Peregrina Gomes Serra
Madrinha "Piu", por Eduardo Bayer Neto (1)
 

 

Nota: devido a revista virtual "Arca da união" ter saído do ar, o relativo texto estará a disposição no site A Família Juramidam até que ele seja disponibilizado em pdf pela própria equipe da Arca.

_______________________________

Dona Peregrina e Raimundo Irineu SerraTenho em mãos a cópia de sua certidão de casamento civil que ela própria me ofertou, uma vez em que eu estava a querer fotografar os documentos do Mestre Irineu, dizendo que talvez eu um dia fosse precisar. Lá está que em Rio Branco, Acre, no dia 15 de setembro de 1956, tendo como testemunhas o casal Raimundo Estácio Neves e Erecina Amaral Neves, casaram-se Raymundo Irineu Serra (com ípsilon) e Perigrina Gomes do Nascimento (com i), ela sendo nascida a 14 de julho de 1936, naquela mesma cidade, filha de Sebastião Gonçalves do Nascimento e Zulmira Gomes do Nascimento, residentes na Colônia Alberto Torres.

A diferença de idade entre os nubentes era de mais de meio século, sendo ela então uma jovem de apenas vinte anos, que neste ano de 2006 comemorará os seus setenta anos de idade com renovado vigor e beleza, bem como os cinqüenta anos já de suas núpcias com aquele que seria conhecido como o Mestre-Imperador da Doutrina do “Santo Dai-me”.

Homenagear a Madrinha Peregrina não é tarefa das mais fáceis, por muito capricho que sei que dela serei cobrado nesse afã, mas é das mais necessárias e agradáveis para mim que tive o privilégio de receber sua amizade. Ela, que chegou à Doutrina nos braços de sua mãe nos seus primeiros anos de vida, quando a família de Antônio Gomes, seu avô, integrou-se à Doutrina fundada pelo Mestre Irineu, é ainda hoje um dos baluartes mais íntegros e entretanto uma das pessoas mais humildes dentre seus seguidores.

Fibra de cearense, rija e esforçada, viveu sua juventude como agricultora, na lavoura assim como toda sua família, e talvez por isso no recato do seu lar tenha querido na maturidade colecionar bonecas, como uma vontade de infância que só mais tarde pode ser atendida. E para quem imagina que ela por não ter tido filhos de seu próprio ventre é “pouco mãe”, é porque não conhecem as crianças todas de sua família que ela protegeu nem seus filhos adotivos a quem dedicou-se com extremado carinho.

A história de como se deu o casamento do Mestre com Dona Peregrina é narrada por Jairo da Silva Carioca (2):

“Após três anos separado, em 1956, Mestre Irineu começou a preparação para um novo casamento. Dessa vez, seguindo as orientações de sua professora espiritual Clara, teve mais cautela na escolha de sua nova companheira. Na verdade, com 64 anos de idade, sabia que deveria escolher para sua companhia aquela que seria herdeira de toda a sua fortaleza de ensinamentos.

Desta forma, realizou os primeiros contatos com dona Zulmira Gomes, mãe de Peregrina Gomes, uma moça que na plenitude de sua juventude, se despontava como a pessoa ideal para o grande Mestre. "Foram meses de observação até ele ter a primeira conversa com dona Zulmira", relata dona Percília Matos.

Após receber a aceitação da família através de dona Zulmira Gomes, que agiu como uma intermediadora, Mestre Irineu buscou o consentimento da noiva que tinha apenas 17 anos. "Ele me perguntou se eu aceitava casar com ele e eu disse que sim. Se fosse de acordo com minha família", relata madrinha Peregrina. E assim aconteceu. Após os acertos e a preparação dos documentos, foi marcada a data de 15 de setembro do mesmo ano para a grande festa. "Eu me encontrei com ele duas ou três vezes antes do casamento", contou-me madrinha Peregrina. A irmandade foi convidada para três dias de intensas festividades, era o enlace matrimonial do Mestre. No dia 15 de setembro, após a cerimônia religiosa e civil, o casal recepcionou a irmandade no Alto Santo. Música, dança e muita comida marcaram a data inesquecível. Doravante, Peregrina Gomes passava a assinar com o sobrenome Serra. Estava unificado o amor divino que unia o casal. Mestre Irineu estava consciente de que a partir dali, começava a preparar aquela que seria a herdeira de seus ensinamentos”.

Após o falecimento do Mestre em 1971, Madrinha Peregrina tinha apenas trinta e cinco anos e continuou em segundo plano na vida do CICLU presidido por seu tio Leôncio Gomes, por ser considerada ainda “muito jovem”. Não faltaram aqueles que pretenderam casar-se com a viúva do Mestre para assim chegar ao comando do Centro, pois sempre a ambição pelo poder é uma das tentações mais fáceis de serem alimentadas, e a juventude e garbo da jovem Madrinha também serviam como argumento para os mais sugestionáveis.

