Madrinha Rita: 80 anos
por Francisco Nóbrega (1)
 

 

Nota: devido a revista virtual "Arca da união" ter saído do ar, o relativo texto estará a disposição no site A Família Juramidam até que ele seja disponibilizado em pdf pela própria equipe da Arca.

Madrinha RitaRita Gregório de Mello, viúva de Sebastião Mota de Mello, fundador do CEFLURIS (Centro Eclético de Fluente Luz Universal Raimundo Irineu Serra), comemora neste mês de junho de 2005 seus oitenta anos.

Hoje conhecida e respeitada mundo afora, por muito tempo ela foi apenas a “Rita do Mota”, uma humilde fardada do Mestre Irineu que nunca buscou destacar-se como liderança feminina, mesmo quando seu esposo tornou-se um Padrinho dirigente de seu próprio centro, ou quando mais tarde em Mauá, no Estado do Rio de Janeiro, foi homenageada por Alex Polari de Alverga e seu grupo do “Céu da Montanha” ao dar nome ao CEFLURG – Centro Eclético da Fluente Luz Universal Rita Gregório. Discreta portadora de um hinário que completou com 25 hinos, a Madrinha Rita, que hoje é a representante máxima de todo um batalhão feminino da bem louvada Rainha da Floresta, apenas passou a exercer um cargo na presidência do CEFLURIS após ter ficado viúva, enquanto representante de um legado espiritual herdado de seu saudoso esposo e mantido através dos filhos dessa união. Em homenagem a esta adorável matriarca dos seringais amazônicos, apresentamos aqui um pouco de suas origens nordestinas e sua trajetória de vida. 

Das suas origens na Várzea do Açu norte-rio-grandense

Madrinha Rita Gregório nasceu em 25 de junho de 1925, filha de Idalino Gregório e Maria Francisca das Chagas, num sítio da Várzea do Açu, no Estado do Rio Grande do Norte. Lá também nasceram os seus irmãos Francisco Gregório, Joana, Manuel, Luísa, Teresa, Júlia e João Batista. Entre os anos 20 e 40 do séc.XX, esses Antunes Gregório moravam numa propriedade dos Camilos, donos da famosa Fazenda Alemão na Várzea do Açu. Igual a grande maioria dos nordestinos desse tempo, eles não tinham terra própria, nem gado, nem destaque de vaqueiro.

A Várzea do Açu é hoje muito diferente do tempo em que nasceu e cresceu a família de Rita Gregório, na primeira metade do séc. XX. Naquele tempo não havia a barragem no Rio Açu, uma das maiores do Nordeste brasileiro, inaugurada em 1983, no último governo militar, onde hoje se desenvolve a agroindústria frutífera de exportação, a indústria cerâmica (telha e tijolo), ambas com grande impacto ambiental e menos no desenvolvimento social. Além disso, assim como a Várzea do Açu, o território norte-rio-grandense se tornou uma das maiores bases de extração petrolífera continental da Petrobrás.

Mas o Rio Açu, antes da inauguração da barragem, não era só bonança de fertilidade de solo. Provocava enchentes, destruições, inundando lavouras, afugentando as populações ribeirinhas, rebanhos, soterrando povoados. Em meados dos anos 20, quando nasceu Rita Gregório, a pecuária bovina ainda tinha forte presença naquela várzea. Os ricos fazendeiros e vaqueiros eram os personagens varzeanos mais destacados.

A carnaúba (Copernica cerífera, Mart.) também tinha grande importância econômica nesse tempo. Palmeira nativa do Nordeste, chamada a “árvore da vida”, sua cera tinha largo uso industrial, a palha e talo serviam para fazer a casa, o mobiliário e utensílios da casa do sertanejo. Ainda serve para fazer esteira, bolsa, chapéu, urupema, vassoura e outros utensílios. A sua madeira serve à construção civil, de móveis, currais, cercados, pontes, tubos e bomba d’água.

Seu Idalino Gregório arrendava o carnaubal miúdo. Saía cortando, estendendo a palha para secar, tirava o pó, fazia a cera. Os seus filhos e filhas, inclusive a Rita, também ajudavam nesse serviço de coleta. Atualmente, sem mais prestígio econômico, a carnaubeira está sendo ameaçada de desmatamento total na Várzea do Açu, para dar lugar as novas frentes agrícolas, principalmente a fruticultura de exportação.

Se bem chovia, plantavam-se roçados de feijão, milho, jerimum, melancia, a safra dividida, de “meia”, com o patrão, os Camilos. Seu Idalino colhia os seus roçados e ainda trabalhava “alugado” apanhando a safra nos roçado dos vizinhos. Safras de castanha de caju, de algodão, no corte da palha de carnaúba e até na salina na salina, onde o seu filho Manuel trabalhou de cuca (cozinheiro) na salina. Eles também pescavam nas camboas e no mar, e caçavam com cachorro pelos tabuleiros caatinga adentro a pegarem preá, punaré, tejo, peba, marical. Nos primeiros anos da década de 40, os últimos anos que a família de seu Idalino e Maria Francisca das Chagas viveu na Várzea do Açu, foram anos de secas brabas, o que mais motivou a migração nordestina para o “Amazona”.

61 anos atrás: A ida para a Amazônia no tempo da borracha

Na década de 30 aconteceram alguns fatos políticos marcantes no Rio Grande do Norte e no Brasil, dos quais certamente o povo de seu Idalino Antunes Gregório e dona Maria Francisca das Chagas, os pais da mocinha Rita Gregório, ouviram falar muito: o assassinato do presidente (governador) paraibano João Pessoa, a ascensão de Getúlio Vargas, o movimento comunista da tomada de Natal, a morte de Lampião e a 2ª Grande Guerra Mundial. Com a guerra houve a perda dos seringais da Malásia, que supriam de borracha os aliados, e a única fonte de abastecimento situava-se na Amazônia. Tais fatos iriam mudar a vida desses Gregórios para sempre, e a de dezenas de milhares de nordestinos, que iriam para a Amazônia, convocados para a “batalha da borracha”. Pelos sertões afora só se ouvia falar de quanto se enricava na borracha.

