A vida de Maria Marques Vieira
Por Rodrigo Borges Conti Tavares [1].

 

A Família Juramidam, 13 de abril de 2009.

Quando primeiro me propus a escrever sobre Maria Damião, um ícone da doutrina e detentora de um hinário por todos venerado, eu achei que seria uma tarefa difícil, impossível até. Mas é com calma e humildade que me presto a esse serviço, por força da necessidade e por achar que é necessário à doutrina.

Porque as dúvidas sempre estiveram presentes em relação à Maria Marques Vieira, essa pessoa que para mim, no passado, estava sempre envolta em um manto de obscurantismo e mistério. Uma contradição ao cantar seu hinário e ler e ouvir o que tinha para ser dito sobre ela.

Talvez a frase mais citada entre todas fosse a de que era uma irmã doente e desvalida, tendo vivido em dificuldades e muitas vezes desamparada pela própria comunidade; fato este que confirmavam citando o hino O GLOBO, que nos diz, entre outras palavras, “Eu vivo nesta irmandade / como uma irmã desvalida...”.

Sou filho da minha mãe
E ela abraça os que me acompanham
Eu digo é com firmeza
Que a minha mãe não me abandona

Nos últimos anos tenho planejado sem sucesso uma viagem ao Acre, especialmente para conversar com os mais antigos e buscar informações sobre o Mestre e também dos Companheiros (Germano Guilherme, Antônio Gomes, João Pereira e Maria Damião). Entristece-me o fato que desses pioneiros, cujos hinários foram oficializados pelo próprio Mestre como sendo os hinários oficiais da doutrina (junto com o dele próprio), pouco se sabe ou pouco se escreveu. Na ausência de condições de fazer esta viagem estou me valendo da boa vontade daqueles que têm acesso a informações que nós não temos, me propondo a escrever uma série sobre os quatro Companheiros do Mestre, a começar por Maria Damião. Acontece que a irmandade nunca falha, e aos poucos fui recolhendo material e apoio suficiente para levar esse projeto adiante.

A história deste texto que escrevo começa há alguns meses, quando Teófilo Maia me escreve um e-mail com algumas dúvidas sobre uma famosa foto da doutrina - da irmandade reunida na Vila Ivonete - divulgada pelo Eduardo Bayer. Teófilo pensou que a moça de farda branca na foto pudesse ser Maria Damião, pelo seu aspecto franzino, pequeno. Também sabia que a menina ao lado, de farda azul, era Laura Vieira, filha de Maria Damião. Isso por si só dava algo para se pensar, pois ainda não se conhece uma foto onde ela está presente. Mais adiante, lendo as palavras do Eduardo Bayer sobre o estado de abandono de alguns familiares da doutrina, este desejo de encontrar uma foto da Maria Damião se tornou efêmero, infantil até, da minha parte. Como ele mesmo coloca,

“(...) Quanto à vida de Maria Marques, me lembro que uma vez, no Ciclu-Alto Santo, vi sendo homenageada a única filha viva desta, e era uma velha senhora muito magra e muito pobre. Infelizmente não tinha disponíveis quaisquer meios de documentação para poder registrar algo com esta, nem tampouco colaborar-lhe com algum conforto, o que me fez pensar o quanto nos equivocamos ao privilegiar determinados “medalhões” da Doutrina (e suas famílias) em detrimento de outros, ou mesmo por criarmos mecanismos de amparo a estes mais necessitados. A memória da Doutrina se perdeu muito e continua se perdendo por esse esquema de pesquisa algo sanguessuga de alguns poucos. (...) Espero que saibamos pedir sempre ao Daime discernimento para dedicarmos nosso tempo ao que realmente interessa e menos a vãs elucubrações!” [2].


Do que anteriormente se sabe, Maria Marques Vieira nasceu em Belém do Pará, no dia 4 de novembro de 1910* e, ainda muito jovem, transferiu-se com sua família para Rio Branco - Acre, onde no ano de 1931 veio a conhecer o Mestre Raimundo Irineu Serra. Maria Damião, como passou a ser conhecida - devido ao nome de seu esposo -, era de baixa estatura, branca e loura. Casou-se, teve sete filhos (um sobrinho adotivo) e perdeu o marido logo em seguida.