De certa forma isso motivou sua mãe, a Madrinha Zulmira, a colocá-la numa redoma fazendo dela ainda mais notavelmente uma figura simbólica em representação da Rainha da Floresta nos rituais do Santo Dai-me.

Quando seu tio Leôncio faleceu, a família Gomes se levantaria para defenestrar o comando que passava a ser exercido por Francisco Fernando Filho, o Tetéu, o que modificaria definitivamente a vida na Colônia do Alto Santo, hoje bairro Irineu Serra, com o surgimento da primeira das igrejas dissidentes na mesma vizinhança, a qual se arvoraria sobre a posse da documentação original do centro: assim o CICLU passou a ser a sede erguida por Tetéo e seus companheiros, enquanto a antiga sede ficaria sem documentação. A questão na justiça foi perdida, e a Madrinha Peregrina para pagar seus advogados teve que arcar também com a perda de grande parte de seu patrimônio em terras herdadas do Mestre. Muito mais tarde é que a sede da Madrinha recebeu outro estatuto, como CICLU-ALTO SANTO, e tal querela apenas muito recentemente foi desfeita com a devolução da antiga documentação do CICLU para quem de fato pertencia.

Hoje, quando a visito na varanda de sua casa, vejo o olhar da Madrinha perder-se em direção do oriente enquanto ela diz: “O senhor não sabe o que é que tem acontecido com essa gente, não... Está tudo muito diferente. O pessoal antigo já está todo se acabando... E os que saíram daqui, não foi porque ninguém mandou sair não, eles saíram porque quiseram. E aqui tem o hino que diz: SAINDO DESSA LINHA NÃO ESPERE SER CHAMADO... Não sou eu que vou chamar ninguém a voltar, cada qual que se arranje com os seus feitos e os seus malfeitos...”.

Daí eu sinto pena de ver que o progresso chegou à Colônia mas com ele acabou-se o sossego, acabou-se o modo de vida dos tempos do Mestre, a paz de espírito, e até mesmo as sessões de concentração tem que ter trilha sonora pois já não existe silêncio na noite do arrabalde. E pensar que eu ainda tive a felicidade de em 1994 participar da minha primeira concentração na antiga sede com apenas a luz de velas (pois faltou energia e já não havia motor a óleo) e um imenso silêncio conectando muitas dimensões de tempo em que aquele mesmo trabalho foi feito desde os tempos do Mestre Irineu em vida entre os seus seguidores fiéis.

Para quem considera que a Doutrina fundada pelo Mestre Irineu naquele espaço sagrado de oração não teria pertinência ou relevância cultural não fosse a continuidade proporcionada por Sebastião Mota de Melo e o Centro Eclético da Fluente Luz Universal, e considera que a Madrinha Peregrina possui uma mentalidade retrógrada por não escancarar as porteiras do Centro do qual ela é Dignitária para todos os que queiram conhecer o “Santo Dai-me”, é bom esclarecer que tudo o que ela e os fardados de seu Centro a ela obedientes fazem é cumprirem à risca algo que foi pedido, e mais que pedido, determinado pelo Mestre a eles. Primeiro: se o Mestre Irineu tivesse predicado a eles que cuidassem da expansão doutrinária, estabelecendo filiais em outras cidades e regiões com o propósito de fazer do culto do “Santo Dai-me” uma nova religião, eles o teriam atendido, até porque já se formava na época um núcleo em Rondônia. Segundo: se o Mestre Irineu tivesse predicado a eles um trabalho de incorporação espírita e desenvolvimento da mediunidade visível, eles teriam se dedicado a essa linha, pois sempre esteve claro que o trabalho com o “Santo Dai-me” era um trabalho com a doutrina reencarnacionista. Terceiro: se o Mestre Irineu tivesse por acaso predicado a eles que usassem a “Cannabis” como planta sagrada, eles sem temor teriam sido obedientes a essa instrução, pois com igual confiança aprenderam a usar a ayahuasca como comunhão ritual. Entretanto o Mestre Irineu não os incumbiu de nenhuma dessas atribuições, ou melhor ainda, os proibiu de o fazerem. Nada mais lógico, portanto, que aqueles que permaneceram em seus lugares há mais de trinta anos não tenham a menor disposição a modificarem seu padrão ritual ou mesmo de colaborarem com a propagação de cópias desfiguradas do mesmo em razão de se atender a interesses pessoais de engrandecimento ou hegemonia.

