Os Hinos
na Doutrina espiritualista de Raimundo Irineu Serra

 

Lua Branca

Bem no início do seu trabalho com a ayahuasca a Rainha apareceu ao Mestre Irineu. Ele, nessa época, só sabia uns chamados, assoviado e solfejado. Ela disse:

- Olha, vou te dar uns hinos, tu vai deixar esse negócio de assoviar e solfejar pra aprender a cantar.
- Ah! Faça isso não minha senhora, que eu não canto nada.
- Mas eu te ensino!, afirmou ela. Quando foi um dia ele estava olhando para a lua e ela disse para ele:
- Agora você vai cantar.
- Mas como eu vou cantar? É muito difícil...
- Você vai aprender, eu te ensino, abra a boca.
- Mas como?...
- Abra a boca, não estou mandando?


Ele abriu a boca e disparou cantando Lua Branca, o primeiro hino, recebido na selva do Peru. Aí ele começou a receber. Com os três primeiros hinos já dava para cantar a noite inteira, repetindo os hinos. (...) Então ele pediu à rainha que também concedesse aos seus companheiros esse espaço de receber hinos. Aí foi quando o Germano recebeu seu primeiro, o Antônio Gomes o seu primeiro. Aí já foi mudando, Germano tinha três, Antônio Gomes três, Maria Damião três, vamos supor assim, João Pereira três, o Mestre três ou quatro. Aí já dava um conjunto bem maior de hinos, já se cantava a noite inteira.


Luiz Mendes do Nascimento

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Puxante [termo ainda hoje usado no Alto Santo]

Contando com grande número de analfabetos e semi-analfabetos - incluindo-se aí o próprio Mestre Irineu - Percília Matos da Silva, criada por ele desde a infância, recebeu a função de anotar todos os hinos recebidos pelos neófitos em pequenos cadernos, em uma atividade conhecida como “zelar pelos hinos”. De acordo com seus próprios relatos, Percília teria grande facilidade na memorização dos cânticos e por isso era sempre chamada por Raimundo Irineu Serra e outros adeptos para acompanhá-los até algum lugar silencioso e vazio a fim de presenciar o nascimento espiritual dos hinos, isso nos casos do receptor ser previamente avisado por entidades sobrenaturais acerca do recebimento do novo cântico que estava por vir. Esse tipo de assessoria culminou com o recebimento da patente espiritual, “Taió Ciris Midam”, doada para Percília pelo Mestre em obediência à Rainha da Floresta.

Por esse mesmo motivo Percília também recebeu a tarefa de entoar os hinos na forma original como vinham sendo recebidos do astral, cantando a primeira estrofe dos mesmos antes da entrada de todas as vozes durante os rituais. Embora fosse e ainda seja uma satisfação e até mesmo uma obrigação de todos os participantes a prática do canto coletivo em uníssono, algumas mulheres começaram a se responsabilizar para que o canto saísse afinado e condizente com a forma original apresentada pelo receptor dos hinos. A quem ocupava esta função chamou-se “puxante”.

A natureza dos hinos na religião do Santo Daime - Lucas Kastrup Fonseca Rehen

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Há trabalhos de pesquisa muito bons, sobre a doutrina. Creio que foi de um vídeo, ouvindo d. Percília, que era a zeladora do hinário do Meste, que soube pela primeira vez que ela era a responsável pelas anotações dos hinos. O mestre foi, durante muito tempo, analfabeto, e mesmo que tenha vindo a ler bastante, até mesmo acompanhando os estudos do "Círculo para a Comunhão do Pensamento", escrevia pouco, e não muito bem. O único escrito que vi dele, até hoje, foi sua assinatura.

Lógico que isso não invalida nem valida nada... é apenas um detalhe. Mas foi d. Percília, que nos deixou há pouco, e de quem há registros de áudio e vídeo, que escreveu o caderno do mestre. Mesmo ela nunca explicou sobre os hinos que faltam, por exemplo...

Ela contava que o mestre recebia os hinos, depois chamava ela e cantava. Ela tinha que escrever logo e lembrar tudo, porque até o Mestre esquecia trechos dos hinos e não raras vezes perguntava à ela: -como é que era mesmo?

