A vida de Maria Marques Vieira
Por Rodrigo Borges Conti Tavares [1].
 

 

A Família Juramidam, 13 de abril de 2009.

Quando primeiro me propus a escrever sobre Maria Damião, um ícone da doutrina e detentora de um hinário por todos venerado, eu achei que seria uma tarefa difícil, impossível até. Mas é com calma e humildade que me presto a esse serviço, por força da necessidade e por achar que é necessário à doutrina.

Porque as dúvidas sempre estiveram presentes em relação à Maria Marques Vieira, essa pessoa que para mim, no passado, estava sempre envolta em um manto de obscurantismo e mistério. Uma contradição ao cantar seu hinário e ler e ouvir o que tinha para ser dito sobre ela.

Talvez a frase mais citada entre todas fosse a de que era uma irmã doente e desvalida, tendo vivido em dificuldades e muitas vezes desamparada pela própria comunidade; fato este que confirmavam citando o hino O GLOBO, que nos diz, entre outras palavras, “Eu vivo nesta irmandade / como uma irmã desvalida...”.

Sou filho da minha mãe
E ela abraça os que me acompanham
Eu digo é com firmeza
Que a minha mãe não me abandona

Nos últimos anos tenho planejado sem sucesso uma viagem ao Acre, especialmente para conversar com os mais antigos e buscar informações sobre o Mestre e também dos Companheiros (Germano Guilherme, Antônio Gomes, João Pereira e Maria Damião). Entristece-me o fato que desses pioneiros, cujos hinários foram oficializados pelo próprio Mestre como sendo os hinários oficiais da doutrina (junto com o dele próprio), pouco se sabe ou pouco se escreveu. Na ausência de condições de fazer esta viagem estou me valendo da boa vontade daqueles que têm acesso a informações que nós não temos, me propondo a escrever uma série sobre os quatro Companheiros do Mestre, a começar por Maria Damião. Acontece que a irmandade nunca falha, e aos poucos fui recolhendo material e apoio suficiente para levar esse projeto adiante.

A história deste texto que escrevo começa há alguns meses, quando Teófilo Maia me escreve um e-mail com algumas dúvidas sobre uma famosa foto da doutrina - da irmandade reunida na Vila Ivonete - divulgada pelo Eduardo Bayer. Teófilo pensou que a moça de farda branca na foto pudesse ser Maria Damião, pelo seu aspecto franzino, pequeno. Também sabia que a menina ao lado, de farda azul, era Laura Vieira, filha de Maria Damião. Isso por si só dava algo para se pensar, pois ainda não se conhece uma foto onde ela está presente. Mais adiante, lendo as palavras do Eduardo Bayer sobre o estado de abandono de alguns familiares da doutrina, este desejo de encontrar uma foto da Maria Damião se tornou efêmero, infantil até, da minha parte. Como ele mesmo coloca,



Do que anteriormente se sabe, Maria Marques Vieira nasceu em Belém do Pará, no dia 4 de novembro de 1910* e, ainda muito jovem, transferiu-se com sua família para Rio Branco - Acre, onde no ano de 1931 veio a conhecer o Mestre Raimundo Irineu Serra. Maria Damião, como passou a ser conhecida - devido ao nome de seu esposo -, era de baixa estatura, branca e loura. Casou-se, teve sete filhos (um sobrinho adotivo) e perdeu o marido logo em seguida.

*Segundo pesquisa feita por Mivan Gedeon, onde a data está afixada no túmulo de Maria Damião.

Segundo José Francisco das Neves Junior, o Conselheiro Zé das Neves,


Jairo da Silva Carioca também diz:



Do recente livro publicado, "Eu Venho de Longe", de Paulo Moreira e Edward MacRae, ficamos sabendo um pouco mais sobre sua vida e seus filhos.



Maria Damião veio a falecer no dia 2 de abril de 1949, com a idade de 38 anos. Após seu falecimento, o hinário “O Mensageiro” passou a ser carinhosamente zelado por Percília Matos, gerente geral dos hinários. Luiz Carlos Teixeira de Freitas nos diz,



Voltando a correspondência com Teófilo Maia, este estando naquele momento no Alto Santo - conversando com dona Adália, dona Cecília (conhecida como Vó Preta), Paulo Serra (filho adotivo do Mestre), seu Fred (um velhinho que encontrou no mercado dos colonos), Valdirene (filha de Paulo Serra e neta do Mestre) e seu esposo Carlinhos e outros - as informações foram aparecendo. A pessoa em questão na foto era dona Bibi, irmã de dona Percíla Matos. A menina ao lado de Laura Vieira era a própria dona Adália Gomes, sendo muito próxima da família Damião. Nessa sua busca dona Adália até mesmo reconheceu Damião Marques, esposo de Maria Damião. Dona Cecília afirma que Maria Damião estava presente na ocasião desta foto, apesar de não aparecer nela.

Mestre e os primeiros seguidores, ainda na Vila Ivonete.

