Palavras,
frases, passagens e detalhes da doutrina do Santo Daime.


Hino Linha do Tucum:

Conforme orientação do Mestre fundador da Nossa Doutrina,
o senhor Raimundo irineu Serra, o Hino Linha do tucum deve
ser cantado apenas uma vez (trabalhos regulares).
Ele orientou para que esse hino não fosse repetido,
e quando alguém lhe perguntava o porque de
não poder repetir, ele dizia:

- O Sr.Tucum não é surdo, pode chamar
apenas uma vez que ele vem.

Silmara Camargo - CRF - Centro da Rainha da Floresta / São Paulo

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Batizado:

Inúmeros centros daimistas passaram a realizar casamentos e até mesmo "batizar no Daime"
quem já era batizado no rito católico, ou em outros rituais da Tradição cristã, algo que mestre Irineu nunca fez,
"por ser desnecessário e desrespeito ao batismo que já acontecera."


Luiz Carlos Teixeira de Freitas / www.juramidam.jor.br

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Casamento:

Mas há mais um ensinamento no hino e isto nos traz a um aspecto ritualístico da doutrina daimista, de sólida base espiritual: quando no mundo, mestre Irineu nunca celebrou casamentos. Ele dizia ser mais adequado casar, para quem vive junto, mas não realizava o ritual: "Ele 'mandava' casar, mas essas coisas que pertenciam ao bem material ele não fazia… Ele ajudava, fazia a festa, fazia tudo, mas não fazia casamento diretamente, isto era com o padre e o juiz. Ele até fazia a festa na casa dele, mas ele mesmo não era um casamenteiro".

Aprofundando a questão com alguns dos mais experientes, pude saber que mestre Irineu explicava que "tudo que fosse feito na sede de serviços era feito 'no astral', para a eternidade"; portanto, ao reconhecer que nem sempre os casamentos perduravam – e nisso não há obrigatoriamente erro, se cumprir a destinação –, não julgava acertado realizar a cerimônia no correr de um serviço espiritual.

Luiz Carlos Teixeira de Freitas / www.juramidam.jor.br

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Juramidam x Juramidã:

Segundo dona Percília Matos, sua filha adotiva e zeladora de seu hinário, Mestre Irineu escrevia, de próprio punho, Juramidam com terminação em "m".

Marcos Camargo - CRF - Centro da Rainha da Floresta / São Paulo

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A Miração:

Dizem que o Mestre uma vez narrou uma miração: - contar, pode, se for para ensinar e não só para ficar falando, feito tagarela… [Percília Matos da Silva]

Ele ia andando por uma estrada, limpando toda sujeira, que a Virgem Mãe, a Rainha, ia passar ali. Ele tirava os garranchos, arrancava os tocos, deixava a terra lisinha mas, se olhava para trás, tinha tudo nascido de novo. Pronto!, olha ele voltando, tornando a limpar, para ver se ia um pouco para a frente mas, se olhava para trás, estava tudo cheio de estrepe, de novo! Aí apareceu a Rainha e ele perguntou:

- Ô, minha Mãe, o que é que há? Eu limpo, limpo, limpo, e tudo fica sujo de novo?
Ela respondeu:
- São os seus irmãos, meu filho, são seus irmãos. São seus irmãos…
- E como eu faço, então?
- Só quando estiver tudo assim…, ela disse, com um gesto, e mostrou um campo de cruzes. [Tufi Rachid Amin]

www.juramidam.jor.br

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Incorporação:

Outras linhas podem até fazer o bem, mas aqui e acolá elas 'castigam' com o mal. Aqui, acolá, o mal também penetra, e dentro da nossa linha, não. Isso é o que eu tenho para dizer, porque o Mestre sempre dizia:

- Quem quiser seguir e aprender alguma coisa dentro dessa doutrina é com Daime, não tem esse negócio de misturar com isso, misturar com aquilo, nem entrar em outras linhas.

Ele era completamente contra incorporação, pois o daime não manda ninguém vir lhe dizer, ele mesmo mostra... e por isso o Mestre não adotava, não sabe? Esse negócio de incorporação, essas coisas ele nunca adotou, porque dentro da linha do daime, se o irmão está preparado, toma o daime e vai procurar a sua linha, o seu seguimento. O irmão recebe a mensagem que for preciso, a entidade até vem e lhe diz, o irmão olhando a entidade, então o irmão ouve ou tem por intuição. Mas consciente! A mensagem! Não precisa mandar recado, não sabe? Ele não adotava essas coisas porque ele dizia que tem mais mentira que verdade. O que ele falava era isso: " há mais mentira do que verdade, nessas linhas da incorporação. Onde existe uma verdade, existem cem mentiras!"


Depoimento de Percília Matos da Silva / www.juramidam.jor.br

Com delicadeza mestre Irineu respondeu uma vez, quando alguém sugeriu a adoção de outras práticas: "Olhe, não leve a mal, mas aqui na minha casa não se enfeita com flores dos outros, não. Aqui já tem o enfeite da casa."

Depoimento de Daniel Acelino Serra / www.juramidam.jor.br

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O Maracá enquanto instrumento musical:

Um sinônimo de Maracá seria simplesmente chocalho. No entanto o maracá usado nos rituais daimistas tem características especificas. Geralmente são chocalhos metálicos, feitos com uma lata de tamanho médio ou pequeno, geralmente aquelas latas de leite condensado normal ou mini, com pequenas bolinhas de aço (esferas de rolamento) dentro e cabo de madeira. No entanto ainda não existe uma padronização, havendo maracás de coco, de cabaça, de madeira e dos mais variados materiais.

A uniformização, conforme o ideal estabelecido por Irineu Serra, seria do maracá feito de lata e cada fardado possuiria um, fazendo ele parte da farda (vestimenta ritual). Este maracá deve ser tocado batendo sua parte superior na mão em marcações constantes.