De abril a agosto de 1943, mais de 4 mil nordestinos entraram em Manaus. Muitos não iam para o interior, desencantados no fracasso da “batalha da borracha”, ficavam ali mesmo iniciando o processo de favelização da capital amazonense, e popularizando o imigrante nordestino chamado “arigó”, que a crônica policial mais ajudou a espalhar a sua má fama.

Em 1944 apareceu um agenciador de imigrantes na Várzea do Açu, onde morava a jovem Rita Gregório, seus pais e irmãos. O homem ganhava por cabeça convocando o povo para ir para a borracha. Conta-se que a jovem Rita, então com dezenove anos de idade, era uma alegria só com a decisão familiar de ir para a Amazônia: “Vamos s’embora minha gente, lá é que é a terra para se ganhar dinheiro”.

Partiram do sítio Saco, num caminhão tipo pau-de-arara, às onze horas do dia 28 de abril de 1944. É natural que tenha havido lágrima de despedida, mas é certo que houve maior euforia dessa família de seu Idalino Gregório amontoada em bancos atravessados à carroceria do caminhão, coberto de lona, chamado pau-de-arara.

A viagem marítima de Fortaleza a Manaus, previa-se durar quatro dias. O navio a vapor singrou as águas atlânticas em procura de Manaus, apinhado de imigrantes “soldados da borracha”, muitos deles levando suas famílias. O navio ia sendo comboiado por outros militares, pois havia o perigo de torpedeamento nazista.

Depois de Belém, o navio seguiu viagem no grande Amazonas. Quando desembarcaram em Manaus, fazia três dias que tinha saído um navio “gaiola” para Rio Branco, no Acre, para onde seu Idalino pensara ir. Um irmão menor de Rita, chamado João Batista, enfermo, fraco, debilitado da viagem de semanas, não resiste, morrendo ali mesmo em Manaus. A mãe Maria Francisca das Chagas, aflita, depois que sepultou o filho disse que não ficaria mais um dia sequer na cidade. Foi então que chegou um seringalista do Alto Juruá, atrás de cinco famílias para levar para lá. Os filhos de seu Idalino combinaram com o velho, e transferiram o projeto de viagem, que era de ir para Rio Branco, para o Rio Juruá.

Rumo ao Juruá: A moça do sonho de Sebastião, o encontro com Mestre Irineu no Alto Santo

Saíram de Manaus em julho e chegaram em agosto de 1944 no destino final da viagem: Eirunepé. O jovem Sebastião Mota de Melo morava num seringal vizinho ao local onde a família de seu Idalino se instalou. Quando o rapaz viu aquela imigrante nordestina de rosto redondo e alegre, não teve dúvida. Era ela a moça para se casar que ele tinha visto em sonho.

Sebastião e Rita casaram-se no final dos anos 40. No período de sete anos que essa família viveu no Juruá, nasceram os primeiros filhos do casal: Waldete, o primogênito, e Walfredo (hoje o Padrinho Alfredo, sucessor de seu pai no comando do CEFLURIS). Em 1951, o velho Idalino mudou-se para Rio Branco, Acre, com a esposa e filhos, entre os quais Rita e seu esposo Sebastião com os filhos (além dos dois mais velhos, tiveram também Maria das Neves, Iracema, Pedro, Ivanildo, Isabel, José, Raimunda Nonata e Marlene). Estabelecendo-se na Colônia Santa Maria, parte da chamada “Colônia Cinco Mil”, próxima a Estrada de Porto Acre, viviam todos como vizinhos, dedicados à lavoura e à pecuária, mas também trabalhando espiritualmente.

Em meados dos anos 60, Sebastião Mota de Mello conheceu o Santo Daime sendo curado pelo Mestre Raimundo Irineu Serra. Começou então a sua iniciação e de sua família na Doutrina do Santo Daime, e Sebastião Mota tornou-se “feitor” (preparador da bebida), dando seqüência a seus trabalhos de cura: em 1974, fundou-se o CEFLURIS sob a liderança natural do Padrinho Sebastião, e desse modo os Gregório de Mello vieram a constituir o verdadeiro clã daimista que temos hoje.

Concluímos assim esta nossa merecida homenagem à Madrinha Rita, apresentando o hino com que seu filho Waldete a presenteou em seu caderno de hinário:

Salve todas festas juninas
Salve os santos destes festejos
Salve, salve, salve, salve
Santo Antônio, São João e São Pedro

Salve a aniversariante
Que também é deste calendário
Salve, salve, salve, salve mamãe
Parabéns por seu aniversário

Parabéns, parabéns, parabéns mamãe
parabéns por seu aniversário
Parabéns, parabéns, parabéns mamãe
Por nos dar este hinário

Parabéns, parabéns, parabéns mamãe
Parabéns por seu aniversário
Parabéns, parabéns, parabéns mamãe
Que Deus lhe dê mais de um centenário

Parabéns, parabéns, parabéns mamãe
Eu te dou com alegria
Parabéns, parabéns, parabéns mamãe
E assim seja de toda família

***

Francisco Nóbrega* é jornalista e pesquisador de cultura popular nordestina. Radicado em Campina Grande (PB), fundador do Centro Eclético Fluente da Luz Universal Alex Polari, ele, no entanto, é potiguar do vale do Açu, conterrâneo de Rita Gregório.