Para nossa sorte, e provavelmente por obra do Divino, ela tinha excelente memória. D. Percília não nomeu nenhum zelador para os hinários que tinha sob sua guarda, mas creio que este caderno ainda exista, e que possivelmente esteja mesmo no museu... só não sei se tem nome...

Jaime Wanner

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O Cruzeiro

De fato, o hinário O Cruzeiro Universal [1] é composto por 129 hinos [2]. Daimistas antigos afirmam que existem três outros hinos apenas musicados, isto é, a letra existe, mas é conhecida de poucos. Outra versão é que a letra nunca existiu, e nesse caso, Mestre Irineu teria recebido apenas a música dos hinos.

Jaime Wanner
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[1]O hinário de Irineu Serra possui pequenas divergências referentes ao seu nome, variando de centro ou região, sem um título "oficial". Na verdade, muitos dos antigos seguidores tiveram seus hinários nomeados, pela irmandade, apenas após fazerem a passagem. [2] o depoimento de Luiz Mendes do Nascimento ele nos conta do hino 52 do hinário O Cruzeiro, do Mestre Irineu: "Completei o meu Cruzeiro com cento e trinta e duas flores. Aí, muitos entendem que ele já estava predizendo a quantidade de hinos que fariam parte do Cruzeiro. Não! Ele não previu isto. Isso foi na sucessão dos hinos que se chegou a 132. Quando ele recebeu este hino, ele cantou assim: Completei o meu Cruzeiro / Com cinqüenta e duas flores / Se tiver alguma de mais / Vós acrescente o meu amor. Quando ele recebeu o próximo, Virgem Mãe Divina, Ele cantou: Completei o meu Cruzeiro / Com cinqüenta e três flores / Se tiver alguma de mais / Vós acrescente o meu amor. E assim sucessivamente, até chegar a cento e trinta e duas flores".

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No livro "O Mensageiro" do Luiz Carlos de Carvalho Teixeira de Freitas, ele fala sobre esses hinos que não estão no hinário do Mestre. Segundo suas pesquisas, não eram hinos normais, mas sim chamados que ele não ensinava a todos, porque iriam sair por ai cantando e assobiando os chamados sem motivo algum. Ele ensinava apenas para a Dona Percília e sua para sua penúltima mulher, para elas usarem na hora em que o trabalho estivesse pesado mesmo.

Marcus Mantovanelli

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Percília Matos fala sobre "O Cruzeiro"
SANTO DAIME: UM SACRAMENTO VIVO, UMA RELIGIÃO EM FORMAÇÃO – Tese de Doutorado - Isabela Oliveira.

Os outros hinos (...) recebidos pelos adeptos são percebidos como mensagens que se relacionam com esse núcleo doutrinário original e são também legitimados por meio das instruções presentes no hinário “O Cruzeiro”. Ilustrando esse tema, temos a história de vida do Sr. Wilson Carneiro, uma das pessoas que recebeu do Mestre Irineu a missão de distribuir o Daime para os doentes na própria casa, que se tornou, na compreensão dos seguidores desse tipo de atividade, um Pronto-socorro espiritual. Por meio de diversas curas alcançadas pelos doentes nos atendimentos prestados pelo Sr. Wilson, ele ficou bastante conhecido como grande curador. Segundo ele, no início desses trabalhos, ele não cantava hinos, apenas oferecia o Daime ao doente. No entanto, com o passar do tempo, passou a cantar os hinos da Irmã Maria Marques Vieira, conhecida como Maria Damião, contemporânea do Sr. Irineu. Quando ficou sabendo do ocorrido, a Sra. Percília Matos ofereceu a seguinte explicação, que contribui para a compreensão da importância simbólica dos hinos de “O Cruzeiro” no contexto da religião. Disse a Sra. Percília para o Sr. Wilson: [103]

“Olhe, o Senhor pegou pela ponta da rama (referindo-se ao fato de ele estar cantando os hinos da Sra. Maria Marques) A gente tem que começar pela haste, porque a haste é “O Cruzeiro”, depois vem a primeira rama que é o Germano, a segunda rama. Primeiro é a haste, depois Germano, depois Antônio Gomes, depois João Pereira. O quinto, é a Maria Marques que tá lá na ponta da rama, que foi onde o senhor pegou. O senhor se pegou na ponta da rama.”

