Genealogia da Doutrina do Santo Daime - A Família Juramidam
 
 
O Arraial do Alto Santo
 
O Arraial do Alto Santo
Por Antônio Alves
 

 

Tem coisas que o tempo leva... Mas um dia traz de volta. Só os que têm mais de 50 anos de idade podem lembrar com nitidez os grandes arraiais da cidade de Rio Branco, no tempo em que se colocavam cadeiras na beira da rua para a conversa de vizinhos, quando a usina apagava a luz antes da meia noite e a Difusora saía do ar. O tempo das grandes friagens no início do verão amazônico.

Os que hoje são “antigos” ainda lembram dos mais antigos e seus costumes trazidos do Nordeste. No meio de tudo, a festa: o arraial e a quadrilha com mungangos de caipira, o forró e o mungunzá, a fogueira e o foguetório. E o namoro com promessas e simpatias pode dar em casamento.

Longe da cidade, lá pras bandas da Custódio Freire [veja no mapa], onde a rural Willys e o Jeep só entravam no verão, o povo do Mestre Irineu fazia um dos arraiais mais animados. Ia gente da cidade toda, que a comunidade do Alto Santo era muito conhecida e frequentada.

Alto Santo porque era um lugar elevado, nas terras altas depois do igarapé São Francisco, abreviação do nome Alto Santa Cruz que o Mestre Irineu tinha dado para rebatizar a antiga Colocação Espalhado do grande Seringal Empresa. Alto também –e santo, é o que o povo dizia- era o velho Irineu Serra, que curava os doentes desenganados pelos médicos com sua reza forte e com o Daime, que era como ele chamava a ayahuasca, bebida medicinal e espiritual dos índios que ele usava para ensinar os cristãos.

No arraial, o Mestre descansava seus quase dois metros de altura e seus quase oitenta anos de idade numa cadeira na “casinha das prendas” e ficava olhando a animação do povo, conversando com os visitantes, dizendo “Deus lhe abençoe” quem vinha lhe beijar a mão, aconselhando os que precisavam, lembrando histórias de tempos passados e avisando sobre os tempos difíceis que haviam de vir.

E vieram, esses tempos turbulentos. No início do verão de 1971 a comunidade se animou pra fazer arraial, mas o Mestre não deixou. Disse que naquele ano não tinha. Em julho, “viajou para o mundo espiritual”, como dizem seus discípulos. Nesses 40 anos que se passaram desde então, o mundo tremeu e se balançou muitas vezes.

O povo do Alto Santo seguiu com o trabalho do Mestre, com a liderança de seus antigos companheiros e de sua esposa, dona Peregrina, mas o arraial nunca mais foi o mesmo.

Nos anos 80 e 90 a tradição ainda se manteve no terreno da escola, onde os jovens da comunidade fizeram alguns arraiais com a animação de sempre, mas com pouca divulgação na cidade, mais para o pessoal da comunidade mesmo. Mas este ano dona Peregrina resolveu trazer de volta o grande arraial dos bons tempos. E quem passa na estrada, em frente à sua casa, vê uma grande turma de trabalhadores cobrindo barracas com palha de ouricuri e um grupo animado ensaiando a quadrilha.

Antigamente era assim: o pessoal saía pelas colônias, às vezes ia pra lá da Aquiles Peret, comprando galinhas para o bingo. Cada um trazia uma prenda, vendia uma cartela, dava um dia de serviço, um pouco de dinheiro - se tivesse- e a festa acontecia. Agora voltou, mas com as diferenças do tempo, é claro.

O lugar onde ficava a “casinha das prendas” é hoje local sagrado, escolhido pelo próprio Mestre para ser colocado seu túmulo, onde hoje tem uma capela que é a coisa mais linda, quem não viu vai ter oportunidade de conhecer. E as barracas vão ficar em frente à casa da Madrinha Peregrina, de onde se pode ver o antigo casarão de madeira onde ela e o Mestre moravam, hoje tombado pelo Patrimônio Histórico e transformado em Memorial.

Mas o esforço da comunidade ainda é o mesmo, cada um dando o que pode para fazer uma grande festa. E o dinheiro que for arrecadado, também como nos tempos antigos, será usado em benefícios para a comunidade. Este ano, para a recuperação da sede (o templo dos trabalhos religiosos) e construção do estacionamento.

No mais, é como antigamente: as músicas do tempo do ronca, aquelas tradicionais, que até os mais jovens do Alto Santo ainda conservam e gostam de tocar, a quadrilha bem simples e cheia de mungangos, a “puliça” prendendo e multando quem não se comportar direito, o bolo de macaxeira e a canjica de milho, todas aquelas comidas de arraial que nem é preciso falar e um panelão de caiçuma. Mas tem novidades: uma programação cultural com apresentações de músicos e cantores, grupos de teatro, pastorinhas.. e a programação da Rádio Cipó com mensagens e melodias para a capital, o interior e o resto do mundo.

Os bons tempos estão de volta. É neste fim de semana: 27, 28 e 29, depois das seis da tarde. Só quem é muito besta, pra perder.

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Texto retirado do blog do Altino