A vida de João Pereira, o "General do Conforto"
Por Rodrigo Borges Conti Tavares.
 

 

A Vida de João Pereira29 de março de 2012 - Hoje o site A Família Juramidam apresenta a última pesquisa sobre os quatro ditos “Companheiros do Mestre”. Esta série, que se iniciou em 2009 e ao longo destes últimos anos pesquisou a vida de Maria Damião, Germano Guilherme e Antônio Gomes, chega ao seu término com João Pereira, cearense de Porongaba e um dos primeiros discípulos de Irineu Serra.

Sobre esse importante pioneiro, apesar de ele ter ficado conhecido na doutrina como “General do Conforto" - de acordo com o que se sabia pela suavidade de seus hinos -, é surpreendente saber que ele foi um seguidor de personalidade forte, voz de trovão, às vezes sendo descrito até como intimidante. Sobre sua patente recebida em vida, mais adiante veremos que ela não viria de seu hinário, mas de uma particularidade sua no salão, durante as cerimônias, dando provas mais uma vez de que a missão espiritualista de Raimundo Irineu Serra teria o auxílio de um grupo muito especial de pioneiros.

A respeito de sua vida entre nós, João Pereira foi esposo da dona Maria Marques Feitosa, a “Maria Franco”, e foi por trazê-la à doutrina para que se curasse do alcoolismo - em história muito similar à de muitos seguidores - que as fileiras da missão de Irineu Serra se fortaleceriam com um seguidor que mais tarde seria imortalizado na história do Santo Daime junto com os outros três ditos Companheiros do Mestre. Também sua enteada, dona Raimunda, viria a ser a primeira esposa* do Mestre e aquela que o acompanhou durante boa parte da sua missão com o Daime.

*Raimundo Irineu Serra teve duas companheiras prévias; Emília Rosa Amorim (com quem teve o filho primogênito, Walcírio Genésio da Silva) e dona Francisca.

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Deus, quando veio ao mundo,
para curar e salvar,
ensinar a Santa Doutrina,
àqueles que procurar.

A primeira pesquisa feita sobre a vida de João Pereira veio do site “Cadernos de Hinário”, que traz as seguintes palavras:

Um dos primeiros membros da Doutrina de Juramidam, João Pereira nasceu em Porongaba, Ceará, no fim do século 19. Não se sabe a data de sua transferência para o Acre, mas ele também serviu na Guarda Territorial junto ao Mestre e Germano, e tocava na banda como músico do quartel. Conta-se que João Pereira tinha pouco cabelo, era caboclo e trabalhou como agricultor e carroceiro.

João Pereira possui um dos cinco hinários tidos como base da Doutrina. O caderno de hinário deixado por ele foi intitulado "Seis de Janeiro" por conter uma pungente valsa em celebração ao Dia dos Santos Reis Magos. Além destes hinos, João Pereira recebeu o hino "Oh meu Pai Eterno", que no Caderno de Missa é cantado em pé com quatro celebrantes segurando velas acesas em torno da mesa para formar uma cruz. Também teria tido outros hinos, os quais foram em uma correção pelo Mestre retirados do caderno e deixaram de ser cultivados. Faleceu em 1954, e depois disso o Mestre se separou de sua esposa Raimunda e toda a família desta deixou o Acre. Mestre Irineu sempre se referia a ele como "o General do Conforto", por aquilo que seu hinário transmitia de bom dentro dos trabalhos em que era cantado.
[hinarios.blogspot.com]

De acordo com a citação que João Pereira fazia parte da banda do quartel, na época em que o Mestre serviu na guarda, o livro de Paulo Moreira e Edward MacRae - Eu Venho de Longe (2011) -, apresenta um boletim da força policial no qual constam os nomes de João Pereira e Germano Guilherme. Além do documento, o livro fala um pouco do período em que o Mestre serviu com aqueles que viriam a ser seus primeiros seguidores.

Boletim da força policial

 

Teófilo Maia também escreve sobre João Pereira, depois de realizar uma rica pesquisa sobre sua vida com dona Maria do Dito; dona Valdirene, neta do Mestre; seu marido, senhor Carlinhos; Sr. Paulo Serra, filho adotivo do Mestre e a Vó Preta. Ao que ele gentilmente nos relatar por e-mail:

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Oh! Virgem Soberana!
Oh! Virgem poderosa!
Dai-me os Vossos primores,
Vós nos cubra nós de rosas.

A história de seus hinos, de louvor e amor à Virgem, também é o rogativo dos seus desafios e provações pessoais. Do que se sabe, pelos depoimentos, ele chegou à missão de Irineu Serra carregando consigo uma personalidade forte, às vezes até intimidante, mas foi em sua vida simples de carreteiro e com os ensinos aprendidos no Daime que João Pereira veio a se tornar um seguidor de grande importância para a doutrina, veículo das instruções que iam sendo transmitidas através dos hinos recebidos.