Por meio desse relato fica clara a importância do conhecimento presente no hinário do Sr. Irineu para os seguidores da religião. Ele é o tronco. Os outros hinários são os galhos, ou até mesmo as folhas árvore, quando pensamos nos hinários mais recentes.

[103] Na época dessa pesquisa o Sr. Wilson já havia falecido. A narrativa aqui apresentada foi coletada pela antropóloga Geovânia Barros da Cunha em 1993 e me foi gentilmente cedida por ela, de seu arquivo pessoal, para constar nessa tese.

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O Cruzeiro Universal

Segundo a Sra. Percília Matos da Silva, zeladora do hinário do Sr. Irineu, o título deixado por ele para o seu hinário foi “O Cruzeiro”. No entanto, com o passar do tempo, mediante o diálogo, especialmente, com os próprios hinos do fundador, formou-se a compreensão de que esse hinário também poderia ser chamado de “Cruzeiro Universal”, expressão presente, por exemplo, no próprio hinário do Sr. Irineu, no hino 97, intitulado “Centenário”, que diz: “(...) Completei um centenário, no Cruzeiro universal...”. Também, observei em minha vivência na religião, o hinário o “O Cruzeiro” ser chamado de “Santo Cruzeiro”, expressão que remete à compreensão compartilhada entre os seguidores de que os hinos deixados pelo fundador são santos, o que mais uma vez, exemplifica o amplo processo de ressignificação presente na constituição de diferentes significados do Santo Daime.

SANTO DAIME: UM SACRAMENTO VIVO, UMA RELIGIÃO EM FORMAÇÃO – Tese de Doutorado - Isabela Oliveira.

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43 - O Prensor (O Cruzeiro)

Ele recebeu este hino numa concentração lá na Vila Ivonete, mais ou menos pelo começo da década de 40. Aí, quando ele recebeu esse hino, tava no forte da concentração. Ele se levantou, colocou um irmão na presidência do trabalho e se retirou, chamou a esposa dele, a dona Raimunda, e pediu que ela me chamasse. Aí, ele cantou o hino todinho (...). Quando terminou a concentração ele cantou pra todo mundo ouvir, pra todo mundo aprender logo. Olhe, nessa época, foi na época de um conflito armado entre Bolívia e o Paraguai*. Mas tava nesse tempo um clamor, só se sabia das notícias. Do outro dia em diante que saiu esse hino, acalmou tudo, zerou tudo. Ele contou que no trabalho dele, ele foi espiritualmente lá, no meio da batalha. Diz ele, que era bala que chuvia assim, pra lá e pra cá, batia nele e caía. Ele tava lá espiritualmente, quando chegou o hino para controlar. A força dominar a rebeldia, que era demais (...). O que é certo meu filho, é que esta, é uma das representações que nós temos que mostrar, e vários hinos que tem aí, cada um trás uma referência.

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*A guerra entre Bolívia e Paraguai que ocorreu nesse período histórico descrito foi a guerra de fronteiras denominada Guerra del Chaco (1933-1935). No período descrito por dona Percília (anos 1940) eclode também a 2ª Guerra Mundial, que muita comoção provocou no mundo
espiritual.

Depoimento de Percília Matos da Silva, do livro Contos da lua Branca – Florestan Neto

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Hoje em dia pode ser difícil diferenciar os hinos "recebidos do Astral" dos hinos ditos "inventados", considerando-se talvez esses cânticos rituais mais como ferramentas humanas e menos como instruções divinas.

Eu pessoalmente tive oportunidade de "passar a limpo" meu próprio caderno de hinário com a Madrinha Percília, e além de algumas palavras que ela modificou, recebi a explicação de que os hinos de um hinário devem guardar entre si uma relação progressiva de aprendizagem pessoal, uma ordem ascendente, e portanto hinos que repassam abordagens anteriores da própria pessoa (entendimento este muito subliminar, talvez) devem ser descartados, ou esquecidos, não-cultivados. E ela mencionou que o próprio João Pereira, cujo hinário é um dos principais do Mestre, teve trinta hinos suprimidos por este quando passados a limpo.