Estas marcações seguiriam o compasso da musica. Uma musica em compasso quaternário como a marcha teria marcação ( f - f - f - F ) aonde a ultima seria uma batida para cima (Rufo) ao invés de ser na mão. Uma valsa em compasso ternário teria a marcação ( F - F - f ) e a mazurca em compasso binário composto teria a marcação
( f - f - f - F - F - F ) (4). O compasso se seguido corretamente por todos vai produzir o som uníssono e cadenciado favorecedor da expansão da consciência.

A padronização uma vez idealizada por Irineu Serra sofre sobre vários aspectos. O primeiro deles seria a grande diferença de materiais na fabricação dos maracás, o que produz um som diferenciado. A segunda seria a própria maneira de tocar de cada pessoa. Há pessoas que tocam batendo o maracá na mão(5). No entanto, as pessoas que usam o caderno com a letra das músicas do hinário em uma das mãos, em geral, não batem o maracá na mão por estar com ela ocupada (6). Desta forma a pessoa tem que bater o maracá, ora para baixo ora para cima, o que por si só produz um som diferenciado.

Algumas pessoas desviam o toque do seu maracá da marcação básica, produzindo viradas e repiques diferenciados. Existe uma grande problemática e discussão acerca do toque dos maracás. Durante as entrevistas constatou-se que os adeptos dão grande importância e fazem restrições ao "volume" do toque de outros adeptos, bem como restrições a estes toques diferenciados. Por vezes tivemos relatos como:

"Um ótimo xamã para entrevista sobre o maracá é o Padrinho Eduardo do Céu de Maria [SP]. Ele fica muito chateado quando escuta um maracá pasteurizado." (Jussara)

"Lá no Flor das Águas, igreja do Pedro Malheiros em São Paulo, ainda quando na garagem da casa do Pedro, haviam maracás indígenas, mas eram pouco usados. Na verdade, não eram maracás afinados, próprios para o culto do Daime, e eu poderia até chamá-los de chocalhos." (Eduardo Bayer - entrevista por e-mail)

"... não há necessariamente uma maneira correta (de tocar), acredito que se possa fazer o tempo forte a sua maneira, desde que se mantenha atento para não perder o tempo e prejudicar o ritmo, conseqüentemente a harmonia do trabalho." (Alex Guedes dos Anjos)

"... uma irmã falava: Olhem a altura do maracá! Vamos trabalhar com as energias mais elevadas, acima do coração, nunca abaixo." (Silvia)

"Também quando mal tocado e interpretado em suas forças, sozinho ou aliado a com uma percussão que não conseguira tocar, e lá esta o fim do trabalho e a peia geral (7) se instala e ninguém mais se entende na harmonia do hino e do salão que vira aquela taquicardia e acelera e diminui e é muito difícil um Maracá mal tocado." (Timberê - entrevista por e-mail ao membro do grupo daimista na França)

"Afirmações como “devem conter 132 esferas” (em alusão ao total de hinos do “O Cruzeiro Universal”), “há maracás masculinos e maracás femininos”, “os maracás devem soar em uma nota específica”, ou “há uma forma ritual de confeccioná-los”, são superstições de fundo idolátrico...”

"... Mestre Irineu não deixou nada determinado a respeito dos maracás, embora incentivasse a padronização, razão pela qual devem ser todos o mais semelhantes possível entre si e o verdadeiramente importante é todos soarem em uníssono no correr do serviço espiritual bailado, atuando poderosamente sobre o psiquismo dos fiéis e facilitando a expansão de consciência que favorece o serviço espiritual." (Luiz Carlos Teixeira de Freitas em entrevista por e-mail citando seu livro ainda no prelo)

"O maracá deve estar afinado convenientemente. Em tese, todo fardado deveria ter um maracá. Deve saber tocá-lo adequadamente dentro do ritmo exigido pelo hino. O comando do trabalho poderá limitar o número de maracás, se assim julgar conveniente." (Livro Normas de Ritual editado pelo CEFLURIS)

Percebemos, então, que preza-se o maracá tocado com som uniforme. Sendo assim quando existe uma inadequação cabe ao "comando do trabalho" julgar a maneira conveniente de proceder. O que, por vezes, pode terminar em discussões acaloradas. Existe ainda um debate acerca da afinação do maracá no entanto este aspecto, como outros, também faz parte de toda a discussão acerca do maracá enquanto instrumento musical.


E-mail gentilmente enviado por Florestan Neto - Céu da Fortaleza / Pauini - AM

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Daimista

– O senhor me recordou um fato, "seu" Nica: no ano passado [1994] eu conversava com dona Peregrina, a viúva do Mestre, e em certo momento eu falei em ser daimista… Aí ela me atalhou: 'eu preferia que o senhor usasse o termo que o Mestre usava. Ele dizia que era uasqueiro'…
– Uasqueiro!
– Isso… Ele dizia assim, "seu" Nica?
– Dizia. E com muita ênfase!
– Mesmo depois de ter dado o nome de Daime à bebida?
– Sim, de Daime…
– Uasqueiro?
– Uasqueiro, é ele. Ele não fugia, assim, da raiz, né?
– Isso me chamou a atenção, "seu" Nica… Esse comentário da dona Peregrina me chamou muito a atenção!
– Eu, sinceramente, eu posso frisar isso aí como memória, para ficar em memória. São palavras dele, vamos dizer assim, são palavras dele: nós somos, éramos e continuamos sendo uasqueiros.

Luiz Carlos Teixeira de Freitas em entrevista com Seu Nica (João Rodrigues Facundes) / www.juramidam.jor.br

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Fiscalização:

Não por outro motivo os serviços daimistas têm "fiscais" de terreiro, porta ou salão, homens e mulheres preparados com antecedência e mantidos atentos no transcurso de todo o serviço, prestes a ajudar quem precise, a conter descomedimentos, a dar suporte a quem caia ou a amparar quem necessite consolo frente à própria miséria e dor.

Uma distração, mínima que seja – e um irmão pode se machucar ou ferir outrem, bem como comprometer em alguma medida o coletivo!