*Segundo pesquisa feita por Mivan Gedeon, onde a data está afixada no túmulo de Maria Damião.

Segundo José Francisco das Neves Junior, o Conselheiro Zé das Neves, O Mestre Irineu teve muitos alunos, muito mais de mil, mas nem todos se esforçaram para aprender igual. Têm muitos deles que levaram a sério e posso citar uma: Maria Damião foi uma aluna que trabalhou uns tantos anos com o Mestre. Faleceu em 1949, mas aprendeu e recebeu um hinário e por isso será uma pessoa sempre lembrada dentro da Doutrina. [3]

Jairo da Silva Carioca também diz: Ela dedicava-se, além da doutrina, ao trabalho com a terra. “Plantava, roçava e colhia o pão de cada dia que ajudou a criar seus filhos”, como relata dona Percília Matos, de quem foi grande amiga. Espiritualmente, Maria Damião recebeu um dos mais belos hinários da Doutrina, hoje batizado como "Mensageiro", composto de 49 hinos. Seus hinos verbalizam em sua totalidade as palavras do Mestre Irineu. É desse hinário a origem da palavra pátria na Doutrina. Maria Damião, através de seus hinos, nos fala do amor à Pátria - terra onde nascemos, e em outras passagens projetou histórias que aconteceriam no futuro, como as divisões do grupo em 1974 e 1981. Em 1942, quando a marinha japonesa foi derrotada, os alemãs e italianos expulsos do norte da África, na Segunda Guerra Mundial, Maria Damião anunciava através de seus hinos: 'novas revoluções com os estrangeiros'. Seu hinário descreve também a figura de um Chefe Estrangeiro, ser espiritual misterioso, que poucos na Doutrina conhecem seu significado e origens. Retratando essa passagem, o Mestre recebeu o hino 'Choro Muito'. Ninguém sabia que ela estava doente. Com três dias que saiu esse hino, chegou a notícia que ela estava agonizando. Ela adoeceu repentinamente e morreu com 32 anos. Maria Damião também fala de sua passagem para a vida espiritual em seu último hino, que recebeu o nome de despedida.” [4]

Do recente livro publicado, "Eu Venho de Longe", de Paulo Moreira e Edward MacRae, ficamos sabendo um pouco mais sobre sua vida e seus filhos.

Maria Francisca Vieira, também conhecida como Maria Marques Vieira (nome de casada), ou Maria Damião, tomou-se viúva aos 30 anos de idade. Seu hinário foi muito apreciado pelos daimistas e viria a se tornar um dos mais importantes do Daime. Sabe-se que nasceu no Ceará, no dia 4 de novembro de 1910, e chegou ao Acre no final da década de 1920, ao lado de Porfilio, seu primeiro esposo, mas com quem não teve filhos.

Um Um pouco depois de sua chegada, ele foi assassinado e, em seguida, ela conheceu Damião Marques de Oliveira, casando-se com este no início da década de 1930. Juntos tiveram seis filhos, Raimundo, Laura, Lúcio, Hugo, Valdir e Matilde. O casal também chegou a criar um sobrinho de Damião, Wilson, filho de Manoel Marques (irmão de Damião). Os irmãos de Damião, Pedro, Manuel e Lucas, também se tornaram seguidores de Mestre Irineu, juntamente com suas esposas e filhos (...).

(...) No final da década de 1930, Damião Marques de Oliveira, esposo de Maria Francisca Vieira (Maria Damião) adoeceu gravemente de pneumonia, passando cerca de seis meses convalescendo da doença. Mestre Irineu chegou a tratá-lo, mas diz-se que Damião não cumpriu o tratamento e, assim, veio a falecer. Não se sabe com precisão a data de sua morte, sabendo-se somente que ele morreu logo após o nascimento de sua filha caçula, Matilde, no dia 21 de novembro de 1939. Assim, o final da década de 1930 marcou dez anos de trabalho de Mestre Irineu e também a morte de Damião Marques de Oliveira. (...)

