Percília Matos da Silva
Taio Ciris Midam

Percília Matos da Silva

(texto editado do site www.hinarios.blogspot.com)

Percília Matos da Silva, zeladora da obra do Mestre Irineu e gerente-geral dos hinários de sua Doutrina, começou a tomar Daime ainda muito criança. Ao ficar órfã de pai ainda menina, veio morar como filha do Mestre em sua casa. Como ela atesta, anos depois, sobre seu último momento com o grande lider “Aí eu tomei a bênção e ele fez uma recomendação como nunca tinha feito antes. Não entendi nada. Eu o vi tão alegre que não suspeitei de coisa alguma. Ele me recomendou que eu fosse muito feliz. Saí tranqüila e satisfeita. Ele era como meu pai, pois foi quem me criou”. Percília Estudou, formou-se professora e casou-se com Raimundo Gomes nos anos 40. O casamento não deu certo, e ela voltou a morar na casa do Mestre até que encontrou um novo companheiro na pessoa do Senhor Pedro.

Como responsável que foi em dar forma escrita aos hinos formadores da Doutrina, ela se tornou a gerente-geral dos hinários, e assim tinha o encargo de passar a limpo os hinos recebidos, ou seja, corrigi-los. A própria Dona Percília se auto-questionava quanto aos seus hinos, como demonstra esse trecho de entrevista de Clodomir Monteiro com ela, a respeito do hino que a apresenta como Taio Ciris Midam:

Clodomir - Este hino a senhora recebeu dentro da miração?
Percília - Dentro da miração...eu estava com uma febre neste dia!...
Clodomir - E foi uma entidade que dizia para a senhora isto?
Percília - Eu ouvi, não vi, eu ouvi a música....e quando eu dei de mim eu já estava cantando.
Clodomir - Que a sra. era realmente esta entidade...
Percília - É...Taio Ciris Midam...
Clodomir - E todos no Alto Santo reconhecem que a senhora é realmente Ciris Midam...
Pedro - Pois o próprio Mestre registrou... passou a limpo o hino... seu Eu superior...
Percília - Sim, o meu Eu superior...então quer dizer que eu sou da mesma família...de Midam...né ? Clodomir - Tá ligado a outra metade dele...
Percília - É...é isso aí.
Clodomir - É isso aí, um é Jura, outra é Midam, o masculino e o feminino...
Percília -Foi passado a limpo com o Mestre...

Após o falecimento do Mestre, apoiou o Padrinho Sebastião quando da criação do Cefluris, e realizou naquela igreja modificações do fardamento (gravatas azuis e sapatos brancos para a farda masculina) que antes o Mestre manifestara vontade de fazer. Três anos depois ela deixou o Cefluris, juntamente com Daniel Serra, Luiz Mendes e outros, que não aceitaram outras modificações rituais. Apesar de eventualmente participar, seja na igreja do Padrinho Tetéo, seja no Pronto-Socorro do Senhor Raimundo Lorêdo, nunca voltou a ocupar a condução dos trabalhos como antes. Foi em uma rara oportunidade que a presenciei na igreja do Senhor Luiz Mendes acompanhando um trabalho de 6 de julho onde o hinário do Mestre foi cantado sem bailado, integralmente (todos os hinos, mesmo os especiais), na mesma formação de filas em pé na velação do ataúde que foi feita em 1971. Ela declarava o que sabia e o que pensava com toda sua veemência.

“Ninguém pense que aprendeu. Quem quiser aprender, se dedique ao Daime. Se prepare e tome. Não vou dizer que todos possam alcançar porque "nem todos estão na graça", como diz aquele hino do Seu Sebastião Mota”.

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Abaixo partes do depoimento de Percília Matos da Silva, também disponível na íntegra no site www.mestreirineu.org

“O cargo que eu tinha, dado pelas mãos do Mestre, era de comandante-geral da ala feminina e gerente-geral do hinário. Eu regia todo hinário. Quando a ala masculina não estava muito certa eu chamava o zelador. Tudo era comigo. Até hoje esse cargo de comandante-geral está em minhas mãos. Ele não tirou não. Tudo que chegava lá na colônia passava por minhas mãos. O Mestre me tinha muita estima, todos os hinos que ele recebia passavam por mim. Ele dizia: "Se não está certo pode meter o terçado". Mas eu nunca fiz isso. Ele mesmo tomava Daime e ia corrigir.

Comecei a freqüentar quando meu pai conheceu o Mestre em 1934. Eu tinha oito para nove anos. Com o Mestre estavam apenas uma meia dúzia de pessoas: José das Neves, Zé Afrânio, João Pereira, o chamado Zé Capanga, Maria Damião e Germano Guilherme. Depois é que chegou o Antônio Gomes. Papai morreu três anos depois, em 1937. Eu era a mais velha de todos os meus irmãos. Duas semanas depois do falecimento de meu pai o Mestre disse que ele tinha lhe aparecido cinco vezes numa miração. Meu pai dizia:

- Mestre, eu ando, ando neste mundo de meu Deus, vejo tantas maravilhas, tanta coisa bonita que eu não esperava que existisse, mas quando me lembro do senhor, eu tento visitar o senhor.
Assim ele veio cinco vezes. Até que o Mestre perguntou:
- Ribeiro, o que você deseja de mim? Pode dizer.
- Mestre, eu quero que o senhor tenha mais paciência com a minha família, do que o senhor teve comigo.
O Mestre disse:
- Tá feito! Não se preocupe, siga sua viagem. E recomendou o espírito dele.

A gente morava, nessa época, na Vila Ivonete - bem pertinho do Mestre. Ainda não havia um centro. Os trabalhos eram realizados na casa do Mestre com aquele grupinho. Então, ele ficou dando assistência para a gente. A minha mãe, coitada, não tinha direção, era analfabeta e não sabia mexer com dinheiro. Eu mesma é que tinha um pouco mais de conhecimento e fazia as compras de casa. Nessa época, com onze anos, já costurava. Comecei costurando apenas para mulheres, depois para todo mundo.

Ele sempre me chamou de Dona Percília, desde pequena. Um dia papai perguntou para ele: "Mas por que o senhor chama uma criança dessas de dona?" Ele respondeu: "Eu chamo para me acostumar, porque quando ela casar, eu não sei se o marido dela vai gostar se eu chamar ela de Percília."

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