Germano Guilherme, o "Maninho"
Por Rodrigo Borges Conti Tavares
 

 

A Vida de Germano GuilhermeA Família Juramidam, 15 de Março de 2010

Como prometido, o que se segue é a continuação da pesquisa sobre os companheiros do Mestre. Desta vez, sobre a história de Germano Guilherme. Mas, antes de começar, gostaria de agradecer a providencial ajuda de todos aqueles que participaram desse processo no envio de material. Agradeço também a todos aqueles que fizeram pesquisas anteriores sobre o Germano e que abaixo estão citados.

Portanto, é com prazer que eu apresento este texto que traz um pouco mais da vida daquele que foi o primeiro seguidor a tomar ayahuasca com o Mestre, isso ainda em 1928, quando ambos serviram na Guarda Territorial acreana e anos antes do primeiro trabalho da doutrina do Santo Daime, em 1930.

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De Germano, o que mais chama atenção em sua história talvez seja a amizade que cultivou com Mestre Irineu. E, de fato, foi por intermédio do encontro desses dois migrantes nordestinos, e Germano ter conhecido a “bebida do cipó” pelas mãos do Mestre, que a comunidade mais tarde testemunharia uma das amizades mais bonitas da doutrina; mencionada por todos os seguidores e que se estenderia até a sua morte, em 1964.

Nota: anteriormente estava escrito que o episódio em que o Mestre levou um tiro na mão tinha sido junto com Germano Guilherme, mas isso foi antes de 1920, antes de o Mestre conhecer Germano na Força Policial.

De acordo com livro "Eu Venho de Longe", de Paulo Moreira e Edaward MacRae, Germano e o Mestre vieram a se conhecer na corporação da Força Polical, na qual Irineu ingressou três dias após chegar a Rio Branco, vindo de Brasiléia.

A entrada de Irineu para a Força Policial marca também uma importante inversão de papéis em sua vida. De perseguido pela polícia, passou a membro daquela instituição. Fala-se que Irineu, em suas folgas, continuou discretamente a fazer uso de daime (depoimento de Cecília Gomes em comunicação pessoal a Saturnino Brito do Nascimento), pois o cipó e a folha abundavam na região de Rio Branco. Embora nesse momento não fizesse mais parte de um grupo daimista, continuou, mesmo que solitariamente, seus estudos com a bebida.

Logo ao entrar na Força Policial, Irineu fez amizade com Germano Guilherme, o músico João Pereira e João Leão, que viriam a serem seus primeiros discípulos. Diz a história que Germano, desconfiado do sumiço ocasional de Irineu, perguntou-lhe se podia acompanhá-lo nas folgas e, dessa forma, acabou sendo iniciado no Daime (P. Moreira, E. MacRae, 2011 - p. 113)

Sobre o hinário de Germano Guilherme, poderíamos até dizer que ele é uma fiel narração do universo inacreditável de Raimundo Irineu Serra, o seu amado Mestre, com isso sendo aquele quem primeiro apresentou o seu imaginário verbal no plano terreno.

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Divino Pai Eterno
O seu mundo veio e formou
O seu mundo veio e formou
E habitou
E habitou
Com toda criação
Com toda criação
Com vosso amor
Deixou e levou
E tão distante ficou
E tão distante ficou
Olhando a sua criação
Olhando a sua criação
Com o vosso brilho do amor
Com o vosso brilho
Com o vosso brilho do amor

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Sobre sua origem e sua vida, a primeira pesquisa detalhada feita sobre Germano Guilherme vem do site www.hinarios.blogspot.com, que diz:

*de acordo com o livro "Eu venho de Longe", de Paulo Moreira e Edward MacRae, Germano Guilherme nasceu em Pernambuco, fato corrente na comunidade do Alto Santo. Eu pessoalmente falei por telefone com seu Paulo Serra, filho adotivo do Mestre, que confirmou o local de nascimento, assim como Paulo Moreira, que ouviu várias vezes de Vó Preta, viúva de Germano, que ele tinha nascido em Pernambuco.

