Francisco Fernando Filho, o "Padrinho Tetéu",
por Thiago Martins e Silva Hoff. [1]
 

 

Francisco Fernando Filho, TetéuTexto da saudosa revista virtual Arca da União [2], número 9, de Junho de 2007.

Nascido em 13 de dezembro de 1917 em São Luis do Ceará, Francisco Fernando Filho, mais conhecido como "Tetéu", filho de Francisco Fernando Lima e Idalina Fernando dos Santos, veio para o Acre bem novo com os pais e com a então esposa Chicuta.

Os pais o deixaram aqui e voltaram para o Ceará. Com a primeira esposa, Tetéu teve seis filhos (Francisco, já falecido; Zeca; Quinca; Francisquinha; Maria; e Maria da Paz). Quando questionado o motivo de sua vinda ao estado do Acre, Tetéu retinha-se a responder que foi trazido por uma força superior, o que o Mestre Irineu confirmava em seus ensinamentos dizendo que o Daime aproxima quem tem missão dentro da doutrina. Vale lembrar desde já que foi um dos primeiros seguidores do Mestre Raimundo Irineu Serra.

Já à frente dos trabalhos no Alto Santo, após o falecimento do sr. Leôncio Gomes da Silva, separou-se da primeira esposa Chicuta. Conheceu e, começando por uma brincadeira, findou por se casar com dona Francisca Silva Sousa, conhecida como dona Hélia. Com Hélia, Tetéu conviveu três anos e meio sem ter uma briga antes de fazer a passagem para o plano astral em 21 de junho de 1985. Com dona Hélia teve sua filha mais nova, Maria do Carmo Sousa, hoje com 24 anos.

Tetéu fez muitos amigos na nova terra, principalmente dentre os irmãos da doutrina. Contudo, é impossível falar de Tetéu sem falar de sua amizade com o senhor Leôncio. Para descrever tamanha amizade, basta lembrar de um de seus hinos em que ele afirma: “Tenho dois em um corpo só / O presidente e o comandante”. Na época em que recebeu esse hino, o senhor Leôncio era o presidente e Tetéu era o comandante do salão do Alto Santo. O hinário O Assessor recebido por Tetéu é considerado como sendo dele e do amigo Leôncio. A amizade entre os dois era muito grande e reconhecida por toda irmandade. Tetéu sempre trabalhou com agricultura e nessa época trabalhava para Leôncio tomando conta de seu gado e sua terra quando era necessário.

Francisco Fernando chegou a morar na casa de Mestre Irineu por mais ou menos três anos. Mas, em grande parte de sua vida, suas únicas companhias materiais durante os dias da semana eram suas grandes amigas Maria e Chica Preta. Enchia a boca para responder, a quem perguntasse se ele estava sozinho, que ele morava com a Maria (uma gata) e com a Chica Preta (uma cadela).

De família simples e quase que analfabeto por falta de oportunidade em freqüentar o banco da escola, Tetéu passou por várias dificuldades em seu caminho. Um sinal que foi arrancado por um toco em um acidente em que ele levou um tombo virou uma enfermidade que maltratou bastante seu corpo, mas dessa enfermidade ele se curou com bastante fé e trabalhos com o Santo Daime. Tetéu acabou falecendo de câncer, depois de ter sofrido muito com a doença. Apesar de muito fortes as dores, ele não deixava transparecer o sofrimento que vinha passando, não lamentava e não deixava de rir. Sofria calado. Poucos à sua volta sabiam da gravidade da doença e de como Tetéu vinha sofrendo.

Em fase terminal, os médicos aceitaram o pedido de Tetéu para ir para casa. Ele saiu do hospital para fazer a passagem na casa do senhor Dilmo e dona Miriam, seu sogro e sua sogra. Passou oito dias em casa. Antes de fazer a passagem, pediu para que madrinha Peregrina, seu Luiz Mendes, os irmãos Raimundo Fernando, Pedro Fernando e Cícero o visitassem para enfatizar que não havia guardado nenhum sentimento ruim das discordâncias durante o seu trajeto espiritual. Em seu velório, para atender sua vontade, seu caixão foi colocado alguns minutos em cima da sepultura de seu grande amigo Leôncio, enterrado ao lado esquerdo de Mestre Irineu.

