ele nem precisava tomar mais Daime. Ele já estava conhecendo todos os mistérios da mata, estava vendo tudo, adivinhando as coisas (...) Porque a força do Daime já tinha passado toda para ele, já estava toda nele. Foi assim que ele conheceu os segredos dessa bebida. O próprio Daime ensinou para ele. O mesmo Daime! Porque o Mestre é o mesmo Daime! (...) Pois é, nós aqui estamos repetindo a história. Estamos passando as nossas provações (...) porque tem que passar mesmo, para poder conhecer os mistérios dessa bebida, poder receber, alcançar a força do Daime, afirma a história (...)"

A História do Encontro do Mestre Irineu com a Ayahuasca: Mitos Fundadores da Religião do Santo Daime - Sandra Lucia Goulart.

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"Isso ele foi buscar longe, veio do Peru. Na história esta bebida derivou do Rei Uascar,
passou para o Rei Inca, deste para um caboclo peruano chamado Pizango, do caboclo para Antonio Costa, de Antonio Costa para ele. Porém até aí era uma bebida totalmente bruta. Só homens tinham o direito de tomar. Ele procurou especializá-la, e se dedicou realmente. Ele sujeitou-se a um regime...lá então, ele firmou, falando com a própria bebida: "Se tú fores uma bebida que venha a dar nome ao meu Brasil eu te levo pro meu Brasil, mas se for desmoralizar o meu Brasil eu a deixo. Ele não cansava de relatar isso a gente"

(desconhecido) O Palácio de Juramidam - Clodomir Monteiro da Silva.

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"...os elementos que estão designados para tirar o cipó, por direito, passam três dias
sem ter relações com a esposa...inclusive para determinar a perfeição mesmo, o sujeito dormirá fora do quarto...e não come comida gordurosa, come pouco. No dia de sair toma de madrugada o Daime. Coloca um pedacinho de macaxeira na sacola, cozida sem sal, e leva prá mata, toma mais uma dose de Daime se for preciso e vão em três ou cinco. Lá eles se dividem, tantos vão tirar o jagube e tantos vão tirar a folha...lá eles cortam o jagube, já tem marcado, sabem como e onde é. Deixam mais ou menos um palmo e meio de tronco. Cortam dali para cima, vão cortando, pedacinho de vinte centímetros, que é para raspar e triturar. Aquele pedacinho de gomo que fica terá condições de brolhar. Quando é enganchado nos outros paus, do tipo parasita, tem que derrubar as outras árvores. Cortar, prá ela cair, para aproveitarem todo o cipó. Eles cortam lá, põe no saco, aí, depois de tudo pronto põe nas costas, trazem até a estrada onde está o carro...de tarde eles trazem o cipó e as folhas.

Limpam direitinho, raspam todos os cipós tomando Daime, cantando. A gente vem prepare o Daime, a mesma turma. Não é todo mundo. É a turma selecionada. No outro feitio será outra turma. As mulheres só podem participar da limpeza das folhas. Não vão buscar na mata, na colheita das folhas, mas na catação das folhas as mulheres podem fazer parte. 2 – Elas não podem ver fazer o Daime? 1 – Eu nunca ouvi dizer que pudesse ver, eu acho que é por causa da regra, se o velho Irineu não concordou, que era o mais antigo na coisa... 2 – Quer dizer que a menstruação pode tirar a pureza da coisa? 1 – Ele não ia dizer não é...a turma deve ter noção

... Depois delas limpinhas, também o cipó, vão se preparar. No outro dia de madrugada começam a triturar, com marretas, triturando direitinho. As folhas já catadas, aí põe a ferver a água, uma camada de folha, uma de cipó, outra de folha, mais outra de cipó...três camadas, põe lá no fogo com a lenha, de tal maneira que a densidade de fritura não decaia, isso tem uma grande influência. É preciso manter o grau exato de quentura...assim ficam cantando hinos, ambiente sadio, louvando a Deus de qualquer maneira, só coisas boas, mirando...todos ali... Há os que estão fora, que não estão fazendo o Daime, ficam trabalhando, tomando o Daime, ajudando a cantar prá fazer o ponto. Eu sempre participava. Aí quando dá ponto direitinho eles tiram e botam prá esfriar numas frasqueirinhas..."