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Eu quero que mamãe me ensine
eu amar esse menino
como Vós me apresentou,
tão galante e tão mimoso.

Foi nessa trajetória de contrastes que João Pereira tornou-se o primeiro seguidor a ter mencionado em um hino o ser “Maraximbé”, que, de acordo com a própria irmandade, é um ente relacionado à peia, ao apuro e à disciplina no universo da bebida sagrada, como o próprio hino menciona e para o qual se “faz lombo pra apanhar” de acordo com os crimes cometidos. É a figura do “açoitador”, do “disciplinador” presente no universo daimista do Mestre Ensinador (Bayer). Eduardo Bayer também conta que Maraximbé é um arbusto da região do Alto Purus que os índios kaxinawá utilizam em forma de cinza para compor um forte rapé.

De acordo com o livro de Paulo Moreira e Edward MacRae, "Eu venho de Longe", o que não se sabia é que, na verdade, Maraximbé é o nome de um dos chamados do Mestre, os quais, segundo dizem, apenas a falecida dona Percília Matos conhecia por inteiro. No que diz respeito o hino de João Pereira, ele também pode ser cantado em forma de chamado.



É interessante notar que João Pereira recebeu Maraximbé em seu hinário da mesma forma que outro companheiro, Antônio Gomes, foi o seguidor que primeiro mencionou o nome "Juramidam" nos hinos. Em relação a essa ligação dos discípulos com o Mestre através dos hinos, Walcírio Genésio da Silva, filho primogênito do Mestre Irineu, explica:

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Chamei Maraximbé,
para ele vir cá.
Traz o corpo e fica firme,
faz lombo pra apanhar.

Você deve se lembrar,
deve pensar um pouco,
na firmeza que empregou
e na palavra que jurou.

Oh! Meu Divino Pai!
Minha Sempre Virgem Maria!
Perdoai o Vosso filho
e os crimes que eu cometi.

Sobre João Pereira ter recebido o posto de "General do Conforto", muito se comenta entre os veteranos que havia trabalhos muito fortes na época do Mestre, nos quais poucas pessoas se aguentavam em pé, e é nesta rica narrativa de Francisco Grangeiro - cedida em videotape a Alex Polari, em 1988 - que ficamos sabendo da origem da patente e também nos familiarizamos um pouco com a personalidade de João Pereira no salão, durante os trabalhos. O detalhe é que, segundo Francisco Grangeiro, a patente é a de "comandante".



Outra rica narração sobre essa prática de João Pereira no salão vem do livro "Eu Venho de Longe", de Paulo Moreira e Edward MacRae, na época em que a doutrina passava por algumas modificações, nos idos de 1940. Nesse caso, algumas mudanças tinham sido feitas nos bailados de alguns hinos.

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Rezo prece, canto hino,
para levantar esta torre.
Viver com alegria,
ter gosto e ter amor.

Já no fim do Hinário de João Pereira, um hino que ficou marcado ao longo das décadas é o “Seis de Janeiro”, que também dá título ao seu hinário. Em correspondência com Ricardo Plácido, ele escreve que, segundo Saturnino, João Pereira estava em uma Praça de Rio Branco quando, mesmo sem tomar Daime, a força baixou e ele recebeu o hino. Antes de receber o hino, dizem que ele realmente iria para o Rio de Janeiro com a família. Sabendo dessa vontade de João Pereira, o Mestre lhe deu duas garrafas de Daime; um de guia e outro para tomar com a família. João Pereira então pensou em qual Daime ele deveria tomar primeiro e resolveu tomar o de guia, e foi na miração do Daime que ele viu que não era para fazer a viagem, decidindo ficar. Segundo consta, dizem que o navio que iria levá-lo afundou.

Sobre essas informações, aparte o depoimento de Saturnino, a história das duas garrafas de Daime e do cancelamento da viagem é conhecida entre a irmandade de Porto Velho, sendo que em correspondência com a professora Arneide Bandeira Cemin ela confirmou ter ouvido história semelhante entre os daimistas do estado, em Roraima.

Segundo dona Percília, a família de João Pereira deixou a doutrina um ano após sua morte, se mudando para São Paulo, aonde dona Raimunda, sua enteada e ex-esposa do Mestre, veio a falecer vítima de atropelamento.

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Quando eu cheguei no palácio,
fiz minha obrigação.
Avistei uma excelência,
um excelentíssimo ancião.

Fiz minha continência,
prestou-me bem atenção.
Pedi-lhe a santa luz,
de vós o santo perdão.