(...) A família de Damião teve grande importância na rede de amizades de Mestre Irineu. Foram eles que lhe deram apoio para a realização dos rituais do Daime num espaço mais amplo, no terraço de sua casa, onde cabiam mais participantes. Maria Damião desempenhava um papel importante nos rituais de Mestre Irineu, dando auxílio aos novatos e aos que necessitavam de conforto. [9]

Maria Damião veio a falecer no dia 2 de abril de 1949, com a idade de 38 anos. Após seu falecimento, o hinário “O Mensageiro” passou a ser carinhosamente zelado por Percília Matos, gerente geral dos hinários. Luiz Carlos Teixeira de Freitas nos diz, “dona Percília foi escolhida por dona Maria Damião para ser a zeladora de seu hinário (assim como ocorreu no caso do hinário do mestre Irineu). (...) Germano Guilherme escolheu Luiz Mendes, João Pereira escolheu Francisco Grangeiro e Antonio Gomes escolheu dona Adália.” [5]

Voltando a correspondência com Teófilo Maia, este estando naquele momento no Alto Santo - conversando com dona Adália, dona Cecília (conhecida como Vó Preta), Paulo Serra (filho adotivo do Mestre), seu Fred (um velhinho que encontrou no mercado dos colonos), Valdirene (filha de Paulo Serra e neta do Mestre) e seu esposo Carlinhos e outros - as informações foram aparecendo. A pessoa em questão na foto era dona Bibi, irmã de dona Percíla Matos. A menina ao lado de Laura Vieira era a própria dona Adália Gomes, sendo muito próxima da família Damião. Nessa sua busca dona Adália até mesmo reconheceu Damião Marques, esposo de Maria Damião. Dona Cecília afirma que Maria Damião estava presente na ocasião desta foto, apesar de não aparecer nela.

Mestre e os primeiros seguidores, ainda na Vila Ivonete.

Sobe sua vida, sua condição, e sua rotina, Teófilo nos diz assim,

Maria Francisca Marques Vieira é um exemplo de vida para amar o seu próximo, haja vista o que já constatei em boa parte de suas atitudes, essas sendo recontadas por aqueles que estiveram com seus filhos, e principalmente com a dona Cecília - que após a viuvez de Maria Damião, era a que a acompanhava para a feira e ajudava a vender seus produtos (Pés-de-moleque, goma, carvão, bolo de macaxeira, roscas de goma, carimã etc.). Em vista de a mesma ser analfabeta, e não saber contar dinheiro, sempre precisava da assessoria da Vó Preta. Ninguém conheceu seu verdadeiro nome, informação essa passada por dona Adália Gomes, que está bem lúcida, pois a encontrei colocando a linha na agulha da máquina de costura, e sem óculos.

Pesquisando com a neta da dona Cecília - Valdirene e seu marido Carlinhos - e com seu filho, Paulo Serra (filho adotivo do Mestre), levantou-se que Maria Damião não era uma “pobre coitada”, como se faz pensar em relação ao seu hino O GLOBO, onde ela canta “Eu vivo nesta irmandade / Como uma irmã desvalida...”. Maria Damião era uma mulher independente, que tinha seu próprio roçado, tinha sua própria produção. [6]

Enquanto Raimundo Irineu Serra e os primeiros seguidores estavam se assentando na Vila Ivonete, em 1931, dando início aos trabalhos iniciais da doutrina do Santo Daime, Maria Damião sempre viveu – mesmo quando o Mestre abre um novo caminho nas terras do Alto Santo – no antigo bairro Alberto Tôrres. Como relata o sr. Luiz Mendes:
“Por força de seus companheiros, arranjaram para ele uma colônia na Vila Ivonete. Parece que o Mestre foi um dos primeiros moradores”. Jairo Carioca nos fala: “De imediato, ao tomar posse, Irineu Serra tratou de organizar seu lote de terras, procurando plantar e torná-la produtiva. Construiu uma casinha de barro, semelhante às de sua terra natal, passando a viver no local junto com os outros seringueiros”.

É nesse processo inicial de estruturação que o primeiro hinário da doutrina é cantado na casa da família Damião, como nos fala dona Percília Matos da Silva, no vídeo Lua Branca: Damião Marques, que era o marido da Maria Damião, ofereceu a casa dele; que se ele [o Mestre] quisesse que ele podia fazer lá. Aí ele aceitou. E nós fomos.