Um fiscal de terreiro ou de porta não examina com atenção apenas quem, na matéria, adentra o espaço – e como entra. Tão importante quanto isto é aprender a identificar quem se achega no invisível, atraído pelo que ali ocorre ou habituado a acompanhar quem ali se trabalha, bem como se dá o que se passa com quem ali se desintegra para tentar se reintegrar melhor, por ação e Graça do Espírito Santo.

Luiz Carlos Teixeira de Freitas / www.juramidam.jor.br

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A Vela:

Por isso não há um incenso em cada canto ou uma vela em cada esquina: vela é sobre a mesa, em frente ao cruzeiro:

– E se o pessoal quer colocar uma vela aqui, outra acolá, pode?
– 'Não, isso aí é fora do ar; para não incentivar muito, faz o normal mesmo, só no cruzeiro. Porque tem gente que quer coisa demais, aí já chega um que não tem experiência do trabalho e, ó!, vela é no cruzeiro mesmo…

Depoimento de Daniel Acelino Serra / www.juramidam.jor.br

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A Disciplina:

"Naquele tempo, com o Mestre na matéria, era uma disciplina tão forte que a pessoa tinha de ser unido, tinha de se unir uns aos outros ou então dizer por quê, para fazer paz. Se olhasse com a cara feia um para o outro assim de manhã, de tarde ia fazer as pazes, não sabe?, se sabia que de noite ia tomar daime e o daime ia 'pegar'… Aí o Mestre pediu, pediu à Rainha da floresta, um ser superior, que afastasse essa disciplina, pois ele queria ensinar mas queria ensinar com carinho, com amor, para as pessoas entenderem, não sabe?, sem ser preciso tanta disciplina. Com isso, ele afastou a disciplina e talvez, se ainda houvesse essa disciplina, não haveria tanta desunião como há hoje. Mas ele é quem sabe, ele é quem sabe por que fez isso, não é?"

Depoimento de Percília Matos da Silva / www.juramidam.jor.br

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Fileiras do bailado:

Desde cedo Mestre Irineu separou homens e mulheres no salão, exceto na mesa de serviço, dispondo, como vimos, homens e mulheres, e moças e rapazes, frente a frente mas distantes. Há de se perguntar, então: além da determinação de haver separação entre os gêneros, qual o critério para definir "moças" e "rapazes"? "No tempo do Mestre, era para arrumar o salão, não sabe? Homens e rapazes, assim como mulheres e moças, têm mentalidade diferente, não é? Então, moços de até uns 18 anos e moças, enquanto se compõem como moças, ficam nas filas dos solteiros; depois, vão para as filas de homens ou de mulheres". E havia alguma "razão espiritual" definidora do que seja uma "moça", talvez associada à virgindade? "Não, era para arrumar o salão, para fazer ordem e ajeitar o povo", says Percília Matos da Silva.

Explicação análoga (equivalente) a esta eu encontrei com rigorosamente todas as daimistas mais antigas com quem pude conversar em Rio Branco, Acre, em que pese a delicadeza do tema e a falta de hábito de discuti–lo com um homem, além de tudo "estrangeiro". Muitas das quais, aliás, vão aos serviços espirituais com adereços, leve maquiagem ou unhas pintadas com discrição, como é normal, belo e saudável, "qual noiva prometida que se enfeita com seus adornos".

Determina–se pelo Brasil a fora, todavia, que as filas das moças são "das virgens". Ora, e como saber se determinada moça "ainda é virgem"? Ao que respondem: "fica por conta da consciência de cada uma". "É uma questão espiritual…", resumem. Mas por que a questão da virgindade, se verdadeiramente espiritual, determina só os seres humanos do gênero feminino? Ninguém responde, pois se trata de moral estreita de costumes e nada mais.

E, assim, vai–se cuidando do que menos interessa, deixando de lado o que realmente importa!

Luiz Carlos Teixeira de Freitas / www.juramidam.jor.br

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Consciência:

Deve ser dito que pode haver – e há – incorporações com a preservação da consciência, como mestre Irineu ensinava, mas a firme adoção do princípio de soberania do arbítrio requer a interdição das práticas de perda de consciência, mais usuais no candomblé e na umbanda, que passo a passo se estabeleceram em centros daimistas de todo o Brasil.

Ademais, embora possa ocorrer fortes tremores corporais em serviços espirituais mais intensos, como eventualmente se dá e canta um hino – "aquele que merecer vai ver seu corpo estremecer" –, mestre Irineu sempre ensinava que, quando em contato com desencarnados ou encantados, nada de gestos, automatismos, 'tiques', posturas corporais não usuais ou caretas – "mungangos", como se diz no Acre.

Luiz Carlos Teixeira de Freitas / www.juramidam.jor.br

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Hinário do Antônio Gomes:

Aliás, um episódio que marca em definitivo a permanente atitude de mestre Irineu de nunca forçar ou induzir ninguém a nada (já não fosse o fato de em todas as mais de dez mil palavras de seu hinário ocorrer uma só vez o verbo "mandar" na primeira pessoa, unicamente quando, no hino "Professor", ele afirma que "todos mandam em sua casa, eu também mando na minha; todos ficam sem aprender, eu fico com a minha Rainha") é o havido em relação ao hinário de Antonio Gomes.

Haviam me ensinado que um certo hino de Antonio Gomes só era cantado em "serviços de cura". Todavia, quando eu soube que os serviços de cura conduzidos por mestre Irineu eram em silêncio piedoso, razão pela qual o que me fora ensinado não deveria proceder, busquei conhecimento com dona Adália de Castro Grangeiro, filha de Antonio Gomes e zeladora de seu hinário.

