A VIDA DE ANTÔNIO GOMES DA SILVA
"O Mensageiro da Paz"
Por Rodrigo Borges Conti Tavares

 

A Vida de Antônio GomesA Família Juramidam / 19 de março de 2011 - O que se segue é a pesquisa feita sobre mais um dos Companheiros do Mestre, desta vez sobre Antônio Gomes da Silva, este chegando à missão de Irineu Serra por volta de 1938, sendo com isso o último dos quatro a se juntar aos trabalhos da Virgem da Conceição, a Rainha da Floresta.


Mencionando suas origens, Antônio Gomes da Silva nasceu no Ceará, em 30 de abril de 1885, onde se casou com dona Maria Nazaré e com quem teve cinco filhos. Depois, ele se mudou para Belém do Pará, transferindo-se em 1921 para Rio Branco, no Acre, onde trabalhou na seringa e mais tarde na agricultura, a exemplo de muitos migrantes pioneiros que vieram do norte do país e posteriormente ingressaram na doutrina de Irineu Serra. Ficando viúvo, casou-se de novo com dona Maria, tendo desse casamento mais quatro filhos.

Teófilo Maia, em conversas com o senhor José Gomes, dona Adália e a já falecida Vó Preta, narra um pouco da história do Antônio Gomes.


Pintura retrato de Antônio Gomes da SilvaO retrato à esquerda, gentilmente enviado por Natan e entregue a ele pela dona Nazaré Grangeiro, apresenta o senhor Antônio Gomes com a idade aproximada de 40 anos. De acordo com Eduardo Bayer, a técnica utilizada é a do crayon, tendo como base a foto original de seu título de eleitor, segundo a própria família. Essa técnica era muito comum no interior, quando a fotografia ainda não era difundida e a população procurava esse serviço para copiar imagens de seus familiares em tamanho maior ou, então, criar composições, sendo que o resultado é mais uma representação do que uma cópia fiel da pessoa. Segundo Eduardo Bayer, ainda hoje se encontra esse tipo serviço em feiras e mercados regionais.


Sobre a sua chegada ao Acre e o seu encontro com a missão de irineu Serra, Jairo da Silva Carioca narra,



Desse episódio, o desenrolar foi que Antônio Gomes logo se estabeleceu na irmandade ao adiquirir a colônia do cunhado da Maria Damião, e foi pela numerosa família desse patriarca que, em 1938, as fileiras da doutrina teriam um significante aumento em seu corpo de fardados.



Uma de suas filhas, Dona Cecíla Gomes da Silva, viúva de Germano Guilherme e falecida em 2009, também acrescentou,

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Vamos todos meus irmãos
E não devemos esmorecer
Que o Mestre que nos ensina
Ele tem força e tem poder


Vamos enfrentar com coragem
sem a nada nós temer
porque Deus nos ajuda
e nós só temos que vencer

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É sabido que havia cerca de 20 pessoas que regularmente tomavam o Daime com o Mestre no final dos anos 30, sendo que muitos deles, a exemplo do próprio Antônio Gomes, tinham chegado à missão para se curar de alguma doença, mas que acabavam permanecendo no culto do Mestre Irineu porque se sentiam amparados e protegidos por ele [Sandra Lúcia Goulart]. Como completa o depoimento de dona Percília Matos da Silva,



A respeito de sua personalidade, além de ter sido comerciante e patriarca de família numerosa, Guido Carioca nos conta:

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O amor divino
Que o mestre nos entregou
Da nossa mãe soberana
E do nosso pai criador

Este amor divino
Nós devemos consagrar
Que é o amor de Jesus Cristo
Ele manda o mestre nos dar

O amor divino
Gravemos no coração
Que esta luz o Mestre dá
Para todos seus irmãos

O amor Divino
Da nossa mãe criadora
É o alimento do espírito
E da matéria sofredora

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Antônio Gomes recebeu o hinário que hoje é chamado de “Amor Divino”, de caráter instrutivo e de grande louvor à sessão de Irineu Serra, a exemplo do seu último hino recebido pouco antes de ele falecer, que nos diz: “Eu nunca vi neste mundo tão importante tesouro, aonde brilham todas estrelas bem chuviscadas de ouro.”
Sua devoção ao Mestre e à doutrina é clara, e o seu hinário é o testemunho da sua cura, essa acontecida em sua chegada à doutrina e cantada em versos de reconhecimento e de louvor ao mundo espiritual. O interessante a respeito de seu hinário é que, nas sessões de cura, quando o Mestre decidia cantar um hinário após o período de concentração, geralmente se cantava o hinário do Antônio Gomes.