Era 23 de junho de 1935, o Mestre organizou duas frentes de trabalho. Os homens foram tirar lenha para fogueira, as mulheres, preparar a ornamentação e uma grande ceia que o Mestre pediu para fazer no intervalo. Quando foi lá pelas seis horas da tarde, na Casa de dona Maria Damião, nós nos reunimos, rezamos um terço, tomamos Daime e fomos cantar até meia noite. Só tinha oito hinos! Um de Germano Guilherme, quatro do Mestre, dois de João Pereira e um de Maria Damião. Eram repetidos nessa mesma ordem por toda a noite. Quando foi meia noite ele deu um intervalo, já estava preparada a ceia numa grande mesa, quando ele mandou que nós cantássemos por três vezes aquele hino:

Papai do Céu do Coração
Que hoje neste dia
Foi quem deu o nosso pão
Graças à mamãe

Mamãe do Céu do coração
Que hoje neste dia
Foi quem deu o nosso pão
Louvado Seja Deus

Esse hino foi cantado de forma tão bonita, que nunca mais me esqueci... Até hoje...” chora emocionada dona Percília Matos. Após a meia- noite o grupo voltou a cantar a seqüência de hinos determinada até o amanhecer do dia. Era dia de São João Batista. [3]

Sobre o aspecto de desvalida, ao qual muitos se referem, Luiz Carlos Teixeira de Freitas nos explica um pouco da realidade existente na doutrina nas décadas após o assentamento dos primeiros seguidores.

Após a mudança do mestre para o seringal espalhado (doado a ele pelo então Interventor do Território do acre), posteriormente denominado “Alto Santo”, o que passou a ser sua prática foi a cessão de pequenos lotes na imensa área para que adeptos mais próximos pudessem construir sua casa e ali viver com sua família, sem que isto constituísse uma “comunidade”. Esta cessão era gratuita, mas não havia transferência legal de propriedade; era principalmente um “empréstimo”, digamos assim, e não necessariamente para “desvalidos e necessitados”, no sentido de “quem não tem nada”...


Muitos trabalhavam na cidade, em ocupações várias, e mesmo mestre Irineu contratava alguns para pequenos serviços em sua terra ou suas plantações (eram vastas...), pagando-os em dinheiro por dia de trabalho ou por empreita (Luiz Mendes foi um destes).
  
Nesta configuração local da época, então, faz sentido pensar que dona Maria Damião tivesse a própria plantação e vivesse de vender seus produtos localmente (...).
Neste sentido, também, o “irmã desvalida” que Maria Damião canta em um de seus hinos não deve ser entendido em sentido material de penúria, mas, sim, como admissão de sua situação de entrega a Deus, à espera de salvação. Exatamente este termo, e o conceito nele implícito, estão presentes na atitude humilde de inúmeras santas pessoas [5].

Para aqueles que conhecem seu hinário, é um fato que para muitos ele se tornou um símbolo de justiça e reconhecimento da luta do homem na terra. Não podemos também desconsiderar que a memória dos primeiros seguidores é muitas vezes preenchida pelo espírito dos nordestinos, povo forte que infatigavelmente enfrentou as dificuldades da vida com coragem e fé. Não é por acaso que são chamados, muitas vezes, de “pioneiros”. Hoje, com os trabalhos já abertos, é difícil de entender o quanto nos deram quando primeiro ajudaram o Mestre Irineu na abertura de sua missão.

Eu afrouxo uma polegada
O povo já vai gritar
Valei-me meu pai eterno
Mestre eu já vou me acabar

Por ser assim independente e bem estruturada, [Maria Damião] foi alvo de muitas intrigas e ciúmes em relação ao Mestre, tecidos principalmente pela esposa do Mestre, na época dona Raimunda Marques. Daí, quando perdeu o marido - que morreu de deficiência pulmonar - atribuiu-se a ela o estigma de mulher doente, mas que na realidade ela era perfeitamente sadia. Trabalhava duro na agricultura e carvoaria, e mandava seus produtos - pelo intermédio do Sr. Manoel Dantas - para o mercado velho no cais da ponte de ferro, que era quem tinha carroça, além do João Pereira.

Dona Adália Gomes foi muito ligada a Laura Vieira, a ponto de fazer parte da “imbicirica” da Maria Damião, que era como os ciumentos chamavam sua prole, pois em todos os trabalhos ela levava todas as crianças.