Calmamente ela me relatou que, após a passagem de seu pai, mestre Irineu lhe pedira que inserisse novamente o quinto hino do hinário nos serviços bailados, pois Antonio Gomes, em vida, o deixara fora dos serviços de hinário, por suas próprias razões, embora, de acordo com ela, "nunca tivesse declarado que não era para pôr…":

– E a senhora não pôs?
– Pois é, eu até que tentei, mas as pessoas não estavam acostumadas, ficaram com preguiça de ensaiar e eu não nasci para mandar…
– A senhora está me dizendo que o Mestre pediu e ninguém fez?! E que este hino está até hoje fora dos serviços bailados apenas por não terem atendido ao pedido dele?
– É…
– E o Mestre, não pediu de novo?
– Ah! Ele nunca falava duas vezes a mesma coisa, salvo se o irmão não tivesse entendido e pedisse explicação. Quando falava, quem prestasse atenção e quisesse obedecer, obedecia…

www.juramidam.jor.br

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O Feitor:

Contam que entre os feitores de daime congregados à volta de mestre Irineu uma vez se instalou a disputa: quem fazia o "melhor daime"?, no sentido de daime mais bem preparado conforme o procedimento ensinado por mestre Irineu (total abstinência sexual por três dias antes da colheita de material – cipó, folhas e madeira bálsamo, sempre sob a lua nova – e durante o serviço de preparo; absoluta abolição de pensamentos ou sentimentos impróprios às virtudes em todo este período, variável de sete a dez dias; integral dedicação à tarefa do feitio até o momento em que o daime, já pronto, esteja descansando em garrafas de vidro e nunca de plástico).

"Mestre Irineu convocou seus feitores e declarou que certo dia haveria um serviço espiritual dedicado a esta 'conferência de mérito, para atribuição de patente': todos trariam uma garrafa de daime, as garrafas seriam colocadas em uma mesa ao centro do serviço e na garrafa com o 'melhor daime' os presentes mirariam uma rosa. Francisco Grangeiro, Manoel Cipriano, Raimundo 'Loredo' Ferreira, Sebastião Mota de Melo e outros feitores trouxeram as garrafas e, em certo momento do serviço, todos miraram uma rosa brotar na garrafa do daime feito por 'seu' Loredo." [Percília Matos da Silva]

Luiz Carlos Teixeira de Freitas / www.juramidam.jor.br

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Trabalhos oficiais:

Eu sempre visitava o Mestre, fora os trabalhos. Quando eu peguei amor por ele, eu ia lá e levava uma sacolinha. Eu levava almoço, e almoçava com ele. Na mesa, Mestre Irineu não dava uma palavra. Eu não alcancei ele bailando, mas alcancei ele dançando. São Pedro era festa dançante. Aniversário dele tinha também festa dançante. Um dia, eu disse a ele:

- Mestre, eu tenho tanto que fazer... É obrigado a vir em todos os trabalhos?
- Não senhor. Eu exijo dos oficiais que venham nos trabalhos oficiais.
- E quais são os trabalhos oficiais?
- Da Família Sagrada: São José, São João - que era primo de Jesus, Nossa Senhora da Conceição, a data de nascimento de Jesus Cristo; os Santos Reis; Semana Santa; Finados; e o aniversário do presidente – o sr. Leôncio.
- O senhor falou de todos os trabalhos oficiais, mas não falou do aniversário do seu nascimento.
- Desse dia eu não sei de nada, fico bem pequenininho...

Aí me veio a compreensão que o aniversário dele, não era ele que fazia. Eram os discípulos. Perto da passagem do Mestre, ele recebeu um hino avisando. A primeira crise que ele teve, eu estava lá. Nesse tempo eu estava fraco, com medo do Daime que fazia dó. E o Mestre me disse:

- No ponto que o senhor está, muitos correm. O senhor diminua o seu Daime, para não correr. Seu Daime deve ser bem pouquinho, só para fechar o corpo. E não se preocupe, que quem vai devagar também chega.

Depois disso, veio o hino que fala: "Me mandaram eu voltar / Eu estou firme vou trabalhar". Ele ficou contente. Pouco depois veio o "Pisei na terra fria". Ele convocou uma reunião e esclareceu:

- Esse hino não é só para mim. É para todo mundo. Todo mundo que nasceu, tem que morrer.

Assim, ele conformou o povo.


Depoimento de Wilson Carneiro de Souza - "Padrinho Wilson"

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A mão do Mestre:

Tem uma história que contam que o Sr. Jacude foi até o Mestre e pediu assim: “Mestre eu quero tomar um Daime dado pela sua mão”. O mestre então disse pro Sr. Jacude, “Vá até o ponto do Sr Wilson Carneiro e diga que eu mandei te dar um Daime”. O Sr Jacude insistiu: “mas Mestre, eu quero um Daime dado pela sua mão”, e o Mestre respondeu: “então vá lá no Wilson Carneiro e tome o Daime lá”. O Sr. Jacude saiu meio que triste pois queria receber o daime da mão do Mestre. Mas foi na casa do Pad Wilson e disse que ele pedira um Daime ao Mestre e o Mestre mandou para o seu Wilson servi-lo. Pad Wilson foi dar o Daime pro Sr. Jacude, e quando o Sr. Jacude foi pegar o Daime viu ao invés da mão do Padrinho Wilson a mão do Mestre, negra. Detalhe, o Padrinho Wilson era branco. Padrinho Wilson era um curador nato, um homem que dava gosto de estar ao lado num trabalho de cura.

Marco Imperial - Rainha do Mar / RJ

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O Astral:

"Acontece, meu irmão, que mesmo dentro da espiritualidade existe uma parte positiva e uma negativa. Tem o astral superior e tem o inferior, não tem? Então, se a pessoa toma o daime, se concentra e vai fazer o seu trabalho e mergulha logo no astral superior, tudo que vê é correto, não é? Mas se ela não entra no astral superior, fica no inferior e só no 'disse–me–disse', não sai nada certo. Não pode sair certo, não sabe?"