Sobre seu quinto hino, “Declaração”, Luiz Carlos Teixeira de Freitas narra seu econtro com a dona Adália, filha e zeladora do hinário de Antônio Gomes.

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Meu chefe me deu licença
Para hoje nós cantar
para todos ver um milagre
Que eu tenho para mostrar

Eu recebi esta cura
com muita satisfação
me acho hoje curado
junto com meus três irmãos

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*Sobre o depoimento de Luiz Carols Teixeira de Freitas a respeito do silêncio nas sessões de cura, é importante frisar que os hinários, quando cantados nas sessões de cura, eram realizados após o término do serviço, esses que muitas vezes não tinham encerramento formal.

De seu hinário também vem a primeira menção ao nome “Juramidam”, mais tarde relatado pelos seguidores mais antigos - e segundo a própria dona Percília - como sendo o nome de Irineu Serra no plano celeste. Um exemplo seria o depoimento de Daniel Arcelino Serra, respondendo a Luiz Carlos Teixeira, quando este último diz,

– Ele [Mestre Irineu] falava de Juramidam, conversando, antes de chegar esse hino?
– Já sim, desde o começo.
– E o que falava, desde o começo?
– Que é o nome dele, próprio. Aqui ele era Irineu, mas lá o nome dele é este, o nome próprio dado pela própria divindade a ele lá… Não foi ele quem se fez, né? Ele já veio determinado com esse nome. A patente dele, o espírito dele, lá na eternidade; ninguém chegue lá chamando Irineu, que lá ninguém sabe quem é Irineu, lá é Juramidam. Portanto, quando nós fizermos nossas orações, nossos pedidos, nós temos que pedir a Juramidam. O senhor vai ver o Cristo falando dentro do senhor, puro, puro, puro, é Deus mesmo em verdade.

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O General Juramidam
Os seus trabalhos é no astral
Entra no reino de Deus
Quem tem força divinal


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Ainda sobre seu hinário, como menciona Guido Carioca, “o senhor Antônio Gomes foi o irmão quem primeiro recebeu uma mazurca nos trabalhos, e era ele quem ensinava a bailar as mazurcas que os outros seguidores iam recebendo.Nazaré Grangeiro, filha da dona Adália, também conta que o avô era uma pessoa simples na vida e nos trabalhos, e Teófilo Maia completa que Antônio Gomes era o “General da Harmonia” no batalhão, inclusive sendo o responsável pela disciplina do bailado na ala masculina e se fazendo de conciliador entre os irmãos.

E foi com esse espírito conciliador que, após curto período de apenas 8 anos no Daime, Antônio Gomes daria adeus à irmandade durante período difícil, em 1946, quando a sessão tinha sido fechada pelo próprio Mestre Irineu devido a problemas entre os irmãos. Como seu penúltimo hino relata: “Meu Príncipe está ofendido, que todos nós ofendemos. Vós fechou Vossa sessão, a culpa nós é quem temos.”