O Sr. Dantas levava a produção de Maria Damião - mensalmente - e fazia a entrega das encomendas, que eram feitas aos Sábados. Era quando ela ia com dona Cecília para a feira, vender bolos, quitutes e outros produtos de macaxeira, onde se tornou conhecida pela sua humildade. Uma das coisas que prova a áurea divinal desta criatura era o fato de ela nunca ter sido enganada na sua féria, pois por não saber contar dinheiro, se humilhava para os fregueses perguntando se ainda precisava “dar mais troco” e confessava que não sabia contar dinheiro. Com isso o pessoal se apiedava dela e até devolvia o que muitas vezes ela já tinha dado a mais.

Pela aparência de menina, era também o Sr. Dantas quem fazia a estiva para ela; ou seja, recebia o dinheiro das encomendas e trazia querosene, sal, rapadura, jabá etc., pois o arroz, feijão, farinha e leite ela tinha em casa no paiol.
[6]

Em um depoimento colhido pelo por uma junta de pesquisadores, e que me veio às mãos por intermédio de Lou Gold, Luiz Mendes nos conta: Ao longo dessa história do Mestre teve, como tem, os seus altos, mas muitos altos, impressionantes, mas também teve os baixos, é característico da missão, né? Então ele se portava ali como tudo, até como Deus. Era o delegado, era o juiz, tudo era com ele. Aí, em conseqüência disso, se hoje o povo dá trabalho, que é característico também, ele até classificava como “o bicho mais ruim que tinha pra se lutar era com gente”, mas naquele tempo também já existia, já tinha esse povo todo e dava muito trabalho. Muita coisa desagradável. É uma coisa, é um lamento [7].

Tendo também escrito para Débora Gabrich - antiga pesquisadora da doutrina e dirigente feminina do CICLUMIG - recebi um depoimento importante, emocionante até, onde ela nos escreve sobre o respeito mútuo existente entre o Mestre e a Maria Damião.

Dizem que era loura, branca, jovem, bonita e que a antiga esposa do mestre [dona Raimunda] morria de ciúmes dela, ao ponto de não permitir a sua presença nos trabalhos por vários meses. Então o Mestre mandava daime para ela e se encontravam no astral. Isso eu vi o compadre Luiz [Mendes] dizendo [8].

Teófilo Maia cita a morte de Damião Marques, esposo de Maria Damião, no que complementa o livro de Paulo Moreira e Edward MacRae.

No final da década de 1930, Damião Marques de Oliveira, esposo de Maria Francisca Vieira (Maria Damião) adoeceu gravemente de pneumonia, passando cerca de seis meses convalescendo da doença. Mestre Irineu chegou a tratá-lo, mas diz-se que Damião não cumpriu o tratamento e, assim, veio a falecer. Não se sabe com precisão a data de sua morte, sabendo-se somente que ele morreu logo após o nascimento de sua filha caçula, Matilde, no dia 21 de novembro de 1939. Assim, o final da década de 1930 marcou dez anos de trabalho de Mestre Irineu e também a morte de Damião Marques de Oliveira [9].

Sobre a sua pasagem, Maria Damião faleceu após um mal súbito, enquanto trabalhando na caieira, e acredita-se ter sido um derrame.

(...) e ela já correu da caieira com uma forte dor de cabeça, assistida por sua companheira dona Cecília, que dizia “Maria, isso vai passar, eu já preparo um chá...”. Mas ela pediu que chamasse o Mestre Irineu, que veio já do Alto Santo e lhe ministrou o Santo Daime. Então ela pediu, “Mestre, tome conta dos meus filhos”. Ele lhe respondeu apenas: “Maria”. Enquanto isso, dona Cecília a consolava, dizendo, “Isso vai passar logo...”. E ela lhe respondeu, “só Deus, só Deus...”. Foram suas últimas palavras.

Quanto aos trabalhos espirituais, dona Adália Gomes nos diz que Maria Damião deixou um tempo de ir ao Centro, pois sofria muito, e sentia muita tristeza, porque quando ela chegava dona Raimunda Marques, esposa do Mestre, se retirava com ciúmes. Isso deixava o Mestre muito abalado, principalmente quando esse fato aconteceu numa noite de Natal - dona Adália não se lembra de datas, pois disse não ser costume fixar datas naquela época, e sim fases da lua, ou festejos.