Percília Matos da Silva

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Proselitismo:

Seja qual for o caminho, caminho que deve ser escolhido e não a ele ser coagido ou seduzido, razão pela qual não deve haver proselitismo e mestre Irineu ensinava que "não se convida ninguém a tomar daime"

João Rodrigues Facundes

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"Ele respeitava tanto, tanto, tanto, que morou uma pessoa dentro da casa dele, não sei nem por quantos anos… mas muitos anos… era até hanseniano… a gente chamava ele de 'Mouco' e o nome dele era Luiz. Ele morou com o padrinho [Irineu], comendo na casa dele, vivendo dos favores do padrinho. Só que ele dormia, quando eu fui conhecer ele, ele já dormia separado num paiol, o lugar de guardar o milho, o arroz, a macaxeira… Esse 'Mouco' morou com ele todos esses anos, vendo ele tomar daime, ele dar daime a muita gente e esse 'Mouco' nunca pediu para tomar daime e ele também nunca ofereceu, nunca obrigou, nunca chamou. Com determinado tempo esse 'Mouco' saiu de lá, acho que se hospitalizou e faleceu, mas é para ver o tanto que ele respeitava. A coisa mais sublime que ele tinha era o daime e nunca ofereceu".

Saturnino Brito do Nascimento – www.juramidam.jor.br

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Conta Daniel Acelino Serra, que nem sabia de Daime e, dias depois de chegar a Rio Branco, recém chegado do Maranhão, viu muita gente entrando em casa:

– Todos foram se sentando nos tocos e bancos, daqui a pouco titio trouxe um garrafão e foi dando uma bebida para todo mundo. Eu fiquei só olhando… doente de curiosidade… até uma hora em que ele me fitou em silêncio por um tempo e, já que eu nada disse, voltou–se e continuou a dar do garrafão para as outras pessoas. Aí todo mundo foi se aquietando, eu fiquei no meu canto sem entender nada durante o silêncio compridíssimo que fizeram e no dia seguinte perguntei–lhe o que era aquilo.
– É daime.
– Daime!? O que é isso??? E porque o senhor não me deu um pouco?
– Porque você não pediu. Viu–me ali dando para todo mundo, mas não pediu, e eu não devo oferecer...


www.juramidam.jor.br

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A cadeira do Mestre:

“Algumas vezes o Mestre ficava em casa, deixando os trabalhos nas mãos do pessoal de apoio, o pessoal da mesa. Pois na época, o sistema era militar, tinha que começar na hora. Dona Percília sempre chegava na hora e tinha autorização dele para começar os trabalhos. Eu, como Comandante Geral do salão (atribuição dada pelo Mestre), chamava o pessoal no maracá. Quando estava presente, o Mestre poucas vezes ficava na mesa, tinha vezes que ficava no quarto do Daime ou em uma cadeira no salão, na parte direita do salão. A cadeira da mesa ficava vazia. Quando a gente menos esperava, ele sentava na cabeceira.”

Daniel Arcelino Serra - www.afamiliajuramidam.org

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Fogos de artifício:

“Depois do segundo dia não foi mais preciso tomar daime e daí por diante entrou 'em trabalho' e foi se apurando de tal forma que ficou de um jeito que tudo era espírito, a floresta também virou uma coisa espiritual, de uma dimensão tão grande que as árvores riam dele, o vento dava nos galhos das árvores e criavam braços, querendo agarrá–lo. As manchas nas árvores eram bocas rindo, falando, conversando e aquilo chegou a se acentuar a um ponto tal que ele temeu, foi dando um certo medo nele; aí, como ele andava com um rifle de caça, naquele temor ele detonava o tiro e no estampido recebia um encorajamento e um conforto, o que leva até a crer que foi o que fez com que ele inserisse, inclusive com muita ênfase, os fogos dentro do trabalho.”

Depoimento de Saturnino Brito do Nascimento / www.juramidam.jor.br

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Sobre o Mestre e o dinheiro:

Tem uma passagem do Mestre que relata muito bem o parecer do Mestre com relação ao dinheiro. Estava o Mestre em companhia dos seus irmãos quando chegou o Sr. Wilson Carneiro. Conversaram na companhia dos colegas e em certa hora o Sr. Wilson diz ao Mestre:

“... Mestre, eu trouxe uma ajuda ao Senhor, o Senhor que ajuda a todo mundo deve precisar de algum dinheiro...”

Ato seguido, pegou uma nota das grandes e a entendeu ao Mestre. O Mestre, com o beiço na boca, mandou o Sr. Wilson colocar, com suas próprias mãos, o dinheiro no bolso da sua camisa. Passaram alguns minutos e chegou um vizinho do Mestre, alegando que sua família estava doente e com fome. Vinha pedir ao Mestre uma ajuda, enquanto ele não arrumava um emprego (diária).

O Mestre mandou Dona Peregrina juntar arroz, feijão, milho, farinha de macaxeira, tabaco, açúcar, café, jabá e outros alimentos e pediu para entregar tudo isto ao homem que pedia socorro. O homem, agradecido, se ajoelhou ante o Mestre e prometeu jamais esquecê-lo. Na hora de se despedir, o Mestre mandou o homem pedinte enfiar dois dedos no bolso da camisa do Mestre. Para surpresa de todos, e do homem aflito, o Mestre o mandou pegar o dinheiro que poucos instantes antes o Sr. Wilson colocara. O homem disse ao Mestre que não precisava do dinheiro, já que tinha ganhado muita comida, para mais de uma semana. O Mestre respondeu: “Vá, bom homem, pegue esse dinheiro que fará melhor ao senhor do que a mim.”

Após estas palavras, o homem se retirou. A lição que o Mestre deu aos seus discípulos foi esta, do dinheiro. Por essa razão é que não justifica este argumento de alguns: “Temos que bancar a igreja, as despesas, etc., etc., etc.”

Segundo os antigos, jamais o Mestre aceitou ajuda financeira de políticos, autoridades e nem de gente mais endinheirada para tocar seu culto, e muito menos sua comunidade. O Mestre trabalhava, suava a gota gorda, mas dizem que o arroz, o milho e o feijão duravam de um ano para o outro e alcançava para todas as 42 famílias que dependiam dele. Nunca foi necessário entrar nessa prática.


Marco Imperial - Rainha do Mar / RJ

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O Mestre e Buda

“Uma vez ele (o Sr. Irineu) contou. Ele perguntou se eu conhecia alguma coisa, se tinha em algum momento lido alguma obra, a palavra de Buda.

‘- Não Mestre ainda não. (respondeu o Sr. João Facundes).’
Ele disse:
‘- Procure um livro e leia.’