O hinário da Madrinha Percília se resume a quinze hinos, o que nos faz lembrar que o da Madrinha Rita são apenas vinte e cinco, o da Madrinha Peregrina são onze, e nem por isso são hinários desimportantes ou pouco fundamentais. Em termos de conteúdo, quanto aos hinários, às vezes "menos" hinos falam "mais", ou proporcionam melhor resultado prático, do que ser responsável por um conjunto de muitos hinos. Essa economia da expressão, entretanto, parece ser pouco observada na atualidade, quando sabemos há indivíduos que possuem várias centenas de hinos (às vezes até subdivididos em vários cadernos). No tempo do Mestre, e isso não quer dizer que em um "tempo atrasado" ou uma "época de vacas magras", receber um hino era não apenas uma responsabilidade espiritual mas também uma prova, e os que se diziam donos de hinos eram provados no Daime, sendo chamados pelo Mestre para puxarem e bailarem seus respectivos hinários "na força" dessa comunhão, sem cadernos de apoio, tirando apenas do âmago de sua alma a memória, a harmonia e o ritmo dos hinos, o que não dava margem à permanência de hinos "inventados" na irmandade. Quanto alguém passava pelo "vexame" de não conseguir apresentar devidamente a letra de um hino que declarara haver recebido, essa "linha da verdade" mostrava o quanto o desprendimento e a humildade são requisitos naturais do aprendizado espiritual, e atitudes de avidez, orgulho ou auto-promoção através dos hinos são pouco recomendáveis por induzirem (e em muitos casos conduzirem) ao erro ou à falsificação ideológica. O Daime é um misterioso professor que muitas vezes "dá corda para ferrar no anzol", por isso a grande preocupação dos antigos seguidores do Mestre em observar as recomendações que este deixou de viva voz. A própria Dona Percília se auto-questionava quanto aos seus hinos, como demonstra esse trecho de entrevista de Clodomir Monteiro com ela, a respeito do hino que a apresenta como Taio Ciris Midam:

Clodomir - Este hino a senhora recebeu dentro da miração?
Percília - Dentro da miração...eu estava com uma febre neste dia!...
Clodomir - E foi uma entidade que dizia para a senhora isto?
Percília - Eu ouvi, não vi, eu ouvi a música....e quando eu dei de mim eu já estava cantando.
Clodomir - Que a sra. era realmente esta entidade...
Percília - É...Taio Ciris Midam...
Clodomir - E todos no Alto Santo reconhecem que a senhora é realmente Ciris Midam...
Pedro - Pois o próprio Mestre registrou... passou a limpo o hino... seu Eu superior...
Percília - Sim, o meu Eu superior...então quer dizer que eu sou da mesma família...de Midam...né ?
Clodomir - Tá ligado a outra metade dele...
Percília - É...é isso aí.
Clodomir - É isso aí, um é Jura, outra é Midam, o masculino e o feminino...
Percília -Foi passado a limpo com o Mestre...

Eduardo Bayer (do website www.hinarios.blogspot.com)

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Comentário geral sobre os Hinos Novos

Dentro desses últimos hinos dele, os Hinos Novos, que começa no hino “Dou Viva a Deus Nas Alturas” e termina no hino “Pisei na Terra Fria”, é ele palestrando, é uma palestra dele. É ele fazendo uma explanação como se fosse uma preleção de final de trabalho.

Um irmão uma vez falou assim:
“Padrinho, porque o senhor quando termina um trabalho, o senhor não faz umas palestras, assim como o crente faz, o pastor faz?”.
Ele disse assim:
“Nós aqui não trabalhamos com a Bíblia, nós aqui trabalhamos com a consciência. Eu acredito na Bíblia, mas não trabalho com a Bíblia na mão; a minha Bíblia é o Daime e os hinos”.
Ele ainda falou:
“Esses Hinos Novos são o meu recado que eu tô deixando aí. Isso aí, é a minha palestra.”

Você veja que os Hinos Novos são um resumo dos ensinamentos do Mestre.

Pedro Domingos da Silva (Do livro "Contos da Lua Branca", de Florestan Neto)

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Hino 126 do Cruzeiro - Flôr das Águas

"Esse hino foi apresentado na concentração e ele foi... Tinha um bocado de irmão ao redor dele, ele foi, e perguntou o seguinte: "Onde fica o coração do mundo?" Aí, um olhou para o outro. O outro olhou para o outro... Ninguém disse nada nessa hora. Não souberam não. Aí ele foi e disse:

- O coração do mundo é o mar.