(desconhecido) O Palácio de Juramidam - Clodomir Monteiro da Silva.

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"porque quem manda na pessoa é a mente, sujeito tem a mente limpa, o Daime quer é isso, aí aceita. Se ele é um sujeito embaraçado de tudo, quando o Daime chega nele, que é uma pureza, encontra aquela casa cheia...primeiramente ele vai sofrer, vai apanhar, prá poder chegar a um ponto..."

(desconhecido) O Palácio de Juramidam - Clodomir Monteiro da Silva.

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"...o Jagube é o elemento para dar a força do corpo balançar o que for necessário para
acordar dentro do organismo, ele é quem traz a missão de ir lá através do sangue de qualquer coisa e balançar os sistemas adormecidos e a folha é quem aproveita a oportunidade da vibração do sistema adormecido e faz dar a visão...daí eu digo que não tem esse negócio de macho e fêmea..."

(desconhecido) O Palácio de Juramidam - Clodomir Monteiro da Silva.

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"...Quanto mais o batedor macerar o cipó, maior benefício ele terá, pois está se limpando. Do contrário, o jagube dá pouco suco e são tropeços que o camarada vai dar. A bateção significa purificação em si. Quanto mais batido, mais o jagube gosta do batedor. A bateção serve para o sujeito se disciplinar..."

Sr. Mário Rogério da Rocha - "Santo Daime, Cultura Amazônica – História do Povo Juramidam" Manaus, Suframa, 1986. - Vera Fróes

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"...é o mestre Irineu, mas o pensamento nele, sem sair fora, é nele...mas ficar falando
no mestre Irineu e ficar fazendo mal a outro prá acolá, é um tempo perdido (...) a falsidade é o dragão maior, que existe, é uma fera devoradora...quem está por dentro da conversa preste atenção (...) ele me colocou ali dentro onde estou...é porque ele sabe, me conhece por dentro e por fora. Porque eu digo prá vocês: aqui por fora eu não sou homem (...) aqui dentro nós temos tudo o que nós quisermos, mas é preciso ser leal e compreender que é uma coisa divina e não pode falhar, com mentira ninguém se apruma (risos)..."

(desconhecido) O Palácio de Juramidam - Clodomir Monteiro da Silva.

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O cipó jagube (Banisteriopsis caapi) cresce enroscado nas árvores, chegando a atingir até 40 metros de comprimento e uma espessura de 70 centímetros na sua base. A folha rainha (Psychotria viridis) é encontrada em um arbusto de coloração verde brilhante que, nativo na floresta, chega a atingir três metros de altura. (...) Os locais da floresta que apresentam maior concentração do cipó são chamados de reinados, e os feitores mais experientes conseguem localizá-los através de um som característico (semelhante a uma batida de tambor) emitido pelo reinado. Posteriormente o cipó é cortado em pedaços de 20 cm de comprimento, acondicionados em sacos que chegam a pesar 50 kg.

Vera Fróes - "Santo Daime, Cultura Amazônica – História do Povo Juramidam" Manaus, Suframa, 1986.

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Apenas gosto de clamar para que fiquem sempre bem vinculados os elos dessa corrente produtiva: EXTRAÇÃO DO MATERIAL FLORESTAL (jagube, folha, lenha) / TRANSPORTE / PREPARO DA BEBIDA / TRANSPORTE / ARMAZENAMENTO DA BEBIDA / TRANSPORTE / DISTRIBUIÇÃO DA BEBIDA porque havendo transparência nisso estaremos dando demonstração de eficácia e esmero conosco mesmos.

Um centro que funcione bem para mim deve estar cem por cento a par de como chega às suas mãos a bebida que irá distribuir assim como garante haver sintonia entre as vibrações colocadas na bebida durante seu preparo e as vibrações ritualizadas para sua distribuição assim como viabilidade de acompanhamento individual a cada um semelhante nosso que queira abrir seu coração para o mistério do Santo Daime (ou como queira que por afinidade o Centro distribuidor afine sua busca espiritual).

Eduardo Bayer Neto.