E eu conversando com uma senhora que tinha aqui...essa senhora foi falou que ele (Sr. Irineu) tinha emprestado o evangelho de Buda pra ela. Aí eu digo:

‘- Opa Dona Palmira, chamava-se Dona Palmira Xavier da Rocha, eu digo,
me empresta!’
Aí foi e me emprestou. Aí eu li, reli. E quando ele (Sr. Irineu) perguntou pra mim se eu tinha gostado da leitura, eu digo:
‘- Gostei Mestre. Muito.’
‘- O que que você achou? (o Sr. Irineu respondeu).’
Eu disse: ‘- Mestre, não achei diferença dele pro senhor não.’
‘- Não?! (disse o Sr. Irineu)’
Eu digo: ‘Não senhor. Só a diferença... só que ele era um pagão.’

Naquela época chamava né... E cristo batizou. Então, só essa diferença. Mas os ensinamentos pra mim são os mesmos. Porque um dos sinal, eu até afirmei na presença dele (Mestre) mesmo, quando eu, diante de um dizer de Buda, quando um discípulo dele perguntou:‘Seu Buda, o senhor sempre fala em fazer uma viagem, o senhor volta?’
Ele (Buda) disse: ‘Volto! Em outras terras e com outro nome.’Isso passaram o quê? Quatrocentos e tantos anos. Aí veio Cristo com os mesmos ensinamentos. Aí depois desse Cristo, o Mestre. Surgiu lá pelos anos 92, de 1892. Um senhor com os mesmos ensinamentos. E pra mim é a mesma pessoa (risos)” (entrevista, maio / 2007, Rio Branco – AC)


SANTO DAIME: UM SACRAMENTO VIVO, UMA RELIGIÃO EM FORMAÇÃO - Tese de Doutorado - Isabela Oliveira

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A Conversa do Mestre

A conversa do Mestre, pra mim, a que mais me marcou, foi uma: Eu tinha 23 anos. Eu me casei com 22, e com 23 anos eu entrei na sessão. Aí, um dia, ele conversando com uma turma - a sala dele estava cheia de gente -, ele foi e disse que só trabalhava com homem, com satisfação, com homem acima de 40 anos de idade. Ele dava Daime para esse pessoal novo e tal. Era uma obrigação de dar, às vezes até em consideração aos pais, etc. e tal, mas com satisfação mesmo, com homem de 40 anos pra frente. Aí eu, naquela hora, eu estava sentado lá na ponta do banco e fiquei triste comigo mesmo, né? Ele foi e virou-se assim para mim:

- Luiz? Ficou triste, Luiz?
- É padrinho, confesso ao senhor que fiquei triste, né? Porque você tá dizendo isso aí, fazendo essa afirmação. Eu, agora que eu tenho 23 anos, pra chegar aos 40 que o senhor precisa para trabalhar com homem com satisfação vai demorar muito.
Ele disse:
- Não, Luiz. Não fique triste, não. Não fique triste, não. Feliz das pessoas jovens, assim como você e outros, que tiveram ou estão tendo a felicidade de encontrar um caminho de luz como este. Vocês são felizes também.
Bom, aí me encheu! Aí me agradou, né?
- Mas vamos trabalhar, Luiz. Vamos trabalhar que você chega lá.

Hoje eu cheguei. Já ultrapassei até oito anos. Já tenho 48. Embora não sendo ainda o homem que ele sonha. Porque o homem do Mestre Irineu eu tenho certeza que ainda não sou.


Luiz Mendes do Nascimento em entrevista cedida a Alex Polari, no final dos anos 80, presumivelmente em 1988 / www.afamiliajuramidam.org

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Estudo Fino

Como diz mesmo o próprio hino dele [Mestre Irineu], temos estudos finos e é preciso compreender. O que ele mais almejava em nós era a gente se conscientizar da gente mesma, se olhar. Era onde ele se prendia mais: o ensinamento maior dele era a gente se olhar, se olhar e se olhar, que através disso chegava o resto. Tudo, tudo, tudo. Que enquanto a gente está procurando Jesus dentro das paróquias, dentro das multidões... Ele está realmente em todos esses lugares... mas é muito melhor a gente procurar dentro da gente, que a gente encontra com mais facilidade: a gente se virando para a gente mesmo, vai se encontrar com Ele com mais facilidade do que dentro de um templo ou até dentro da mata.

Depoimento de João Rodrigues Facundes - http://juramidam.jor.br/

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A Água do Mestre

Em 1928, Irineu conheceu Francisca, uma cearense, vinte anos mais velha do que ele, e a tomou como companheira - ele tinha trinta e oito anos e ela cinquenta e oito. Após a sua saída da polícia, Irineu, junto com Dna. Francisca, procurou um lugar para morar no entorno de Rio Branco. A região onde acabou se instalando fazia parte do Seringal Empresa, e, na época, ainda havia por lá muitas colocações de seringa (termo usado no primeiro e segundo ciclos da borracha para denominar o lugar onde o seringalista colocava o seringueiro), apesar da baixa pela qual passava o mercado da borracha. Essas localidades eram pouco assistidas pelo governo e careciam de qualquer benfeitoria. Irineu, quando chegou ao local de sua nova moradia, utilizou o conhecimento que adquirira em suas andanças pelas florestas acreanas, ajudando a população local a se livrar de um mal até então inexplicável. Daniel Serra lembra duma história que seu tio lhe contou sobre este período.

Era no tempo que o Mestre foi morar novamente numa antiga colocação de seringa. Lá nessa colocação, todo mundo que ia morar lá morria. Quando morreu uns quatro ou cinco por lá, ele decidiu: "Eu quero morar lá nesse lugar. Eu quero tomar conta de lá." Ele foi pra lá. Foi no tempo que ele morava com a dona Francisca. Quando ele arriou a bagagem, disse para ela: "Olhe não beba água. Espera aí, vamos ver o que tem aí."