Outro fato é que quando ela recebia um hino, por não saber escrever, corria na casa da dona Percília Matos, de quem era grande amiga, para que esta copiasse o hino no seu caderno. Depois vinha cantá-lo para o Mestre.


Quanto à saga de sua prole, após o pedido feito ao Mestre, dona Raimunda teria comentado, “ainda tenho que engolir este caroço!”, ao que o Mestre teria respondido, “a caridade existe é para se fazer”. As crianças mais o sobrinho vieram para o Alto Santo, onde foram tratados muito bem pelo Mestre, e até por dona. Raimunda, que tratou de aprender a lição, mas isto não impedia que de vez em quando alguém não sofresse um corretivo, pois eram bem peraltas. [6]

A respeito da situação da família após a morte de Maria Damião, o livro "Eu venho de Longe", de Paulo Moreira e Edward MacRae, complementa.

Ai, nós fiquemos. Nós ficamos lá na casa. Foi naquele tempo que o Governador era Guiomard dos Santos, e ele disse: "Mestre Irineu tu pega esses meninos e leva lá pra tua casa, porque esses meninos não podem ficar aqui sozinhos não! E tem que aposentar não, como é que chama o Juiz de Menor, ir no Juiz de Menor pra registrar. Tem que registrar com o Juiz de Menor." Eu não queria ir não (Entrevista com Raimundo Damião,em março de 2007).

Com a morte de Maria Damião, seus filhos ficaram órfãos de pai e Eles eram ainda menores de idade, só o mais velho, Raimundo, estava próximo dos dezoito anos. Assim, Raimundo, Laura, Lúcio, Hugo, Waldir, Matilde e Wilson (sobrinho criado por Maria Damião) foram todos encaminhados a morar com Mestre Irineu no Alto Santo.

Posteriormente, Raimundo disse ter ido a contragosto e, segundo alguns relatos, a estada da família de Maria Damião na casa de Mestre Irineu teria sido marcada por relações conflituosas com sua esposa, D. Raimunda. Sobre essa passagem de sua vida, Raimundo comenta:

Passamos a morar lá no Alto Santo... Eu não queria ir não, mas. o Guiomard dos Santos disse: "Não, Irineu, é pra levar, é pra levar, que esses meninos não vão ficar aqui só."
Eu não queria ir não, eu disse: "Eu dou conta dos meus irmãos." Uma que tinha a casa do meu pai, que minha mãe tinha deixado. Imagina (viver) na casa dos outros. Aí, chegou o Mestre Irineu. Mandou justamente até o meu cunhado, o João Belém. Aí, vem o João Belém. Aí, ele veio com duas carroças. Uma semana carregando. Era porco, galinha, tudo, tudo, tudo. A', passamos uns tempos lá. Fomos crescendo. Ainda passamos bem uns nove anos por lá. Ficamos maior, fomos saindo (Raimundo Damião) [9]
.

Indo mais além, é sabido que Laura Vieira se casou com o filho de Manoel Belém, conhecido como “Tronquinho”, e nessa união os irmãos de Laura Vieira acompanham o novo casal. Tempos depois, nos idos de 1950, Manoel Belém deixa os trabalhos de Irineu Serra, e com isso o acompanha seu filho, Tronquinho, a esposa Laura Vieira e os irmãos desta. Anos depois Laura Vieira se separa de Tronquinho. Apesar dos acontecimentos, dona Matilde, irmã ainda viva de Laura Vieira, permanece ainda hoje no mesmo local. Também ainda estão vivos os irmãos Raimundo e Valdir.

A referencia que se faz hoje a Maria Damião, é de reconhecimento de seu valor, por toda irmandade, e até existe um comentário por parte dos Sr. José das Neves que reconheceu a Maria como a discípula que mais aprendeu dentre todos, e olhe que o senhor Neves, foi e é no espiritual o Mestre Conselheiro, e está sepultado à esquerda do Mestre Irineu.