Aí eu ouvi bem pertinho ali, né. Eu esperava uma pessoa assim, já de idade respoder para ele, mas também eu não sabia, não. Eu disse - Eu vou esperar para ficar sabendo onde é? É o mar.

Nonato Mendes - Luzeiro da Manhã, Bujari - AC (Do livro Contos da Lua Branca - Florestan Neto)

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Diversão No. 06 – Trabalhador, do Mestre Raimundo Irineu Serra
Comentada por Juarez Duarte Bomfim

06 - Trabalhador

Quem quiser ser bem querido
Seja bom trabalhador
Para viver neste mundo
É preciso ter amor

Trá  lá, lá, lá,
Trá  lá, lá, lá.

Esta é a sexta e última diversão do Mestre Raimundo Irineu Serra, e foi introduzida por um dos seus discípulos no conjunto de canções que são cantadas nos intervalos dos hinários, para uma diversão, uma brincadeira, um entretenimento.

Contam que um dos lugares preferidos pelo Mestre Irineu para orar e meditar nas horas do Angelus [1] era em um cafezal próximo a sua residência. Local que oferecia condições propícias para o recolhimento meditativo de um buscador de Deus. Esse lugar ficou conhecido lá na Vila Irineu Serra como o “Cafezal do Mestre”, lugar sagrado para os seus devotos e profanado posteriormente pela privatização e interdição de acesso por muros altos da habitação de um insensível novo morador da Vila, que vetou a própria contemplação de significativo sítio para os inúmeros discípulos do Mestre Irineu.

Fotos do Cafezal do Mestre, onde existem diversas espécies de árvores e plantas, assim como Jagube e Rainha em profusão, plantados pelas suas próprias mãos, quando ainda vivo.

O Mestre Irineu Serra estimulava entre seus amigos e companheiros - residentes na Colônia Seringal Espalhado, atual Vila Irineu Serra – o trabalho solidário e coletivo nas formas de mutirão e adjutório, relações de trabalho cooperativos comuns e freqüentes entre amigos e vizinhos no meio rural brasileiro e em bairros populares urbanos.

Ele mesmo, o Mestre Irineu Serra, só aceitava parcialmente o regime de trabalho de adjutório, pois como homem de posses sempre remunerava financeiramente os necessitados.

Era no cafezal o ponto de encontro para reunião das equipes de trabalho que saiam a lavrar a terra e cuidar do roçado. O Mestre Irineu era sempre o primeiro a chegar. E mesmo quando os seus companheiros tentavam lhe fazer surpresa, tipo combinar uma limpeza de terreno ou qualquer outro serviço sem lhe comunicar previamente, o Mestre sempre sabia, e para o local acertado se dirigia mais cedo, os aguardando.

Certa vez, quando seu Francisco Grangeiro Filho para lá se encaminhava, ao vê-lo caminhando em sua direção, o Mestre começa a cantar:

Quem quiser ser bem querido
Seja bom trabalhador
Para viver neste mundo
É preciso ter amor.

Seguido do refrão:

Trá  lá, lá, lá,
Trá  lá, lá, lá.

E aquela que deveria ser uma estafante e suarenta manhã de trabalho árduo na calorenta e úmida cidade de Rio Branco se transformou numa grande festa, na celebração alegre da amizade e do companheirismo dentro daquela irmandade.

Felizardo é aquele que tem o privilégio da convivência com o Mestre, pois o seu cotidiano será sempre de festa, será sempre feliz Certa vez perguntaram a Jesus:

“- Por que jejuam os discípulos de João e os dos fariseus, e não jejuam os seus discípulos?”

“E Jesus disse-lhes: Podem porventura os filhos das bodas jejuar enquanto está com eles o esposo? Enquanto têm consigo o esposo, não podem jejuar”. [2]

Jesus se compara ao esposo em bodas, que a festeja junto com os seus amigos. [3] A festa da aliança de Deus com os homens, que enviou o seu Filho para no salvar.