Aí, saiu procurando a vertente. Aí, quando ele chegou na vertente, ele encontrou uma planta chamada "capança" encostada na água. Eles tomavam a água com o veneno da "capança". Ela é um veneno muito forte, ela é igual ao "assacu" e outros venenos violentos que tem por lá. Com uma semana ou duas, as pessoas morriam. Ele tirou a "capança" de dentro da vertente, aí, ninguém mais morreu naquela colocação. O ano que ele viveu lá, todos viveram com saúde. [Daniel Serra]


Paulo Moreira e Edward MacRae - do livro Eu Venho de Longe p.117 e 118.

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O Cruzeiro da Doutrina

Ele no começo fez uma cruz. Era só uma cruz de um braço. Mas, aí quando ele começou a receber os hinos e tudo, diz ele que recebeu a mensagem pra botar dois braços no Cruzeiro. Foi lá na Vila Ivonete. Era logo no começo. Quando ele recebeu, o vovô Antônio Gomes nem vivia ainda aqui (antes de 1939). Diz que ele em um determinado tempo. [...] recebeu a mensagem pra botar dois braços no Cruzeiro. Foi quando ele viu o livro Cruz de Caravaca*, que tem a Cruz com dois. Foi aí, que ele achou que estava certo, como ele recebeu (Paulo Serra, filho adotivo do Mestre).

Paulo Moreira e Edward MacRae - do livro Eu Venho de Longe p.181.

*Livro "A Cruz de Caravaca, Tesouro de Orações", que ele veio a conhecer por intermédio do Círculo Esotérico, possivelmente ainda na época do CRF, fundado pelos irmãos Costa e por ele, em fins da década de 20.

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A dose da Concentração

A gente andava quinze, até vinte quilômetros por essas estradas para ir tomar Daime. A família toda. Tomava uma dose só nas concentrações e voltava. Depois de várias horas ainda estava todo mundo mirando. Então, o Mestre me autorizou a abrir alguns trabalhos em casa e a fazer Daime.


Padrinho Sebastião --
www.xamanismo.com.br

Nota importante: na época do Mestre, as doses eram de copo tipo 'americano' cheio, o que corresponde de 140 a 160 ml, respectivamente até a linha ou até a borda do copo. Em depoimentos dos pioneiros, ouve-se muito falar em ocasiões nas quais as doses eram cheias "até a borda". Importante também mencionar que o Daime do Mestre era sempre de primeiro grau. Pouco antes da sua passagem, Mestre Irineu instituiu as doses de meio copo, já sabendo que na sua ausência ele não teria como se responsabilizar pelo Daime servido. De acordo com o depoimento de dona Percília, "Ele reduziu o Daime numa concentração, já na véspera do dia dele partir, foi no dia 30 de junho de 1971, e no dia seis de julho ele foi embora de vez". Essa instrução de meio copo perdura até hoje nos centros do Alto Santo.

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O Daime do Mestre

Ele disse isso pra mim, e para várias pessoa eu vi ele dizer, ele alertando, ele disse: “- Seu Pedro, o nosso Daime, o meu, tem permissão dada pela Rainha, pela Virgem Soberana Mãe, não é dada pelo um homem da terra, e esses homens que fazem da cabeça dele põe mistura de tudo o que é coisa arriscado, até endoidar as pessoas”. Como já tem acontecido, né?

Pedro Matos, esposo da dona Percília Matos.

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Mestre, Ayahuasca e a Primeira Organização Religiosa do Acre

É importante notar que não existia na região nenhuma religião organizada. Os primeiros padres da Igreja Católica vieram se instalar em Sena Madureira por volta de 1922. Mas já em 1914, em Brasiléia, havia uma entidade religiosa organizada, dirigida pelos irmãos André e Antônio Costa, que se utilizava da ayahuasca.

É um fato que impõe respeito: a primeira entidade organizada no Acre é de uasqueiros. Dessa entidade participou um maranhense chamado Raimundo Irineu Serra, que iria, entre 1914 (ano em que provavelmente conheceu a bebida) e 1971 (ano de seu falecimento), implantar sua própria Doutrina tendo como Centro e Sede a colônia Alto Santo, nos arredores de Rio Branco. É aí que a ayahuasca mudou de nome e passa a chamar-se Santo Daime, multiplicando adeptos na cidade e no campo.

Para se ter uma ideia, no enterro de Irineu mais três mil pessoas assinaram o livro de  presença, sem contar os próprios membros da Doutrina. Na época, Rio Branco não chegava a 50 mil habitantes, incluindo crianças.

Antônio Alves, periódico "O Rio Branco", 23 de junho de 1985. Departamento de Patrimônio Histórico do Estado do Acre / Fundação Elias Mansour.

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Mestre Irineu, Céu, Inferno e os Caboclos.

Antônio Alves – Os padres falavam muito que existe o céu e o inferno. O que o Mestre Irineu dizia disso?
Dona Veriana – Não, o padrinho Irineu dizia que o inferno é aqui mesmo, e os cão é os que faz mal aos outros, que matam que roubam, é, é isso mesmo.
Antônio Alves – A senhora lembra, estavam me contando uma história que pediu, Raimundo Borburema, pediu pra dar uma sessão de caboclo aqui, e ele deixou?
Dona Veriana – Deixou.
Antônio Alves – E a senhora tava presente?
Dona Veriana – Tava, depois que ele fincou o paiol, depois que ele fez a sede, ele colocava o legume dele lá, aí o padrinho Irineu disse, "Vai, Veriana, para ele te dar um passe de roda". "Vou nada, padrinho!" E eu deitada lá, fui, tá! Não, não! Muita gente foi, é.
Antônio Alves – E ai, qual foi o comentário depois?
Dona Veriana – O comentário é que o pessoal daqui tudo ele dava passe de roda, ninguém se atuou (risos). Padrinho Irineu ria no outro dia - qual de vocês que pegou caboclo? Ele ria.

Entrevista com dona Veriana da Silva Brandão - departamento de Patrimônio Histórico e Cultural do Estado do Acre / Fundação Elias Mansour.