Francisco Fernando estava ensinando seu hinário para sua esposa, dona Hélia, ser a guardiã de tão bela mensagem, mas, devido à doença que o atormentava e já não o deixava sem fortes dores, não houve tempo hábil para dona Hélia aprender todos os detalhes do hinário. Oficialmente, a pessoa responsável por zelar o hinário de Francisco Fernando era Maria Zacarias, cunhada da madrinha Peregrina Gomes Serra.
De todos seus filhos, a única que seguiu o caminho do pai na doutrina do Daime foi Maria do Carmo, a qual tinha apenas dois anos quando seu pai faleceu. Tetéu lamentava por seus filhos não tomarem Daime e não poderem tomar conta de seu hinário.

O senhor Leôncio passou para seu assessor Francisco Fernando o comando do Alto Santo assim que ficou doente. Depois de algum tempo que o senhor Leôncio fez a passagem, Francisco Fernando liderou a fundação de uma nova igreja registrada como CICLU. Alguns fardados acompanharam Tetéu, como a família de dona Miriam, a família de Luiz Mendes do Nascimento, Zito e família, Dedé e família, Paulo Serra, Manoel do seu Valsírio, Nica e outros poucos. Os fardados que resolveram sair junto com Tetéu começaram cantando em uma sala, depois em uma sede de chão batido junto à casa de moradia de Tetéu, ainda dentro do bairro da cidade de Rio Branco que hoje tem o nome de Raimundo Irineu Serra (vale lembrar que essa região hoje é uma Área de Preservação Ambiental – APA Raimundo Irineu Serra). Hoje o CICLU fundado por Tetéu e alguns companheiros já não existe, sendo que muitos desses que acompanharam Tetéu fundaram outros Centros e lideram trabalhos dentro da linha original de Mestre Irineu.

Ainda quando todos esses faziam os trabalhos espirituais juntos, os puxadores do hinário de Tetéu eram Saturnino do Nascimento (hoje dirigente do CEFLI em Capixaba-AC), e os irmãos José e Antonio Silva Sousa (hoje dirigentes do CEFLIMMAV em Rio Branco-AC). Hoje a responsável por seu hinário é a filha caçula Maria do Carmo, fardada no Ceflimmav, a qual afirma que seu pai ainda a ajuda em todos os momentos, principalmente durante os hinários. Apesar de ter crescido sem a presença do pai materialmente, ela tem um carinho muito especial por Tetéu e cultiva características que todos que conviveram com Tetéu confirmam que eram inerentes à sua personalidade, como o jeito de tratar as pessoas e o jeito brincalhão, calmo e risonho. Saturnino lembra com saudades de como Tetéu era brincalhão e gostava de estar no meio dos mais jovens. Enquanto estava vivo, Maria do Carmo era o xodó de Tetéu.

Algumas curiosidades sobre Francisco Fernando mostram como era uma pessoa importante e especial dentro da doutrina de Juramidam. Sua esposa Hélia lembra o dia em que começou a ter uma atenção especial por ele. Fazia pouco tempo que ela havia se fardado. Tetéu era o comandante do trabalho. Em um trabalho especial no túmulo do mestre Irineu, Hélia passou um apuro por ter tomado uma quantidade consideravelmente maior do que estava acostumada de Daime. Naquela aflição, teve que se sentar e ser socorrida por outros irmãos. Entretanto, a aflição não passou até que Francisco Fernando chegou perto dela, encostou acidentalmente seu joelho no dela e pediu para que se firmasse e se levantasse. No mesmo momento ela foi banhada por um sentimento de quietude e teve forças para se levantar. Mesmo não tomando mais Daime naquele trabalho, ela percebeu que aquele homem tinha algo especial.

A imagem mais comum do irmão Francisco Fernando é ele usando seu chapéu de massa, como na foto abaixo com sua última esposa, dona Hélia e seu cunhado Raimundo Sousa. Ele não gostava de chapéu de palha, só usava o dele. Mesmo durante os trabalhos espirituais ele colocava o chapéu quando saia do teto da igreja em que estava. Ele explicava que o chapéu era a sua proteção da croa, (em outras palavras, Sahasrara, o mais importante de nossos sete chakras, o chakra da coroa por onde o contato com o outro plano é feito), o que mostra sua grande conexão com o divino.