Muitos anos depois, aquele fiel discípulo do Mestre Irineu, o Chico Grangeiro, grande contador de causos do Mestre, encontrava-se no mesmo cafezal, lavrando a terra e aguardando a chegada do amigo Tufi Rachid Amim. Ao vê-lo se aproximar, relembra dessa canção, cantando-a em saudação ao companheiro. Logo depois, narrou ao mesmo essa significativa história: o momento especial de recebimento desta diversão pelo Mestre Irineu.

Ali surgiu a idéia de inserir essa simples e divertida canção no conjunto das diversões. Foi formulada a proposta por Tufi e aceita pelos dirigentes do Centro Livre. A partir desse dia o chamamento a se travar o bom combate para ser filho estimado da Virgem Senhora Mãe e viver neste mundo com amor é cantado nos inúmeros centros livres espalhados pelo mundo Terra, que existem em benefício dos nossos irmãos.

[1] Horas de rezar a Ave Maria: 06,12 e 18h.
[2] Marcos 2:18-19.
[3] Porém, Jesus adverte: “Mas dias virão em que lhes será tirado o esposo, e então jejuarão naqueles dias”. Marcos 2:20.

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Hino 107 - Chamei lá nas alturas, do Hinário O Cruzeiro do Mestre Raimundo Irineu Serra, comentado por Juarez Duarte Bomfim.

107. Chamei lá nas alturas

Chamei lá nas alturas
Para o Divino me ouvir
A minha mãe me respondeu
Oh filho meu, estou aqui.

Minha mãe, vamos comigo
Para sempre eterna Luz
Para eu poder assinar
Para sempre a Santa Cruz.

Esta cruz no firmamento
Que radeia a Santa Luz
Todos que nela firmar
É para sempre, amém, Jesus.

A história do recebimento deste hino pelo Mestre Raimundo Irineu Serra está relacionada à vida e morte (desencarne) de um outro mestre ayahuasqueiro: Daniel Pereira de Mattos, o Frei Daniel, fundador do Centro Espírita e Culto de Oração “Casa de Jesus Fonte de Luz” - A Barquinha, criado na década de 1940 na zona rural da cidade de Rio Branco-Acre, no seringal Santa Cecília, hoje bairro de Vila Ivonete.

Daniel Pereira de Mattos Daniel Pereira de Mattos - o Frei Daniel - fundador da Barquinha.

De Daniel Pereira de Mattos sabe-se que ele nasceu em 13 de julho de 1888 numa antiga feitoria de escravos de nome São Sebastião de Vargem Grande no interior do Maranhão e que pertenceu a Marinha de Guerra Brasileira. Além disso, sendo homem bastante habilidoso, dele é dito que sabia desempenhar doze tarefas: foi construtor naval, cozinheiro, músico, barbeiro, alfaiate, carpinteiro, marceneiro, artesão, poeta, pedreiro, sapateiro e padeiro.

Ao fixar residência na cidade de Rio Branco-Acre, Daniel se notabilizou como um grande boêmio do bairro do Papôco, as margens do Rio Acre, zona de baixo meretrício e freqüentado por navegantes e boêmios em geral que por ali passavam.

Daniel fazia composições musicais que falavam de amor, paixão e busca pela mulher amada. Músicas que fluíam pelos seus dedos ao violão declarando paixão pela noite e pelas serenatas que embriagavam os homens de canções e cachaça.

Ao encontrar-se enfermo, com problemas de fígado, decorrente do abuso de álcool, passa a ser tratado e zelado pelo seu conterrâneo, Raimundo Irineu Serra, fundador da doutrina do Santo Daime. O tratamento teve início em 1936, sendo interrompido por Daniel quando se encontrou melhor de saúde. Voltou a beber e novamente doente, foi chamado pelo generoso e paciente amigo Irineu Serra para fazer um novo tratamento pelo restabelecimento da saúde física e espiritual.

Daniel se tornou discípulo do Mestre Irineu Serra, ficou conhecido como o “barbeiro do Mestre” e tocava violino nos trabalhos espirituais de Concentração instituídos por Irineu Serra.