Sobe sua vida, sua condição, e sua rotina, Teófilo nos diz assim,

Papai do Céu do Coração
Que hoje neste dia
Foi quem deu o nosso pão
Graças à mamãe

Mamãe do Céu do coração
Que hoje neste dia
Foi quem deu o nosso pão
Louvado Seja Deus



Sobre o aspecto de desvalida, ao qual muitos se referem, Luiz Carlos Teixeira de Freitas nos explica um pouco da realidade existente na doutrina nas décadas após o assentamento dos primeiros seguidores.

Para aqueles que conhecem seu hinário, é um fato que para muitos ele se tornou um símbolo de justiça e reconhecimento da luta do homem na terra. Não podemos também desconsiderar que a memória dos primeiros seguidores é muitas vezes preenchida pelo espírito dos nordestinos, povo forte que infatigavelmente enfrentou as dificuldades da vida com coragem e fé. Não é por acaso que são chamados, muitas vezes, de “pioneiros”. Hoje, com os trabalhos já abertos, é difícil de entender o quanto nos deram quando primeiro ajudaram o Mestre Irineu na abertura de sua missão.

Eu afrouxo uma polegada
O povo já vai gritar
Valei-me meu pai eterno
Mestre eu já vou me acabar

Por ser assim independente e bem estruturada,

Em um depoimento colhido pelo por uma junta de pesquisadores, e que me veio às mãos por intermédio de Lou Gold, Luiz Mendes nos conta:

Tendo também escrito para Débora Gabrich - antiga pesquisadora da doutrina e dirigente feminina do CICLUMIG - recebi um depoimento importante, emocionante até, onde ela nos escreve sobre o respeito mútuo existente entre o Mestre e a Maria Damião.

Teófilo Maia cita a morte de Damião Marques, esposo de Maria Damião, no que complementa o livro de Paulo Moreira e Edward MacRae.


Sobre a sua pasagem, Maria Damião faleceu após um mal súbito, enquanto trabalhando na caieira, e acredita-se ter sido um derrame.

Portanto, aqui fica entregue essa pequena homenagem àquela que sempre foi uma fortaleza da doutrina: um dos quatro conhecidos "Companheiros" do Mestre e que, junto com este, Germano Guilherme, Antônio Gomes e João Pereira formam o ABC desta doutrina.

A tua casinha está pronta
Caminhos abertos
Jardim de flores
A ti te oferecem

Jesus Cristo salvador
E a rainha da floresta
Se vós ver que eu mereço
Receba ó mãe honesta

Nas minhas ouças escutei
Um grande festejo
Os meus irmãos chegando
E o meu corpo se liqüidando

Corrigi meu pensamento
Pedi perdão a meu pai
Para eu poder seguir
A minha feliz viagem

O mestre que me ensina
Vós é a minha guia
Vós me entregue ao divino
E a sempre virgem Maria

 

Alto Santo

***

[1] Rodrigo Borges Conti Tavares é formado em Comunicação Visual pela UFRJ, sendo o idealizador e mantenedor do site A Família Juramidam, no qual se dedica aos estudos da doutrina, em especial as raízes.

[2] Eduardo Bayer é escritor, vídeo-documentarista, engenheiro florestal. É também funcionário da Fundação Elias Mansour, do Estado do Acre, e idealizador do Projeto Museu Virtual da Ayahuasca - da qual a cybermagazine A Arca da União é parte integrante.

[3] José Francisco das Neves Junior, do depoimento de Sebastião Jaccoud, publicado no site mestreirineu.org.

[4] Depoimento de Jairo da Silva Carioca,
publicado no site mestreirineu.org.

[5] Luiz Carlos de Carvalho Teixeira de Freitas é jornalista, psicólogo e escritor. Estudioso de psicologia junguiana e transpessoal e de religiões comparadas. Fundador e Conselheiro da Associação Beneficente Santo Antonio de Pádua, entidade mantenedora da Casa de Oração Sete Estrelas, em Cotia, Estado de São Paulo.

[6] Teófilo Maia é fardado morador do Céu do Mapiá, tendo feito seu depoimento enquanto no Acre, Alto Santo, freqüentando o centro de dona Valdirene, filha de Paulo Serra (filho adotivo do Mestre).

[7] Entrevista gravada com o Sr. Luiz Mendes do Nascimento no dia 08 de janeiro de 2007, em sua casa na Fortaleza, Município de Capixaba (Acre), durante o VI Encontro para o Novo Horizonte. Esta entrevista é patrimônio do Centro Eclético da Flor do Lótus Iluminado (CEFLI), e cujo uso para qualquer fim deve ser autorizado e ter a fonte citada.

[8] Débora de Carvalho Pereira Gabrich é dirigente feminina do Centro de Iluminação Cristão Luz Universal de Minas Gerais – CICLUMIG. É mestranda em Extensão Rural na Universidade Federal de Viçosa e membro-fundador do Núcleo de Estudos Pró Amazônia da UFV. Desde 1996 realiza pesquisa no Acre sobre a tradição cultural e religiosa do Santo Daime, especificamente nos centros da linhagem denominada Alto Santo, cujo ritual é adotado no CICLUMIG.

[9] Do livro "Eu Venho de Longe - Mestre Irineu e Seus Companheiros", de Paulo Moreira e Edward MacRae / EDUFBA, Salvador, Bahia - 2011