Ainda falando do seu casamento com dona Cecília, a mesma nos conta em seu depoimento:



De todos os relatos colhidos, a imagem que se tem de Germano Guilherme é a de uma pessoa zelosa, companheira e muito firme em seu trabalho. Era conhecido pela sua decisão e firmeza nas atitudes e palavras. Segundo correspondência com Teófilo Maia,



Em depoimento ao site A Família Juramidam, seu Daniel Arcelino Serra, sobrinho do Mestre, narra:

Sobre Germano e o salão, ele era reconhecido por ser um excelente cantor era um maestro do maracá, fazendo questão de marcar pessoalmente o compasso e a condução de seu hinário. E Teófilo Maia completa que cantar seus hinos era um acontecimento na comunidade.

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No coração trago a firmeza
E no Divino nas alturas
Esta é a casa da verdade
É um primor é um primor
É um primor de formosura

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Um caso interessante a respeito de Germano é que o Mestre teria dito a dona Percília - gerente geral dos hinários e quem anotava todos os hinos recebidos em um caderninho - que ela podia corrigir os hinos de todos, mas que nos do seu Germano não se trocasse uma vírgula. O fato é que o Mestre muitas vezes procurava a dona Percília para revisar seus hinos, o que ela nunca fez e sempre se recusou a fazer. Ele mesmo ia tomar Daime e corrigir o que tinha que ser corrigido com a Rainha.

Outro caso interessante, contado no livro "Eu Venho de Longe", de Paulo Moreira e Edward MacRae, é que quando Daniel Pereira de Matos (conterrâneo e amigo do Mestre Irineu, fundador da religião ayahuasqueira Barquinha) esteve doente, Mestre Irineu simplesmente pediu que ele transcrevesse o hinário de Germano Guilherme. Quando este terminou a tarefa, a cura estava realizada. Daniel Arcelino Serra ainda completa,



Em correspondência com Teófilo Maia, este pesquisando a vida dos Companheiros no Alto Santo, ele nos conta que:



Nota - o início do depoimento anteriormente publicado, que fala sobre o Piauí, foi suprimido devido ao fato de que agora sabe-se que germano nasceu em Pernambuco.

Ainda segundo o livro "Eu Venho de Longe", os relatos são de que Germano Guilherme teve uma filha chamada Francisca das Chagas, que conforme se relata, não gostava de tomar Daime. Germano ficou viúvo e a filha foi morar com o marido em Porto Velho, com ele adquirindo o mal do alcoolismo e vindo a falecer tempos depois, logo sendo seguida pelo marido. Os dois fizeram a passagem antes de Germano.

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Germano Guilherme foi o último dos quatro Companheiros a fazer a passagem, com 62 anos, em 1964. Nesse ano, vários dos últimos seguidores que conheceram o Mestre em vida já tinham chegado à missão, a exemplo do seu Loredo Ferreira, João Pedro, Francisco Grangeiro, a família Carioca, Daniel Serra, Wilson Carneiro, Tetéo, Luiz Mendes e muitos outros. Seu velório foi realizado em sua casa, próximo à Vila Ivonete, depois sendo reverenciado pela irmandade no Alto Santo, onde aconteceu seu sepultamento e onde hoje seu corpo descansa, ao lado de outros pioneiros da doutrina e às margens da floresta que tantas vezes visitou com seu amado Mestre.

Dessa forma, aqui fica feita essa homenagem a Germano Guilherme dos Santos, o Maninho”, companheiro e fiel amigo do Mestre e que hoje é lembrado por nós quando cantamos seu hinário, Vós Sois Baliza”, um dos cinco que foram oficializados por Irineu Serra como sendo a base doutrinária do Santo Daime.

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Eu recebi eu recebi
Eu recebi com alegria
De quem eu recebi
Foi da sempre virgem Maria

Tu não deve dar conselho
A quem não quer escutar
Dou-te esta instrução
Deixa ficar como está

Treme a terra treme a terra
Treme a terra e geme o mar
Tudo que existe nela
Tem tudo que balançar

Nota: os hinos aqui apresentados são de recepção de Germano Guilherme, sendo que o segundo é apenas um trecho do hino "Do Sol Vos Nasce a Luz". Os outros são "Divino Pai Eterno" e "Eu Recebi", respectivamente abrindo e fechando seu hinário.