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Uma vez, o Mestre Irineu falou pra seu Cipriano que ele ia aprender a... Que quando ele fosse pra mata pegar Jagube, ele ia sentir o Jagube, ia saber onde estar. Inclusive, ele mesmo, teve locais que ele nunca tinha ido, o Mestre Irineu, e ele mandou uma vez o seu Cipriano ir pegar Jagube lá, que lá tinha muito Jagube, e o Mestre Irineu nunca tinha ido lá. Quer dizer, tem a convivência, tem a relação entre a pessoa que vai pra mata e a folha, o Jagube, a pessoa sentir, saber a folha, saber o Jagube, conhecer.

Sérgio Augusto de Albuquerque Gondim, 1994, acervo do Departamento de Patrimônio Histórico e Cultural do Estado do Acre / Fundação Elias Mansour.

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É, a Lua, pelo menos a lua nova a força dela está na floresta, está renovando tudo; a força dela está toda na floresta. Então, foi por isso que ela foi escolhida para ser feito todos os feitios de Daime nela, na força da lua nova.

Cipriano Carlos do Nascimento, 1993, acervo do Departamento de Patrimônio Histórico e Cultural do Estado do Acre / Fundação Elias Mansour.

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Entrevistador: De preferência na lua nova?
Epitácio: Na lua nova! Aí pode antes ou depois fazer conforme a precisão. Havendo precisão. Havendo precisão, todo tempo é tempo, mas, não havendo, só no tempo, né?
Entrevistador: Só no tempo?
Epitácio: Só no tempo! Porque havendo precisão, Deus tá vendo que é precisão, se não houver, ele tá vendo também, não é?

Benedito Lima do Nascimento (Epitácio), Agosto de 1993, acervo do Departamento de Patrimônio Histórico e Cultural do Estado do Acre / Fundação Elias Mansour.

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Sérgio Gondim: Senhor Valcírio, o senhor já foi à mata várias vezes pegar Jagube e folha, num foi?
Valsírio: Fui, várias vezes.
Sérgio Gondim: Quando o senhor vai à mata, quando o senhor ia à mata, tomava Daime, pegava folha, Jagube, o que era que o senhor sentia, o que era que o senhor percebia na relação entre o trabalho, a floresta?
Valsírio: Bom, essa parte aí é uma parte bonita, uma parte importante, a gente vai alegre, satisfeito, sempre com aquela finalidade de alcançar, encontrar a folha, ou mesmo procurar o Jagube. A gente vai com aquele espírito alegre, satisfeito, pois ele nos indicou quando nós fossemos procurar o material nós íamos com o espírito limpo, sadio, os bons pensamentos, boas palestras, boas conversas sadias, ou conversando pouco, ou melhor calado também pra poder alcançar, pra poder procurar e encontrar a árvore que a gente precisava, mesmo na tiração do Jagube, na tiração da folha. Sempre existiu umas boas palestras, não se conduzir pessoas fora do trabalho, só aquelas pessoas de dentro do serviço. Não se procurava trazer nada do mato, nem procurar ofender nem que fosse um inseto, o que se via por lá se deixava.

Valcírio Genésio da Silva, 1994, entrevista patrocinada pela Fundação de Cultura Garibaldi Brasil e parte do acervo do Departamento de Patrimônio Histórico e Cultural do Estado do Acre / Fundação Elias Mansour.