Autêntica e abnegada, o exemplo dado pela Madrinha Peregrina ao longo de cinqüenta anos como Senhora Peregrina Gomes Serra é exatamente o de ser mantenedora da perseverança e da firmeza predicadas pelos ensinos do saudoso Mestre Irineu. Sua única atitude com relação aos que abandonaram seus lugares na sede para seguirem o caminho que mais lhes apeteceu é a de estranheza, e jamais a de perseguição, boicote ou maldição. Madrinha Peregrina é da bandeira branca, não a da rendição às modernizações forçosas ou às manipulações de egrégoras, e sim a bandeira branca da espada da Paz, onde só é aceito quem aceita as regras de conduta da sua casa, não as que ela instituiu, e sim as que foram deixadas por aquele que há tanto tempo se foi mas continua sendo o dono dela, o Senhor Raymundo Irineu Serra.

Sobre a expansão doutrinária, ela lembra que o Dai-me (e portanto o Mestre) é para todos mas nem todos são para ele, que é proibido se convidar quem quer que seja a participar do seu culto e portanto não pode existir proselitismos. Sobre os trabalhos ecléticos de incorporação com a bebida, diz que aqueles que os reivindicam deveriam deixar de usar o fardamento instituído pelo Mestre e estabelecer um fardamento e uma forma ritual totalmente novos, deixando de caracterizar-se como seguidores do Mestre Irineu se este jamais (embora estivesse no seu alcance fazê-lo) instruiu esse tipo de ritual, e sim o de atuar dentro do invisível, em projeção astral para o atendimento dos mais necessitados.

Sobre a “Cannabis”, diz que se essa planta tivesse em si mesma uma Doutrina, deveriam criar sua religião só em cima desse uso, deixando a comunhão da ayahuasca (e o bom nome do “Santo Dai-me”) a salvo de confusões, e se não o fazem é porque talvez queiram pretensiosamente reconfigurar a Doutrina fundada pelo Mestre em nome de algo que eles próprios não possuem sequer controle. Entende que muitos chegaram a conhecer os hinários e o trabalho ritual através dessas instituições espalhadas hoje pelo resto do Brasil e do mundo graças à iniciativa sacrificosa de Sebastião Mota, o Padrinho Sebastião, de exercer assim suas obras de caridade. Mas sabe com toda a certeza que seu pequeno centro não poderia jamais querer arcar com as conseqüências da administração de tal expansão "desregrada", e busca assim acima de tudo preservar a identidade de sua casa como “Centro Livre”, uma instituição sem filiais que se dedica a cultivar a Doutrina deixada por seu fundador através da tradição e da obediência.

“Quem quiser correr que corra, quem quiser pular que salte”... Na antiga sede do Mestre, os hinários seguem sendo celebrados com muita harmonia, maracás batidos na mão, os bailados desenvolvendo-se com elegância marcial, sob os cuidados de uma equipe de músicos exemplar, sem cadernos na mão e apenas com participantes fardados e uniformados.

Quando é necessário, a Madrinha Peregrina inova sim, ou atende à necessidade de inovação, pois ninguém pode ser rígido se não souber também ser flexível quando a situação se apresenta. Muitos dos que de lá saíram, quando um dia quiseram voltar, foram aceitos. Muitos dos que vieram de outros centros, fardados por outros dirigentes sequer reconhecidos como tais por ela, o dia em que pediram acolhida e disseram desejar ser obedientes às regras da casa foram recebidos de braços abertos, com suas mesmas fardas surradas, como eu próprio um dia. Outros, como Wilson Carneiro, apesar de haverem optado por seus próprios caminhos, ainda assim foram recebidos com dignidade quando quiseram ir lá como visitantes, e beijaram-lhe a mão em sinal de reverência chamando-a de “minha Madrinha”...

Ela a todos recebe como mãe, pois sabe que está lá porque o Mestre a quis deixar como sua representante e como a dona do seu lar. Espera é que não levem a ela problemas, e sim soluções, pois cada qual tem que dar conta de seu recado e “apresentar serviço”. Por tudo isso, neste ano de 2006, nossa primeira homenagem é dedicada a ela, Senhora Peregrina Gomes Serra, a Dignitária do Centro de Iluminação Cristã Luz Universal, a quem o Mestre carinhosamente chamava “Píu” como se presenciasse nela uma avezinha da “corte celestial”. Deus abençoe a Madrinha Peregrina, agora e sempre, com muita Paz e Saúde, para ela e para todos que a reconhecem e a querem bem!

Notas:(1) Escritor, vídeo-documentarista e engenheiro florestal, Eduardo Bayer Neto é também funcionário da Fundação Cultural do Estado do Acre e idealizador do projeto Museu Virtual da Ayahuasca - da qual a revista Arca da União é parte integrante.
(2) Ler o texto completo em http://www.mestreirineu.org/jairo.htm

***