Agora que chegaste,
trataste da obrigação.
Estás na santa luz,
de mim tens o santo perdão.

Sobre os últimos dias de João Pereira, Teófilo Maia continua com a narrativa de sua pesquisa feita no Alto Santo:



Também, de acordo com o livro "Eu Venho de Longe", de Paulo Moreira e Edward MacRae:



De acordo com os relatos cedidos a Teófilo, já se sentindo praticamente bom e sem sentir mais as febres, João Pereira quebrou a dieta ao insistentemente convencer Manoel Belém de que já estava curado quando este último fez escondido um “pato no tucupi”, típico da culinária paraense, e que João Pereira teria descoberto. Há uma variação desse depoimento, quando Paulo Serra diz que foi Manoel Belém quem convenceu João Pereira a comer o citado prato, mas o resultado, não importa por que meio, foi que a enfermidade retornou com força redobrada para dessa vez não mais o deixar, o que nos narra Teófilo,



João Pereira faleceu no início dos anos 50, sem data precisa, ainda que a identificação de sua lápide seja a do ano de 1952. Acredita-se que, com a reforma do Cemitério Palmeiral, algumas datas se perderam (M. Paulo 2011). Segundo Bayer, a data seria a do ano de 1954.

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Amor, amor,
amor em minha mãe.
Eu piso firme e sigo em frente,
com amor no coração

Amor, amor,
amor em meu pai.
Eu sigo em frente e é verdade,
sou filho da realidade.

Sobre a punição dada pelo Mestre a Manoel Belém, podemos ter ideia de como todos os seguidores eram importantes na vida e na missão de Irineu Serra, ao passo que também lhes era exigido a firmeza no dia a dia para seguirem no caminho muitas vezes desafiador apresentado pela bebida sagrada.

João Pereira faleceu sem uma zeladoria para seu hinário, hoje muito admirado e cantado entre os centros de Daime, e uma descoberta surpreendente é que as circunstâncias de sua morte e a doença que o acometeu causaram tanto impacto na comunidade que seu hinário ficou sem ser executado por três anos [M. Paulo 2011]. Ainda sobre esse hiato, após a morte de João Pereira, Paulo Moreira e Edward MacRae narram em seu livro, "Eu Venho de Longe":

Em correspondência com Ricardo Plácido, este nos conta que, ainda que a zeladoria do hinário de João Pereira tenha ficado a cargo de Francisco Grangeiro, anos depois, presumivelmente na antiga sede do CICLU, Grangeiro chegou-se para Saturnino, filho de Luiz Mendes, e lhe disse que se preparasse para receber a zeladoria do próprio João Pereira em miração, em um trabalho, o qual foi realizado e depois confirmado a transferência pelo próprio Grangeiro, sendo que a zeladoria ainda hoje está a cargo de Saturnino.

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Eu digo para o meu Mestre,
que eu vivia pelos desertos.
Pelas pétalas desta flor,
eu peço a meu Mestre que não me despreze.

Dos quatro companheiros, a imagem que permanece é que cada um deles representou um papel fundamental na fortificação da doutrina, literalmente compondo, junto com os seguidores da época, o "Estado Maior do Mestre Irineu". Por sua vez, o próprio Mestre reconheceu o valor desses seguidores na composição do seu trabalho e o poder aglutinador que eles tinham ao manterem suas famílias unidas dentro da comunidade, o que fica claro nos casos tanto de João Pereira como de Maria Damião, quando seus familiares se dispersaram da doutrina após suas passagens, hoje sem representantes.

Décadas depois, além dos depoimentos hoje existentes, o legado que esses quatro pioneiros deixaram para a doutrina do Santo Daime permanece imortalizado em seus hinários, nos quais podemos entender a missão que representaram, a importância dos ensinos que transmitiram e sobretudo a concordância e a ordem que tinham com o próprio hinário do Mestre, "O Cruzeiro", sendo oficializados em vida, pelo próprio Irineu Serra, como sendo a base doutrinária da doutrina do Santo Daime.

O salão do Mestre

Assim, dentre os bastiões da doutrina, esta série de quatro pesquisas sobre os Companheiros do Mestre termina apropriadamente nas sentenças do último hino de João Pereira, que é prova inequívoca da presença viva e da beleza, em matéria e espírito, do nosso Mestre Raimundo Irineu Serra, o General Juramidam.

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Na esquerda eu vou seguir,
na esquerda tenho que ir.
Com o poder do Pai Eterno
E da sempre Virgem Maria.

O Mestre manda que eu forme
na esquerda do General.
Ele manda que eu me firme
e me componha em meu lugar.

Nota: os trechos de hinos apresentados neste artigo são de recepção de João Pereira, sendo que apenas o último está completo.