Francisco Fernando Filho, sua última esposa, dona Hélia e seu cunhado Raimundo SousaFrancisco Fernando gostava de feijão de corda, toucinho de porco e traíra cozida de uma maneira peculiar, em três águas, de acordo como havia aprendido no Ceará. Sempre batia o pé acompanhando o hino quando cantava sentado. Mesmo analfabeto, não deixava trocar ou errar uma palavra se quer em seu hinário. Uma fala típica em suas palestras era que “quando a dor na consciência vem cobrar, ela vem e é pesada!”. Seu jeito era sempre calmo, mas “metia o relho” em quem merecesse.

Seu apelido carinhoso nasceu de brincadeiras feitas pelos irmãos e amigos da doutrina devido ao fato de Francisco Fernando dormir poucas horas por dia. A origem do nome tetéu é onomatopaica, pois imita o canto de um pássaro que é conhecido pelo mesmo nome. Esse pássaro é famoso por não dormir muito, ficar ligado todo momento. Dizem que este pássaro dorme com o pé no pescoço para quando o pé mexer, ele acordar rapidamente. E os amigos de Francisco Fernando o consideravam muito alerta, sempre atencioso ao que se passava ao seu redor. Mais para o sul do país, o pássaro tetéu é conhecido como quero-quero, tero-tero, teréu-teréu, téu-téu, terém-terém, gaivota preta, espanta boiada e chiqueira.

Com 132 hinos, seu hinário, bonito e disciplinador, dá energia a qualquer pessoa que esteja na doutrina de Juramidam, não importa se chegou a poucos trabalhos ou há algumas décadas. É praticamente impossível se ouvir “Eu tomo Daime / Eu tomo Daime / Não tenho medo de tomar” sem uma energia revigorada dos participantes do trabalho. Outros hinos também são consagrados pelos que partilham da doutrina de Juramidam como “é um, é dois, é três / é quatro, é cinco, é seis / quem não estiver compreendendo / tome Daime outra vez” ou “O Daime me balançou / O Daime me segurou”, entre outros.

Sua lembrança para quem o conheceu ficou marcada pelo seu jeito de tratar as pessoas, calmo, muito brincalhão, franqueza, lealdade, caridade e muito amigo. Para quem não pôde conhecê-lo pessoalmente, como eu, seu hinário passa sua vida de batalha e ensinamentos, mostrando que devemos “ser para o Mestre o que o Mestre é para nós”, ensinando assim a sincera lealdade aos irmãos e devoção ao nosso Mestre e à nossa doutrina. Seu hinário enfatiza a justiça divina, e a segurança que Juramidam nos proporciona e sempre traz belas lições.

Que todos que comungam dessa santa bebida possam aprender a ser verdadeiros irmãos como os tão queridos irmãos Francisco Fernando Filho e seu grande amigo Leôncio.

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O Daime me balançou
O Daime me segurou 
O poder que o Mestre tem 
O mesmo Daime me mostrou

Me concentrei no Presidente 
Logo ele chegou
Fiquei alegre e satisfeito
Em conhecer o seu valor

Fiquei alegre e satisfeito
Em conhecer o seu valor
Os que estiverem com ele
Estão com o Mestre Ensinador

Pedi conforto a meu Mestre
E à Virgem que me levou
Para mim poder chegar
No lugar aonde estou

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[1] Thiago Martins e Silva Hoff, brasiliense, 25 anos, é Engenheiro Florestal formado pela Universidade de Brasília - UNB e Permacultor formado pelo Instituto de Permacultura: Organização, Ecovilas e Meio Ambiente - IPOEMA. Pós-graduando em Manejo, uso e manipulação de Plantas Medicinais pela Universidade Federal de Lavras - UFLA, atualmente trabalha na Secretaria de Floresta do Estado do Acre - SEF, em Brasiléia-AC. Contato: thcaapi@gmail.com

[2] Arca da União foi uma revista virtual que teve seu primeiro número lançado em junho de 2005 e o último, de número dez, em setembro de 2007, reunindo artigos de daimistas, pesquisadores acadêmicos e simpatizantes em geral, debatendo assuntos da espiritualidade e do universo ayahuasqueiro.