Dentro de todos os centros, no Alto Santo e fora, o hinário de Maria Damião é cantado principalmente nos trabalhos de cura, pois é considerado assim como os outros: Germano, Antonio Gomes, João Pereira,(...) mensagens do Mestre as quais teriam vindo através deste aparelho tão delicado. Além dos trabalhos de cura, é o hinário predileto para o encerramento dos trabalhos de feitio em muitos centros, juntamente com o hinário do João Pedro.

Então, Maria Damião confirmou com sua presença tudo que já tinha sido ensinado, tanto é que recebeu o hino “Despedida” em perfeito gozo de saúde, e trabalhando mostrou-se assim que sua missão tornou-se efêmera - ela precisava partir. Fato este que está no comentário geral de que ao receber o hino, e levá-lo para ser anotado no caderno, ouviu talvez de dona Percília, “Ave Maria, o que é isto, estou toda arrepiada...” isto dias antes do seu acidente vascular. Não há notícia de nenhum comentário do Mestre Irineu a respeito desse hino, nem mesmo se sabe se foi apresentado a ele como os restantes. [6]

Portanto, aqui fica entregue essa pequena homenagem àquela que sempre foi uma fortaleza da doutrina: um dos quatro conhecidos “Companheiros” do Mestre e que, junto com este, Germano Guilherme, Antônio Gomes e João Pereira formam o ABC desta doutrina.

A tua casinha está pronta
Caminhos abertos
Jardim de flores
A ti te oferecem

Jesus Cristo salvador
E a rainha da floresta
Se vós ver que eu mereço
Receba ó mãe honesta

Nas minhas ouças escutei
Um grande festejo
Os meus irmãos chegando
E o meu corpo se liqüidando

Corrigi meu pensamento
Pedi perdão a meu pai
Para eu poder seguir
A minha feliz viagem

O mestre que me ensina
Vós é a minha guia
Vós me entregue ao divino
E a sempre virgem Maria

 

Alto Santo

***

[1] Rodrigo Borges Conti Tavares é formado em Comunicação Visual pela UFRJ, sendo o idealizador e mantenedor do site A Família Juramidam, no qual se dedica aos estudos da doutrina, em especial as raízes.

[2] Eduardo Bayer é escritor, vídeo-documentarista, engenheiro florestal. É também funcionário da Fundação Elias Mansour, do Estado do Acre, e idealizador do Projeto Museu Virtual da Ayahuasca - da qual a cybermagazine A Arca da União é parte integrante.

[3] José Francisco das Neves Junior, do depoimento de Sebastião Jaccoud, publicado no site mestreirineu.org.

[4] Depoimento de Jairo da Silva Carioca,
publicado no site mestreirineu.org.

[5] Luiz Carlos de Carvalho Teixeira de Freitas é jornalista, psicólogo e escritor. Estudioso de psicologia junguiana e transpessoal e de religiões comparadas. Fundador e Conselheiro da Associação Beneficente Santo Antonio de Pádua, entidade mantenedora da Casa de Oração Sete Estrelas, em Cotia, Estado de São Paulo.

[6] Teófilo Maia é fardado morador do Céu do Mapiá, tendo feito seu depoimento enquanto no Acre, Alto Santo, freqüentando o centro de dona Valdirene, filha de Paulo Serra (filho adotivo do Mestre).

[7] Entrevista gravada com o Sr. Luiz Mendes do Nascimento no dia 08 de janeiro de 2007, em sua casa na Fortaleza, Município de Capixaba (Acre), durante o VI Encontro para o Novo Horizonte. Esta entrevista é patrimônio do Centro Eclético da Flor do Lótus Iluminado (CEFLI), e cujo uso para qualquer fim deve ser autorizado e ter a fonte citada.

[8] Débora de Carvalho Pereira Gabrich é dirigente feminina do Centro de Iluminação Cristão Luz Universal de Minas Gerais – CICLUMIG. É mestranda em Extensão Rural na Universidade Federal de Viçosa e membro-fundador do Núcleo de Estudos Pró Amazônia da UFV. Desde 1996 realiza pesquisa no Acre sobre a tradição cultural e religiosa do Santo Daime, especificamente nos centros da linhagem denominada Alto Santo, cujo ritual é adotado no CICLUMIG.

[9] Do livro "Eu Venho de Longe - Mestre Irineu e Seus Companheiros", de Paulo Moreira e Edward MacRae / EDUFBA, Salvador, Bahia - 2011