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Pedro Matos - O Mestre é quem perdoa, que pra mim ele disse uma vez assim: "Seu Pedro, quando eu comecei a tomar Daime, eu tomava um litro de Daime por noite, eu tomava porque gostava mesmo, sabe. Ele soltava mesmo, porque ele queria que eu adquirisse alguma coisa, pra mim tomar conhecimento, aí eu dizia para ele é quando for determinado o dia, não sabe? Eu fui numa véspera, digamos, hoje é quarta-feira, na outra quarta-feira, em 65, em 64... Foi em 65 mesmo, já com dois anos que eu tinha tomado. Aí eu fui na casa dele, de tarde, por uma dessa mais ou menos, quando eu cheguei lá, falei um Daime para ele, e ele perguntou, "Você tem Daime em casa?" Antes de eu falar, eu tenho um Daime lá, Padrinho... Aí ele disse: "Eu vou lhe dar um Daime bom." Aí ele mesmo foi lá dentro, trouxe um litro de Daime e disse: "Esse aqui você pode tomar, esse Daime aqui, eu mandei o Loredo fazer pra mim, aqui é especial esse Daime."
Jairo Carioca - Loredo já fazia Daime nessa época?
Pedro Matos - Era o feitor de Daime que ele mandava fazer pra curar, é ele quando tinha essas curas assim muito munitente.
Jairo Carioca - Era o Daime do Loredo, ele já morava lá?
Pedro Matos - O Mestre no Alto Santo, e o Loredo era lá no Barro Vermelho. Aí eu sei que ele foi e me deu esse Daime, e fui pra casa. Quando eu cheguei em casa, a mulher costurava nessa época, "Percília eu vou tomar o meu Daime". – É, você toma que eu estou fazendo aqui umas coisas. E ela foi lá cuidar da costura dela, e eu fui tomar meu Daime. O Mestre havia me dito que bom era quando ele tava mirando assim que botava, botava um copo em cima da miração. Aí é que ia ver muita coisa mesmo, não sabe? Aí, tava bem bom, quando eu tava mirando, eu tava vendo desde o meu nascimento, aonde eu andei em caminhozinho, raizinha que eu pisava em tempo de menino, brinquedinho que eu brinquei no tempo de menino, tudo, tudo. O Daime moveu tudo isso aqui, não sabe? Aí eu me lembrei e disse, "Rapaz, vou já tomar mais, que o Mestre disse que bom é quando estava mirando muito, para tomar mais Daime, aí é que vê coisa bonita mesmo". Aí eu fui lá atrás e falei com ela, ela estava costurando assim, o Daime estava assim, encostado a ela.
Jairo Carioca - Morava longe nessa época?
Pedro Matos - Morava encostadinho a ele, onde hoje foi da Dona Mundira. (...) Aí eu fui e falei pra ela; ela disse: - Você quer tomar tome, tá bom, pode tomar, é você quem sabe. Peguei o Daime e botei assim um copo quase cheio. Tu me acreditas que quando eu peguei esse copo que fui levando pra boca ela segurou aqui que nem pra lá e nem pra cá, até que consegui tomar. Quando acabei de tomar o Daime, fiquei normal como estou aqui. Suspendeu a miração todinha. Que o Daime é assim, quando você está mirando muito e toma ele em cima da miração, a miração suspende. Aí, sim, tenha calma. Valha, minha Nossa Senhora! Estraguei minha miração, tão bem que eu estava mirando, sentado na rede, pensando, né? Quando dei fé, aquela pessoa pegou um violão, aí foi afinando aquele violão perto de mim, batendo desde o bordão até a prima, da prima para o bordão, quando terminou, fui abrindo os meus olhos e vi tudo amarelinho, a miração chegou, agora desceu miração no sabe, desceu miração, não tava mais aguentando. Aí, aqui me vi num hinário de São João, lá no hinário do Germano. Seu Germano ainda estava aqui em vida, e cantava o hinário dele na frente, sempre nos dias de São João. Mas saía mais no dia de Nossa Senhora da Conceição, era o hinário do Germano na frente. Mas, nesse tempo, o Mestre mandou ele cantar no dia São João, porque ele tava vendo que era o último dia São João que ele ia assistir. Depois, o Mestre disse para gente que deu esse prazer para ele porque esse São João era último que ele ia assistir, o Germano. Nesse mesmo ano, ele desencarnou.
Jairo Carioca - Em que ano foi?
Pedro Matos - Em 60, e... Em 64, foi em 64 que ele desencarnou, foi em 64 que ele desencarnou. O hinário de São João, ele desencarnou em outubro por aí assim, foi em 64, em outubro por aí assim que ele desencarnou. Foi em julho, foi, ele só assistiu o trabalho de São João mesmo.

Entrevista com dona Percília Matos da Silva e Pedro Matos, acervo do Departamento de Patrimônio Histórico e Cultural do Estado do Acre / Fundação Elias Mansour.

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A mesa de trabalhos do Mestre