Esse seria o profundo lamento do companheiro dedicado que não mais veria em matéria a reabertura da sessão. Sobre esse episódio, e sobre a passagem de Antônio Gomes, Jairo Carioca narra,



Em entrevista coletada por Florestan Neto, do livro “Contos da Lua Branca”, Walcírio Grangeiro, neto de Antônio Gomes, narra os momentos em que o avô, já bastante doente, busca o auxílio do Mestre,

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Só eu cantei na barra [1]
Que fiz estremecer
Se tu queres vida eu te dou
Que ninguém não quer morrer

A morte é muito simples

Assim eu vou te dizer
Eu comparo a morte
É igualmente ao nascer

Depois que desencarna

Firmeza no coração
Se Deus te der licença
Volta à outra encarnação

Na terra como no céu

É o dizer de todo mundo
Se não preparar o terreno
Fica o espírito vagabundo


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[1] Barra é uma palavra que, na região acreana, se refere ao limite que fazem as nuvens no céu quando cobrem quase sua totalidade ou, por outra, também o limite entre o dia e a noite, entre a vida e a morte. [Sandra Lucia Goulart]

Dentre os descendentes de Antônio Gomes figura a neta Peregrina Gomes, filha de Zulmira Gomes, que duas décadas depois se casaria com Irineu Serra e se tornaria a herdeira de seu trabalho espiritual na terra. Também foi o filho de Antônio Gomes, Leôncio Gomes, quem recebeu do Mestre ainda em vida a presidência da sessão, já que a então dona Peregrina Gomes Serra, sua sobrinha, ainda era muito jovem para tal. Foi em 1986, com a passagem de Raimundo Gomes, também filho de Antônio Gomes, que a dona Peregrina assumiu sozinha o comando, cargo que ela ainda ocupa hoje na sede de serviços da doutrina do Santo Daime, no Alto Santo.

Leôncio Gomes segurando a bandeira do Santo Daime


Nessa foto vemos Leôncio Gomes, filho de Antônio Gomes, segurando a bandeira do Santo Daime e tendo ao lado seu José das Neves Júnior, Francisco Grangeiro e outros. A foto foi enviada por Mivan Gedeon e faz parte do acervo fotográfico do seu Daniel Serra, sobrinho do Mestre Irineu.

Sobre a zeladoria de seu hinário, Guido Carioca explica que a dona Adália Gomes, esposa do senhor Francisco Grangeiro, aos oito anos de idade recebeu do pai, Antônio Gomes, a missão de cultivar seus hinos, tarefa que ela ainda hoje desempenha aos 77 anos de idade. Atualmente, o hinário Amor Divino é oficialmente cantado no dia de Finados, em dois de novembro, juntamente com os outros três hinários dos Companheiros – Germano Guilherme, João Pereira e Maria Damião.

Apesar de não ter presenciado em vida a reabertura da sessão, Antônio Gomes, assim como os seguidores mais próximos de Irineu Serra, deixou um legado ímpar para a doutrina que ele tanto reverenciou e ajudou a manter, ao lado do Mestre e de um grupo fiel de seguidores pioneiros, até seu suspiro final. Dentre seus frutos, seu hinário é uma das grandes provas do seu trabalho em matéria, da cura e do reconhecimento espiritual, sendo que foi oficializado por Irineu Serra como um dos cinco que compõe a base doutrinária do Santo Daime. Assim, são nas palavras de seu último hino que termina esta homenagem feita a quem foi em vida um dos quatro ditos companheiros do nosso amado General Juramidam.

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Este Rei que aqui está
Que o Divino Pai mandou
Ele veio para este mundo
Para ser o Dominador

Mesmo assim eu dizendo
Ninguém quer acreditar
Que Ele tem este poder
Deste globo governar

Ele veio ser a baliza
Deste mundo de ilusão
Com o poder do Pai Eterno
Ele traz na palma da mão

Ele veio para ensinar
Neste mundo universal

Para todos nós trabalhar
Para a vida espiritual

Manda nós se corrigir
E ter toda consciência
Para ver o que nós precisa

Para a nossa existência

Quem não tiver consciência
Não pode ter lealdade
Em nada tem firmeza
E nuca fala a verdade

O nosso Rei aonde reside
É um palácio de nobreza
Não tem com que se compare
Essa Divina Pureza


Para ir lá nesse palácio
É com força superior
Isso eu digo é porque vi
Que o meu Rei me amostrou

Eu nunca vi neste mundo
Tão importante tesouro
Aonde brilham todas estrelas
Bem chuviscadas de ouro


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