Já residindo na colônia Custódio Freire, atual Vila Irineu Serra (Alto Santo) o Mestre Irineu para lá também transferiu os seus trabalhos. Ao término de uma Concentração, Daniel, cansado, voltando para casa, adormeceu a margem do igarapé São Francisco e teve um sonho, uma visão: a descida do céu de dois Anjos que, por ordem da Virgem da Conceição, lhe entregaram um Livro Azul e lhe falaram no cumprimento de uma missão.

Esta foi a “primeira morte” de Daniel Pereira de Mattos, quando dessa experiência e revelação renasce como místico e devoto de São Francisco das Chagas. A visão do Livro Azul por Daniel pode ser encarada como o primeiro ensinamento da doutrina que então surgia. Cada página deste livro foi e continua sendo instruções musicadas (salmos) recebidas e a cor do livro, o azul, representa o céu, de onde provêm revelações do nosso Pai de bondade, da Virgem Mãe Santíssima e dos Seres Divinos da Corte Celestial.

Os trabalhos espirituais com Daime do Mestre Daniel Pereira de Mattos tiveram a duração de doze anos (1946-1958). Daniel construiu uma casinha rústica de taipa e paus roliços, semelhante a uma pequena casa de seringal – a Capelinha de São Francisco. Lá ele recebeu os salmos de louvor e instruções provenientes dos planos sagrados – o Astral Superior. Neste espaço começou o trabalho de atendimento denominado “Obras de Caridade”. No início era procurado pelos seringueiros e caçadores da região junto com suas famílias. Pouco tempo depois, moradores da zona urbana de Rio Branco passaram a procurá-lo.

Daniel passou desta vida para a eternidade no interior da casinha de Feitio do Daime no dia 08 de setembro de 1958, às 18:30h, no início da romaria de São Francisco das Chagas. Seu corpo foi colocado no interior da igreja, sobre a mesa de concreto que ainda estava em fase de construção.

Chamei lá nas alturas
Para o Divino me ouvir
A minha mãe me respondeu
Oh filho meu, estou aqui.

Voltando a história do recebimento do hino 107 - Chamei lá nas alturas, pelo Mestre Raimundo Irineu Serra, conta-se que no dia do velório e enterro do Frei Daniel, dentro da própria Capelinha de São Francisco, foi durante o velório que o Mestre Irineu recebeu este hino, e o chamamento a entidades do Astral, comum a tradição ayahuasqueira, é aí uma invocação a Sempre Virgem Maria, que pressurosamente atende: “Oh filho meu, estou aqui”.

Esta cruz no firmamento
Que radeia a Santa Luz
Todos que nela firmar
É para sempre, amém, Jesus.

Na estrofe final, uma das mais belas imagens da cristandade se cristaliza nos versos desta canção e na superconsciência da miração: uma majestosa cruz luminosa envolvendo, no firmamento, o Nosso Senhor Jesus Cristo.

Ao término do enterro do Mestre Daniel Pereira de Mattos, o gigante Irineu Serra tendo ao seu lado a pequenina Percília Matos da Silva e os demais acompanhantes, voltaram para casa, nas terras sagradas do Alto Santo, cantarolando este hino, para ser apresentado a toda a irmandade.

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“O Lindo Daime” é o hino de número 06 do hinário “Centenário” recebido por Luiz Mendes do Nascimento.

Luiz estava em um trabalho na sala da casa de mestre Irineu. Em um intervalo, na força, ele se dirige a porta de entrada da casa do mestre, senta nos degraus, olha para o terreiro e, mirando, apresentam-se para ele seis palmas de ouro, como se fossem “folhas de palmeiras”. Luiz ouve uma voz, que pede para que ele escolha uma destas palmas, avisando-o que eram hinos. Ele olha de ponta a ponta, e todas as palmas eram de igual beleza. Luiz fica em dúvida sobre qual delas escolher. A “voz” novamente ordena: “-escolhe uma”. Até que ele escolheu: “-eu quero aquela…” Quando “a palma” se revela, vem a melodia e a letra do hino:

O lindo daime
Veja como é
É maravilha
Para todos tendo fé

Eu peço a meu mestre
No meu coração
A santa luz
Da Virgem da Conceição

Te afirma em Deus
Em concentração
Que tu terás
A santa benção

Depoimento de Florestan Neto, do site www.luizmendes.org

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A mesa de trabalhos do Mestre