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Entrega da Presidência

Raimundo Gonçalves: Rapaz, eu não tenho lembrança, não. Você sabe que menino, menino não.
Guido Carioca: É, não presta atenção.
Raimundo Gonçalves: Não liga pra nada, é. Vai ligar de certa idade pra frente. Eu, como eu disse para ele um tempo, quando eu vim embora pra cá, eu disse para ele: "Padrinho, faz muitos anos que eu ando junto com o senhor, eu cheguei com a idade de oito anos onde o senhor está. Mas até hoje eu não aprendi, até agora, de uns dois anos atrás eu não sabia de nada. Hoje é que eu estou prestando atenção em alguma coisa que o senhor está explicando para a gente. Então, de agora pra frente, eu sei o que o senhor está fazendo, eu sei o que o senhor está ensinando pra nós, mas até aí eu não sabia de nada."
Marisa Fontana: O senhor tinha que idade?
Raimundo Gonçalves: Eu tinha uns 27 anos.
Marisa Fontana: Nessa época dos 27 anos.
Raimundo Gonçalves: Eu fui e falei para ele.
Marisa Fontana: Então o senhor quer dizer que até essa idade o senhor não...
Raimundo Gonçalves: Não ligava pra nada, não.
Raimundo Gonçalves: Você avalia como era a minha compreensão, então já era no tempo de eu prestar atenção, né. Mas a minha compreensão era tão boa que eu deixava de vir para o hinário para ir para uma festa de dança.
Marisa Fontana: Hum, hum.
Raimundo Gonçalves: Vê que eu dava muito valor, né! Depois, daí para cá foi que a mamãe chegou aqui e deu uma queixa de mim. "Ah! Meu Padrinho, o Raimundo não quer mais vim para o hinário, só quer saber de festa! Eu queria que o senhor desse uns conselhos nele". Ele foi e disse: " Dona Zulmira, a senhora já foi nova?" - Já, sim, senhor. "A senhora gostava muito de festa?" - Já. "Pois então, deixe o Raimundo comigo. No dia que for para ele vim para cá, não precisa ninguém ir atrás dele, não precisa ninguém ir atrás dele que ele vem". Aí quando só teve um ano de folga para mim.
Guido Carioca: (Riso).
Raimundo Gonçalves: No outro ano, eu já...
Guido Carioca: Se apresentou.
Raimundo Gonçalves: Foi o jeito. Justamente na primeira Sede, primeiro hinário que houve foi o Hinário da Maria Damião, quinta-feira maior, e a inauguração foi no dia de São João. (...) Aí ele foi e disse: "Antônio José, eu queria fazer o hinário dessa Casa hoje, agora nessa semana". Ele disse: "Pois não". "Eu quero que você arrume tudo aí, que eu vou fazer um hinário aqui". Aí eu venho, chego aí com preguiça de bailar, né, cheguei e disse assim: "Padrinho, eu queria que o senhor me desse um pouco de Daime e me desse uma licença para eu me deitar, para eu me sentar acolá, no banco. Ele: "Pois não." Aí ele foi e me deu três quartos de Daime e mandou eu me sentar. "Procura um canto aí". Vou sentar. Daí foi que eu comecei a prestar atenção no trabalho, da primeira Sede pra cá.
Sérgio Augusto: Nisso o senhor tinha uns 28 anos de idade?
Raimundo Gonçalves: Eu acho que ainda não tinha isso, não (riso). Eu acho que ainda não tinha isso, não.
Guido Carioca: Oh, senhor Raimundo, nós em conversa, o senhor já, conversando comigo assim, retratando como foi essa entrega da presidência para o senhor Leôncio. Foi nesse período. Dá para o senhor relembrar mais uma vez?
Raimundo Gonçalves: Bem, isso aí, esse negócio aí, o Padrinho Irineu, o tio Leôncio fez. Nós passamos a noite no hinário lá na Sede. Aí, por lá houve alguma dúvida, né, de certos irmãos que eram metidos a ser do Estado Maior, né. Houve alguma dúvida por lá, e o tio Leôncio não gostou. E todo trabalho a gente tinha que de manhã vir dar ocorrência para o Mestre Irineu. O que a gente tinha feito, os trabalhos que a gente tinha feito, o que tinha acontecido. Tudinho a gente dava ocorrência para ele. Quando chegou de manhã, tinha vindo junto com ele, aí o Padrinho Irineu estava doente, tava deitado. Aí, falou com a Piu: "Eu posso entrar lá onde está o Padrinho Irineu?" Disse: "Pode. Então, tu entre." Aí nós fomos lá onde ele estava. Nós chegamos e tomamos a benção e ele mandou nós sentar. Nós sentamos, e sentou ali no batente. Ele sentou-se no tamborete lá. Aí se perguntou: "Padrinho, eu vim dar a ocorrência dos trabalhos dessa noite. "Leôncio, não precisa você dar mais ocorrência de trabalho. Porque se eu estiver na Sede, eu sou o presidente e você é o vice-presidente. E se eu não estiver na Sede, você é o presidente e o vice-presidente. Então, não precisa você me dar ocorrência." Ele disse: "Mas Padrinho, eu quero sempre estar ao lado do senhor para conversar certas coisas que acontecem." Ele disse: "Não, não se preocupe comigo, que eu não saio de perto de você, nunca." Foi assim a entrega.
Sérgio Augusto: Isso foi quando?
Raimundo Gonçalves: A data eu não marco, não (riso!).
Marisa Fontana: Mas ele já estava doente, num já?
Raimundo Gonçalves: Já estava doente.
Sérgio Augusto: De 65 para cá, né?
Raimundo Gonçalves: Em 1969. Bem pertinho de ele viajar. Em 1969, por aí assim. Não tenho bem lembrança. Eu estou dando essas datas, mas não tenho lembrança direito.
Guido Carioca: A data aproximada, né?
Raimundo Gonçalves: É, porque eu não gravo essas coisas.

Entrevista com o senhor Raimundo Gonçalves do Nascimento, em 23 de outubro de 1994. Acervo do Departamento de Patrimônio Histórico e Cultural do Estado do Acre / Fundação Elias Mansour.

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